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O impacto da ciência na vida real

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por Guilherme Arbache

Recentemente, uma matéria do New York Times apontava para o fato de que os cientistas, e principalmente os cientistas políticos, não estão causando impacto sobre a sociedade. Linguagens difíceis (com excesso de matemática), pesquisas sobre temas que não têm muita importância na vida real, e a dificuldade de prever fenômenos como a Primavera Árabe estariam entre as razões desse isolamento entre a academia e o mundo da realidade.

No Brasil, uma polêmica semelhante foi gerada há alguns anos quando Luis de Camões, sociólogo da Unb, publicou O Fetichismo do Conceito, um livro que ataca a sujeição de problemas reais a conceitos teóricos desenvolvidos por autores clássicos das ciências sociais.

O jornalista Nicholas Kristof, que assina a matéria do New York Times, acredita que isso não acontece apenas por acidente, mas existe um esforço proposital, consciente, de certas instituições como a importante International Studies Association, em isolar os acadêmicos do mundo da prática, ao tentar proibi-los de manter blogs pessoais.

No Brasil, uma polêmica semelhante foi gerada há alguns anos quando Luis de Camões, sociólogo da Unb, publicou O Fetichismo do Conceito, um livro que ataca a sujeição de problemas reais a conceitos teóricos desenvolvidos por autores clássicos das ciências sociais.

Acadêmicos como Erik Voeten rebateram a crítica de Kristof (veja aqui). Como eles apontam, cientistas políticos estão se esforçando cada vez mais para ter inserção em debates públicos sobre temas importantes. Voeten também discorda da  crítica de Kristof à utilização massiva da matemática nos textos acadêmicos de áreas como a ciência política. De fato, King, Keohane e Verba, em livro canônico de Metodologia para cientistas sociais, argumentam de maneira contundente que os estudos quantitativos são imprescindíveis para generalizar e comprovar relações causais para fenômenos sociais.

Sobre essa questão, talvez o problema não esteja na utilização da matemática, mas muitas vezes está na linguagem utilizada para reportar os resultados. O próprio Gary King, junto com dois colegas, defende uma linguagem mais clara (e correta, segundo ele), que fale mais claramente sobre o impacto de um fator X sobre um fator Y ao invés do jargão acadêmico da “significância estatística” (veja aqui). Eles não se limitaram a sugerir essas mudanças na linguagem, mas também criaram um pacote estatístico para interpretar resultados de maneira mais clara, com gráficos e visualizações bem úteis.

Talvez os acadêmicos que discordaram da crítica de Kristof estejam certos no sentido de que esforços para ter uma influência sobre o mundo além da academia tem sido realizados, ou no sentido de que a matemática não é um problema. Mas é difícil negar que a tendência apontada por Kristof e pelo sociólogo brasileiro existam. Assim como o mercado financeiro acaba se perdendo da “economia real”, parece que a ciência muitas vezes se perde da vida prática. E por que isso acontece?

Como Voeten coloca, os cientistas políticos se opuseram veementemente à proposta da International Studies Association de proibir a manutenção de blogs pessoais – aliás, os blogs de acadêmicos dessa e outras áreas correlatas estão se proliferando vertiginosamente. Portanto, o problema talvez esteja na estrutura das instituições que promovem, administram e fazem ciência, mais do que nos cientistas em si.  Pensando de maneira simplificada, se ao realizar um Mestrado e um Doutorado um indivíduo fica circunscrito a um tema por um bom tempo, e além disso, segundo artigo da Times Higher Education, com cobranças fracas em relação ao seu desempenho. Depois, como Kristof aponta, ao avançar na carreira e conseguir cargos estáveis (como as “tenure positions”), os pesquisadores recebem pouco incentivo para produzirem conteúdos de impacto na realidade.

Ademais, no caso do Brasil, como uma matéria anterior neste mesmo blog indicava, há um incentivo para produção de artigos em massa, ou seja, para que a pessoa produza mais e aumente suas “linhas no currículo”, e a qualidade fica em segundo lugar. Nessa imensidão de material acadêmico, fica mais difícil de achar trabalhos com resultados importantes para as vidas das pessoas. Também fica mais difícil que o peer-review seja feito de forma eficiente.

Além da estrutura de incentivos, existe uma outra limitação muito básica: os recursos e oportunidades disponíveis para os pesquisadores. Nem sempre há dados sobre um problema real e importante que alguém pretende estudar, especialmente em países menos desenvolvidos e com uma tradição fraca em organização e disponibilização pública de dados, como o nosso.

Houve alguns avanços em algumas dessas limitações e há maneiras de avançar ainda mais. Se as revistas brasileiras, por exemplo, começarem a exigir a publicação de bancos de dados para os artigos que publicam, esse problema de fontes de dados seria reduzido. Se encontrarmos maneiras de incentivar trabalhos científicos mais relevantes, também contribuiremos para uma maior inserção da ciência na vida pública. Nem sempre é possível isso, já que alguns fenômenos só podem ser abordados cientificamente depois de alguns anos, quando o processo todo já se desenrolou e existem informações mais qualificadas sobre o assunto.  Mas temos que fazer nossa parte.

 

REFERÊNCIAS:

KING, Gary; KEOHANE, Robert O.; VERBA, Sidney. Designing social inquiry: Scientific inference in qualitative research. Princeton University Press, 1994.

 

autor convidado
O Blog Comunicação e Política agradece a todos seus autores convidados pelas suas contribuições.

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