Tempos interessantes

* Diógenes (Didi) Pasqualini

Slavoj Zizek, em “Primeiro como tragédia, depois como farsa”, nos brinda com uma história bem atraente, que chama a atenção e aguça toda a atmosfera mística para quem a lê. Ele diz que na China a maldição que se lança contra alguém que se detesta é desejar que ela “viva tempos interessantes”. Em nossa história, continua Zizek, “tempos interessantes são de fato os períodos de agitação, guerra e luta pelo poder, em que milhões de espectadores inocentes sofrem as consequências”. Creio que esta definição seja uma boa metáfora com que compararmos o efeito mensalão que estamos vivendo e, ao mesmo tempo, sendo os espectadores inocentes. Há dois tipos contundentes de correntes de pensamento que acabam sendo divisor de águas quando o assunto é o mensalão: o grupo que condena e o que se posiciona como favorável, pois entende que tudo o que foi feito aconteceu em nome da boa causa. O primeiro ganha o rótulo de elite retrógrada, e o segundo, alienado. Há até quem acuse a imprensa de manipulação do judiciário.
Creio que o discurso e o gesto corporal de José Genoíno, pouco antes da prisão, deixa claro um pouco desta questão que na cabeça da maioria de nós é uma situação difusa que ora habita em nossas crenças de liberdade e democracia, ora mexe com moral, ora com ideologia, os menos favorecidos, direitos iguais e verdade. Uma boa forma de ver tudo isso talvez seja perguntar ao objeto em questão: os fins justificam os meios? Para qualquer resposta que dermos estaremos diante de um espelho que, sem dúvida, vai refletir se nosso caráter, conduta e forma de pensamento, crença, moral, ideologia, etc. estão a serviço de algum grupo de poder ou se estamos contaminados e condenados a perceber somente aquilo que nos incomoda e é mutável de acordo com os interesses do dia. Ou mesmo, se tudo aquilo que foi construído pela esquerda não passou de estratégia de poder.
Zizek toca em um ponto que ajuda a entendermos a crise por meio do fundamento pelo qual ela se constitui: corrupção e sua economia. Ele diz que “em regra, as decisões políticas são apresentadas como questões de pura necessidade econômica”. Se o desejo do consumo, da formação de alto conglomerado político, da manutenção de um regime que vive em crise no mundo todo levanta uma questão muito importante para o marketing político – em que de fato o eleitor está acreditando hoje em dia? – talvez Zizek tenha razão quando diz que “nós, seres humanos, não conseguimos nem sequer ter certeza do que acreditamos – em última análise, apenas acreditamos que acreditamos”. Como pelo modelo consumista na maior parte das vezes compramos por comprar, pela mesma lógica, votamos por votar?
O problema, que deve estar preocupando muita gente, não é se a prisão (domiciliar ou não) vai beneficiar os envolvidos, mas é como manter a fé pelo voto da população em um grupo que tinha como marca ser oposto aos políticos da chamada direita. Aí estamos falando de uma jurisdição mais ampla, que tem a ver com a realidade, pois, quando ela se torna extremamente evidente, nos vemos diante da morte dos sonhos. Talvez toda a manifestação vista há alguns meses em todo o País, quando muitas instituições foram convidadas a se retirar de cena, seja sintoma de que alguma coisa não está caminhando bem. Os tempos interessantes estão chegando.

Referência:
ZIZEK, Slavoj. Primeiro como tragédia, depois como farsa. Tradução de Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2011.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8