Valores escusos… A vida em risco: o que motivou a tragédia no Rio?

por Acácio Salvador

O incomodo causado pelo episódio do atirador que matou mais de uma dezena de crianças em uma escola pública no Rio de Janeiro, na manhã desse dia (07/04/2011) –  – me constrange até em refletir sobre a mesma. Faltam-me as referências psicológicas e sociais para compreender esse e tantos outros casos de atrocidades contra crianças. Embora concorde com as inúmeras deficiências do judiciário, me recuso a pensar que a solução para a violência seja apenas ampliar penas e acelerar julgamentos, ou mesmo diminuir a idade penal no Brasil. Discussões estas fortemente atreladas aos embates sobre políticas públicas ligadas a segurança em nosso país.

A ciência e a técnica usada na perícia policial e mesmo pela investigação jornalística mostram bem uma característica de nossa sociedade: podemos explicar cientificamente a cronologia dos fatos, mas dificilmente os valores que os motivaram.

Na guerra de Tróia, as honras e riquezas eram valores entre os gregos (e troianos!) e motivo pelo qual Agamenon foi pressionado pelos chefes guerreiros ao ato de sacrificar a filha Ifigênia. Por obediência a Deus (um valor), Abraão levou o seu filho para o sacrifício, embora não tenha consumado o ato de barbárie. Como nos casos de Agamenon e Abraão, o atirador/assassino também tinha seus valores e agiu por eles. Talvez, mais chocados ainda ficássemos, se ele revelasse estes valores e os confrontássemos com os nossos. Seriam muito diferentes?

Certamente devemos condenar os atos de atrocidades, mais ainda aqueles cometidos contra criança, mas também pesquisar quais os valores estamos usando na construção de nossa sociedade. Hoje qualquer tipo de abnegação, renuncia ou desprendimento pelos outros ou pela sociedade parece mais patológico que cristão.

Ainda, que essa não tenha sido a primeira ‘matança’ provocada por um serial killer no Brasil, estávamos acostumados ao ouvirmos falar de atiradores em massa, associá-los imediatamente a países como Estado Unidos, ou europeus. É de fato espantoso que dessa vez uma escola primária do Rio de Janeiro e um jovem brasileiro, tenham protagonizado a lamentável cena. No entanto, cabe pensar: Estamos, de fato, importando “maus costumes”? Como afirmou hoje em plenário um Deputado. Tendo a acreditar que não! Parece-nos oportuno e simplista colocar a culpa no costume alheio. Temos é que identificar estes valores que conduzem a efeitos colaterais tão desastrosos e repensá-los no afã de afastá-los de nossa cultura.

Ressaltamos que não queremos aqui fazer nenhum tipo “pregação religiosa”, no entanto, a carta deixada pelo assassino –  nos conduz a pensar que os transtornos mentais, que são evidentes do atirador estavam fortemente sedimentados em crenças dessa ordem. Em contrapartida, resgato agora na Bíblia, uma comunidade do início do século I, que poderia ser um exemplo, nesse momento de desesperança:

“Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo”. (Atos dos Apóstolos, capítulo 2, 44-47).

As adaptações a sociedade moderna precisariam ser feitas na forma de viver, mas não nos valores que esta comunidade compartilhava. Talvez dessa maneira tragédias como a presenciada hoje, tornem-se apenas relatos históricos na construção de uma nova sociedade. E episódios assim não abalem mais nossos corações e mentes, como agora!