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Manifestações, crise e eleições

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Há alguns dias, o Brasil tem vivenciado uma onda de manifestações que se iniciaram em São Paulo e se espalharam por várias regiões do país. Um protesto que, inicialmente, tinha como pauta a redução das tarifas de ônibus e melhoria do transporte público, ganhou contornos diferentes e agendas diversas (como abordado em outros textos link1 e link2). Algumas bandeiras partidárias se arriscam em meio a uma multidão se diz “apartidária” e que ganha apoio de alguns políticos, como o Senador Cristovam Buarque (PDT-DF) que defendeu o fim dos partidos políticos.

Interessante pensar nos partidos enquanto mediadores das demandas dos cidadãos e, desacreditados, podem deixar de ser esse ponto de referência. E esse descrédito pode justificar a busca por novos espaços de legitimação da ação coletiva, como sugere Leffort (1983). Pode-se pensar, também, em um sentimento de distanciamento entre o governo e os cidadãos, que pode aumentar pela “crescente particularização e individualização que fragmenta as identidades e lealdades coletivas aumentando a distancia entre governantes e governados e alimentando o sentimento antipartido” (BAQUERO, 2012, p.11).

E aí reside um ponto importante. Os manifestantes, mais do que gritarem palavras de ordem e exigirem soluções para antigos problemas do país, sem intermediários, traduziram nas ruas um sentimento de crise de representatividade política.

Ainda que não haja um consenso na Ciência Política sobre a ideia de haver uma crise de representatividade política, podemos partir, apenas, da ideia  e da sensação de descrédito nas instituições representativas. A pesquisa “Juventude, participação e voto”, realizada em 2010, com jovens entre 18 e 25 anos de Belo Horizonte, ilustra essa discussão, mostrando os graus de confiança nas instituições.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Pesquisa Juventude, participação e voto – DCP/UFMG/ Fapemig/Ipespe. 2010.

A preocupação “prática” de muitos especialistas e, mesmo, de muitos eleitores diz respeito aos reflexos desses manifestos, das expressões de insatisfação no cenário eleitoral presidencial de 2014. Avaliar o cenário com base nessa situação é um tanto arriscado, uma vez que diversos outros fatores podem contribuir para o seu desenho. E então, especular que as manifestações podem atingir negativamente a imagem de Dilma e, até mesmo, favorecer outros candidatáveis, como Aécio Neves é uma possibilidade, porém não se pode desconsiderar outros fatores que compõem esse conjunto, sobretudo a economia.

No entanto, é difícil não associar essa descrença e essa suposta crise de representação aos resultados das últimas pesquisas. Se compararmos os resultados da pesquisa do DataFolha divulgada hoje, com uma sondagem realizada nos primeiros dias de junho, antes do início das manifestações, a avaliação do governo Dilma caiu 27 pontos, saindo de 57% de aprovação para 30%. A mesma pesquisa divulgada hoje simulou intenções de voto com os nomes dos possíveis candidatos em 2014 e o resultado mostrou que: Marina Silva subiu de 16% para 23%; Aécio Neves foi de 14% para 17%; e Eduardo Campos oscilou de 6% para 7%.

As manifestações parecem nos apresentar, portanto, não apenas uma agenda de protestos, mas também sugerem um aumento do sentimento de crise de representação dos cidadãos.

 

 

Referências

BAQUERO, Marcello. Identificação partidária e comportamento eleitoral. 36º Encontro Anual da Anpocs. Águas de Lindoia (SP), 2012.

LEFORT, Claude. A invenção democrática. Os limites do totalitarismo. São Paulo: Brasiliense, 1983.

MIGUEL, Luis Felipe. Representação política em 3-D – Elementos para uma teoria ampliada da representação política. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 51, fev/2003, p. 123-140.

PESQUISA Juventude, Participação e Voto. DCP/UFMG/FAPEMIG/IPESPE. 2010.

TELLES, Helcimara de Souza; Dias, Mariana. Condutas políticas, valores e voto dos eleitores jovens de Belo Horizonte. Revista do Legislativo, v. 43, p. 82-103, 2011.

 

 

 

Érica Anita
Érica Anita Baptista é jornalista e Mestre em Comunicação Social - Interações Midiáticas - pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Atualmente, é doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Grupo “Opinião Pública, Marketing Político e Comportamento Eleitoral”, sediado na mesma instituição. É, também, pesquisadora no Centro de Investigação Media e Jornalismo, com sede na Universidade Nova de Lisboa. Paixões são muitas: Metallica, Pearl Jam, animais, filmes de terror... No futebol, o coração é Atleticano.

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