Início Jornalismo Político Morfologia de uma carta(da)

Morfologia de uma carta(da)

994
1
COMPARTILHAR
Pocket

Paulo Victor Melo

Érica Anita

O ano de 2015 marcou o cenário político brasileiro com um única palavra: crise. A cada dia surge um novo fato, seja para colocar mais fogo ou para tentar acalmar a situação. Como é final de ano, as coisas passam agora por um processo acelerado, e os acontecimentos seguem essa mesma linha apressada nos noticiários e não há tempo suficiente para análises cuidadosas. Só para exemplificar, nos últimos 15 dias tivemos o PT e a Presidenta Dilma finalizando uma negociação com o Deputado Eduardo Cunha, este mesmo Deputado usou de sua posição de presidente da Câmara para deflagrar o processo de Impeachment da Presidenta, o que levou a uma série de manifestações, na sociedade – de apoio a Dilma ou a Cunha – e no mundo político, com um certo apoio à Presidenta, o que fez o governo querer acelerar o processo para que se possa votar o processo, deflagrado antes do recesso de fim de ano.

A, quem sabe, última cartada que foi dada nesse processo foi a carta do Vice-Presidente Michel Temer à Presidenta da República. Alguns afirmam que houve um vazamento, outros confirmam que ela foi confeccionada para vazar. O que pretendemos aqui nessas próximas linhas é tentar compreender melhor as intenções dessa carta e as entrelinhas de seu conteúdo.

A referida carta não é uma simples sequência de frases, por trás dela pode-se buscar uma série de fatos e posicionamentos estratégicos que devem ser pensados com mais calma, para além de toda a repercussão da série de memes que tomou conta das redes sociais após a sua publicação. De Frank Underwood tupiniquim ao Vingador da Caverna do Dragão, o vice Michel Temer povoou as nossas timelines. Todavia, o que devemos nos perguntar é até que ponto isso é apenas uma “maldade” e um fato novo ou uma carta que demonstra um jogo estratégico muito maior de permanência no poder.

Crédito: Site Michel Temer / Foto Oficial
Crédito: Site Michel Temer / Foto Oficial

O primeiro passo que devemos dar para analisar a confecção desta carta é de onde o seu autor está falando. O vice Michel Temer é o presidente licenciado do PMDB, um partido que permanece no centro do jogo político brasileiro desde a redemocratização, fazendo parte de todos os governos nacionais independente do espectro ideológico do governo. Melo (2013) apresenta uma investigação de como o PMDB permanece no centro do jogo político brasileiro nesses 30 anos após a nossa redemocratização.

O seu poder se baseia na construção de grandes bancadas legislativas e domínio do poder nas esferas subnacionais do país – governos estaduais e prefeituras. O partido se mostra como um partido extremamente eficiente na conversão de cadeiras em votos, alcançando na maioria das eleições um maior percentual de cadeiras do que de votos. (MELO, 2013, p.186).

Como o PMDB conseguiu esse feito de fazer parte de todos os governos e eleger tão expressivas bancadas? Na verdade, essas duas funções estão altamente correlacionadas, ou seja, o PMDB elege grandes bancadas por fazer parte dos governos e faz parte dos governos por eleger grandes bancadas (MELO, 2013).

Apenas para relembrar, deve-se pensar a origem do PMDB, já que como destaca Reis (2002, p.4) “Instituições políticas não se fazem por puro ato de vontade, nem da noite para o dia”. O PMDB tem origem que remonta ao Movimento Democrático Brasileiro – MDB, partido de oposição ao Regime Militar (1964 – 1985). O partido foi assim constituído por um grande número de grupos e líderes que disputam entre si os espaços e o poder, com muitos conflitos intrapartidários, no entanto, se unem em torno da redemocratização. Estas características permanecem em grande medida no partido até hoje, com uma importante diferença, o partido não possui mais uma bandeira que o unifique, já que vivemos em uma democracia.

No PMDB, a capacidade de articular um projeto político havia deixado de existir desde o período da transição e as condições para uma ação unitária deterioraram-se de forma evidente – desde então a legenda manteve-se como um agregado de interesses regionais precariamente unificados pela maximização de cargos no plano federal. O partido abandonou a pretensão de disputar a presidência, definiu como prioritária a arena estadual e passou a jogar o jogo presidencial valendo-se do aninhamento das disputas eleitorais e do caráter coalizional do presidencialismo. (MELO, 2010, p.23).

