Início Jornalismo Político O Jornalismo é crítico aos agentes políticos. Isto é problema?

O Jornalismo é crítico aos agentes políticos. Isto é problema?

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A literatura dedicada a compreender os fenômenos relacionados ao Jornalismo político ressalta, em diversos momentos, que a cobertura prioriza os conflitos existentes entre os diversos agentes, bem como se concentra nas disputas acerca do jogo político, tratando os envolvidos com certo cinismo e desconfiança. A depender da identificação ideológica e/ou partidária, também é comum que o cidadão critique a cobertura desenvolvida em direção ao campo político – ou a parte dele. De acordo com o desenrolar de escândalos políticos, por exemplo, o debate sobre os limites da cobertura torna-se mais acirrado. Partindo da ideia de que a cobertura jornalística tende a ser crítica em relação aos agentes políticos, questiona-se se isso seria inadequado ao papel que se espera do campo do Jornalismo em uma democracia ou se fere os compromissos que tal campo argumenta manter com a sociedade.

A fiscalização do campo político é uma das importantes contribuições oferecidas à democracia pelo Jornalismo – sendo também uma forma de os produtos jornalísticos legitimarem sua autoridade. Mais que uma maneira de constranger os agentes políticos, é um espaço para o Jornalismo afirmar-se como necessário para a sociedade. Priorizar uma cobertura negativa em direção ao campo político é uma maneira de mostrar-se confiável e reforçar o vínculo com a audiência, assim como os critérios para produção jornalística também ajudam a considerar certos acontecimentos e personagens como mais pertinentes para a cobertura.

O processo de definição de pautas e do destaque a ser conferido a certos fatos é dependente das regras para produção jornalística, mas também o influenciam fatores como os interesses das empresas e dos profissionais – especialmente, em coberturas “especiais”, como sobre escândalos ou acerca de eleições. Neste momento, o campo jornalístico corre o risco de permitir que interesses políticos ou econômicos se sobreponham ao interesse público – enviesando a cobertura ao inflar denúncias em direção a agentes políticos específicos ou poupando outros. Em um momento polarizado politicamente como se vive no Brasil, o Jornalismo precisa ser mais cuidadoso para não cair em um dos extremos, mesmo que isso signifique desagradar uma parte de sua audiência que deseja apenas visibilidade negativa aos adversários.

A fiscalização do campo jornalístico em direção ao político é algo desejável. Justamente por isso, é necessário que o Jornalismo garanta, ainda mais, um produto equilibrado e fruto de apuração responsável. Caso estes requisitos sejam desconsiderados em nome dos compromissos ou dos interesses das empresas, enfraquece-se o papel do Jornalismo, com prejuízos para toda a sociedade. É este cenário delicado que profissionais e periódicos encaram em períodos com efervescência de acontecimentos como o atual, o que requer cautela, se pretendem oferecer um material condizente com o interesse público.

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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