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O “depoimento” de Valério à revista Veja – texto de Wilson Gomes

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Talvez Lula tenha sido um chefe de quadrilha e Veja uma revista que desempenhou, em suas próprias palavras “papel fundamental no processo de deputação da vida política nacional”. Talvez. Mas, por enquanto, os fatos:

1) Na edição de 19 de setembro, Veja traz uma capa com o título OS SEGREDOS DE VALÉRIO e, entre aspas, a modo de citação, o seguinte texto “Não podem condenar apenas os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio e o Zé não falamos”. O que devemos concluir? Que Marcos Valério, uma das peças-chaves do escândalo (de desvio de verbas públicas, corrupção, lavagem de dinheiro e compra de votos de políticos) do Mensalão, contou a Veja coisas terríveis sobre Lula.

2) No interior da revista, um conjunto de matérias ocupa 7 páginas sob o título OS SEGREDOS DO MENSALÃO. Nelas deveriam estar as revelações bombásticas acerca de Lula. Uma delas abre com o subtítulo, entre aspas, “Lula era o chefe”. No conjunto, um monte de frases em que se apresentam as declarações de Marcos Valério: “Valério afirma que Lula ´comandava tudo´” (p. 66), …”´Lula era o chefe´, repete Valério…”, “A narrativa de Valério…”, “Valério não esconde…”, “Marcos Valério reafirma….”, “O empresário conta que…”, “Valério diz que….”, “O empresário jura que…”, “Marcos Valério diz…”, “Ele jura que…”, “Valério conta que…”. Não resta dúvida, então, de que Marcos Valério contou tudo a Veja, não é?

3) Na página 12, o editorial de Veja, a “Carta ao Leitor”. Lugar tradicional em que Veja elogia copiosamente a imprensa (na verdade, falando de si) e ou tece loas ao próprio brilho. O título não deixa dúvidas: “Lula era o chefe”. Há ali, contudo, uma curiosa expressão que transcrevo: “Uma reportagem exclusiva desta edição do editor Rodrigo Rangel, da sucursal de Brasília, FEITA COM BASES EM REVELAÇÕES DE MARCO VALÉRIO A PARENTES AMIGOS E ASSOCIADOS, reabre de forma incontornável a questão da participação do ex-presidente no mensalão”.

4) Peraí… Se me lembro bem, num editorial a revista estabelece o seu contrato explícito com o leitor. Neste espaço sacrossanto da sua credibilidade, mentir, então, nem pensar. Veja então me diz aqui, in fide, que “revelou” todas essas barbaridades sobre Lula numa “reportagem exclusiva” “feita com base em revelações (…) a parentes, amigos e associados”? Quer dizer que parentes, amigos e associados são agora no jornalismo fonte suficiente para dispensar a entrevista diretamente feita à fonte? Quer dizer que se que eu quiser obter declarações importantíssimas de uma fonte que tem a posse de um conhecimento muito reservado, e eu não tiver acesso à fonte, é bastante entrevistar uns brodinhos da fonte e, pronto, está tudo em casa e tudo nos conformes? Como apuração jornalística se tornou um processo simples, heim?

5) Mas não é só questão de apuração, não é mesmo? Voltem para o bloco 2) deste argumento. As matérias com “os podres de Lula” estão cheias de frases que explicitamente afirmam para o leitor da revista que Valério é a fonte das reportagens. Em convenção jornalística, uma frase que começa com “Valério diz que…” e termina com uma revelação “Lula é o chefe” só pode significar que “Valéria disse ao repórter de Veja o seguinte: ‘Lula é o chefe´”. Não pode de jeito nenhum significar “um parente, dois amigos e um associado de Valério disseram ao repórter de Veja que Valério lhes teria dito que Lula seria o chefe”. Mas se acreditarmos no editorial de Veja, é exatamente isso o que a revista faz. Se Veja não estiver mentindo no editorial (horror dos horrores!), o repórter de Veja colocou cada uma das declarações na boca do Sr. Marcos Valério, baseado exclusivamente em terceiros. E nem nos diz quantos terceiros (ops… parentes, amigos e associados) foram entrevistados, se foram checados, nem quantas declarações convergentes foram consideradas suficientes para que Veja se sentisse autorizada a reproduzir. Literalmente, ou Veja mentiu no editorial ou Veja pôs palavras (e que palavras! nada menos do que o suficiente para transformar Lula num chefe de quadrilha) na boca de uma fonte não-entrevistada.

6) Veja, então, inaugura de uma só vez uma novo método de apuração jornalística e uma nova deontologia. O método diz que declarações podem ser colocadas na boca de uma fonte importante e que controla uma informação delicadíssima uma vez que você tenha acesso à sua rede de relações. A fonte não te contou? Tem problema, não; fale com um bróder, um parente, um “associado” (o que é isso?) dele. Pegue o que eles te disserem e, pronto, passa a ser a “ipsissima verba” de Jesus Cristo que seja Basta colocar entre aspas. A boa deontologia do jornalismo diria que mesmo que uma fonte dessas poderosas declare algo, convém verificar a autenticidade da declaração. A deontologia de Veja disse que mesmo sem que a fonte lhe diga diretamente alguma coisa, você a pode usar. Checagem de fatos? Como assim?… Vocês acham, diria Veja, que “parentes, amigos e associados” poderiam mentir para o jornalista? Imagina! Políticos mentem. Fontes secundárias e jornalistas de Veja não mentem jamais.

 

autor convidado
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