A outra informação importante que temos de levar em consideração é sobre o autor da carta. Michel Temer, o atual vice-presidente e como frisou em sua carta o presidente do PMDB é quem com muita capacidade articulação política conseguiu traçar um mínimo de centralidade ao partido que é composto como uma federação de líderes regionais. Com base em sua longa atuação na vida pública e como presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer conseguiu fazer a máquina partidária do PMDB continuar funcionando da forma mais coesa possível. Como bem destacado por ele em sua carta, ele garantiu a permanência do PMDB na chapa vencedora das últimas eleições nacionais.

Unidade e articulação

Apresentadas essas três chaves explicativas, quem é o PMDB, como ele surgiu e quem é Michel Temer podemos dar mais um passo no sentido de observar com mais detalhes a carta-desabafo. Em princípio, precisamos destacar que Michel Temer não é só o vice-presidente, mas também é o presidente do PMDB. Trata-se de um partido fragmentado e com uma dinâmica interna centrífuga, como já discutido. O poder de Michel Temer, ao menos no que dizem as entrelinhas da carta em questão, vem sendo minado. E essa carta pode servir como parâmetro para demonstrar a importância do partido, com sua capacidade de governabilidade e de sustentação ao governo (BAPTISTA, MELO, 2013) e de Temer, como o articulador do partido junto ao governo:

“Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.

Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido.

[…] PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.

[…] Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento. […] Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar.” (Carta de Michel Temer)

Vice decorativo

Nos “Jogos Mortais” que se tornou o jogo político no último ano, parece que muitos participantes resolveram apostar tudo nessa última jogada. Eduardo Cunha para se livrar do processo no Conselho de Ética apostou com a deflagração do processo de Impeachment, a Presidenta Dilma finalmente resolveu enfrentar o Parlamentar e o processo de achar que seu governo enfrentou no último ano e Michel Temer vazou uma carta que demonstra a sua importância para a governabilidade e que não tem sido devidamente “recompensado” mostrando para fora do governo, pela primeira vez a sua face:

“[…] Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo.

[…] Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país.” (Carta de Michel Temer)

Desconfiança

A capacidade de barganha e acordo, que ganha nomes e contornos mais modernos como governabilidade, e que o PMDB tanto se orgulha, também pode ser um motor da desconfiança e, em um longo prazo, gerar dúvidas. E Temer mostrou saber disso:

“Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB.

[…] Isso tudo não gerou confiança em mim. Gera desconfiança e menosprezo do governo.”(Carta de Michel Temer)

O que sairá dessa cartada final? 

Pensamos agora em três cenários envolvendo o PMDB:

Em um cenário, o PMDB, guiado pelo seu presidente, pode subir o preço de sua negociação com o governo e, assim, seguir girando a sua máquina de permanência no poder, ou seja, mais patronagem que vai representar mais votos; afinal 2016 temos eleições.

Em outra cena, poderia haver o rompimento da Presidenta com o seu vice e o PMDB. Se racharia por completo e finalmente, do que sobrar, Dilma Rousseff conseguiria finalmente iniciar o seu segundo mandato sem as pressões do partido da governabilidade.

Um terceiro, no qual a Presidenta é afastada do seu mandado e Michel Temer assume o poder e recompondo o governo com os partidos de centro direita levem o Brasil até 2018, com o PT em um ambiente que conhece bem que é fazer oposição.

Qual cenário é o mais provável? Será que estamos na temporada final da série? Afinal, a cada dia uma nova carta aparece no jogo. Enquanto isso, permanecemos nesse eterno cenário eleitoral de 2014.

 

Referências

MELO, Paulo Victor T. P.; BAPTISTA, Érica Anita. A propaganda política fora do “tempo da política”. Trabalho apresentado no V Encontro do COMPOLITICA. 2013.

MELO, Carlos Ranulfo. Os Partidos e as Eleições Presidenciais No Brasil. Em Debate, Belo Horizonte, v.2, n.6, p. 6 -11, junho. 2010.

MELO, Paulo Victor T. P. O PMDB e a sua manutenção no centro do jogo político: de catch all a cartel (Dissertação) Programa de Pós-graduação em Ciência Política. Universidade Federal de Minas Gerais. 2013.

REIS, Fábio Wanderley. O Tempo Presente: do MDB a FHC. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2002.

 

 

Érica Anita
Érica Anita Baptista é jornalista e Mestre em Comunicação Social - Interações Midiáticas - pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Atualmente, é doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Grupo “Opinião Pública, Marketing Político e Comportamento Eleitoral”, sediado na mesma instituição. É, também, pesquisadora no Centro de Investigação Media e Jornalismo, com sede na Universidade Nova de Lisboa. Paixões são muitas: Metallica, Pearl Jam, animais, filmes de terror... No futebol, o coração é Atleticano.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here