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O perigo das coligações

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* Diógenes (Didi) Pasqualini

Historicamente, essas duas agremiações têm origens bem parecidas. Na década de 70, quando havia esperança da volta à democracia, lideranças articulavam um partido que representasse a classe dos trabalhadores que fosse além dos sindicatos. O sistema partidário composto por apenas dois partidos, o MDB e Arena, acolhia parcialmente aqueles que discutiam política, mas muito veladamente, sob o pesado manto do regime militar. Com a abertura da política, os movimentos grevistas, ativistas clandestinos de esquerda, movimento revolucionário como MR-8 e outros, foram buscando espaço nos recém-formados partidos no início dos anos 80. Até aqui, o recorte acima destina-se a entender um pouquinho a base que (ainda) sustenta o poder em Brasília. A origem dela é bem parecida, porém ideologicamente muito diferente. O MDB sempre foi aquilo que se considerou “semioposição” (Litz, 1973), enquanto os partidos de esquerda tiveram suas origens nos movimentos.

Interessante ou não, a combinação PT/PMDB, ou qualquer outra, mostra que as coligações são sempre um perigo quando a situação exige coesão, coerência e a transição de momento confortável a delicado. Isto porque, quando a situação econômica ajuda, a retórica é “nosso projeto político”, é o melhor; mas em momentos de crise “o outro” não sabe fazer. Se foi eleito um grupo, por que destituir uma parte? Para ser mais correto, creio que o Juiz Márlon Reis, um dos idealizadores do Ficha Limpa, é bem categórico: se a intenção do impeachment é dar resposta à crise política, não deve ser aplicado só à presidente, mas à chapa que chegou ao poder.

De volta àquilo que inspira este texto, enxerga-se com muita clareza hoje em dia que as coligações, excetuando-se raríssimas exceções, têm se tornado objeto de poder a qualquer preço e mostram também como os partidos que se prestam a este tipo de moldagem pecam ao não ter projetos para que a população possa ter opções de escolha. O que era para ser riqueza de escolha se tornou quase que bipartidarismo moderno. Hoje, são mais de 30 os partidos, mas não mais do que três ou quatro concorrem às eleições nos municípios médios. Se é assim, qual é o motivo de sua existência, senão concorrem com chapa completa?

Outro argumento que, talvez, ajude a pensar mais adequadamente a questão – e assim entendermos melhor o primeiro parágrafo deste texto – se refere à ideologia. Por Foucault, ao citar Althusser, ela se relaciona a atitude, gestos, formações complexas. Por (Eagleton, 1997), tem a ver com legitimar o “poder de uma classe ou grupo social dominante”. Mas a mais interessante é a daquele de quem é considerado o pai do termo ideologia, Destutt de Tracy, que nos brinda com ciência das ideias, lei, fundamento, proposição, raiz, domínio… Talvez muita gente fale dela, mas poucos conhecem sua origem, e é visível como a empregamos de maneira equivocada.

Assim, mesmo com os poucos argumentos que este texto apresenta, é possível refletir sobre os motivos pelos quais cada partido deve juntar simpatizantes, pessoas que compartilhem das mesmas ideias, crenças, projetos, conhecimento de coisas e que possam arcar com as responsabilidades de seus atos – ser reconhecido ou descartado, se for o caso.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político, Propaganda Eleitoral, Mestre e Doutor em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8

Diógenes José Pasqualini
Diógenes José Pasqualini possui graduação em Comunicação Social pela Universidade Metodista de Piracicaba-SP, especialização em Marketing Político e Propaganda Eleitoral pela Universidade de São Paulo (USP). É mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Tem experiência nas áreas de jornalismo, propaganda, editoração, fotografia, campanhas eleitorais, marketing político e governamental. Foco de pesquisa concentra-se no estudo da mediação discurso político e a sua geração de sentido e consumo no meio ambiente.

1 COMENTÁRIO

  1. Acho que não tem nenhum país com mais partidos do que o Brasil, todos oportunistas. Se forem investigados de perto eu duvido que qualquer um deles se salve. Quando eles se juntam, trocam ou vendem ideais, negociam verbas, cargos, formas de eleger bandidos com votos de legenda… Nós sofremos as consequências. É triste.

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