Sobre as eleições e a Copa; sobre os torcedores e os eleitores

Por Emerson Cervi*

A copa aconteceu. Sinal de que a hashtag #imaginanacopa desapareceria para sempre. Mas, algo a permanecer seria a discussão sobre os efeitos do desempenho da seleção de futebol na Copa do mundo na decisão de voto do eleitor. Como tem muita discussão truncada e desinformada sobre o assunto, segue abaixo um quadro sumarizando os resultados das copas que ocorreram pós-segunda guerra mundial, de 1950 até 2014, comparando o desempenho do país sede com a eleição do presidente ou primeiro ministro do país.

Das 17 copas da FIFA que tivemos desde 1950, em apenas seis o evento aconteceu no ano da eleição nacional. Nas outras 11 ou a eleição foi um ano antes ou até 3 anos depois. Dentre essas, temos que desconsiderar a Argentina, em 1978, pois, quando sediou a copa, o país passava por um período de ditadura militar, portanto, sem eleições para escolha de representantes.

O quadro indica o ano do mundial, o resultado obtido pela seleção da casa (considerando as quatro primeiras colocações como resultado positivo), o país sede, quem era o presidente ou primeiro ministro no ano da Copa, ano da eleição seguinte, quem foi o presidente ou primeiro ministro eleito após a copa e um breve contexto político do país naquele momento.

Os anos em que coincidiu eleição nacional com ser sede da Copa do mundo foram: 1950, Brasil; 1954, Suíça; 1970, México; 1974, Alemanha; 1982, Espanha e, agora, 2014, no Brasil. Desses, dois precisam ser desconsiderados (estão em vermelho na tabela). Em 1974, a Alemanha sediou a Copa em junho, porém, um mês antes, em maio, o primeiro ministro Willy Brandt renunciou ao cargo, após seis anos como chanceler, depois que um de seus assessores diretos foi envolvido em um escândalo de espionagem na Alemanha Oriental. Em seu lugar, assumiu Helmut Schimidt, que assistiu à Copa de camarote e permaneceu no cargo até o final dos anos 70. O segundo país que deve ser desconsiderado é a Espanha, que em 1982 concluía um longo período de transição da ditadura para democracia, após a morte de Franco, em 1975. Leopoldo Sotelo assumiu o cargo de primeiro-ministro em 1981 para fazer a transição até as eleições gerais de 1982. Felipe González (Psoe) assumiu o posto de primeiro-ministro, tendo ficado até 1993 no cargo, até hoje o mais longo período de um único primeiro-ministro. Dada a particularidade da transição de ditadura para democracia naquele período resolvi excluir a Espanha da lista de coincidências entre sediar Copa e resultado da eleição democrática para presidente ou primeiro ministro.

Vejamos o que aconteceu nos três casos em que tivemos copa e eleição democrática para presidente no mesmo país e ano. O primeiro deles, por coincidência, foi o Brasil. Sediamos a Copa no meio do ano de 1950, quando o presidente era Gaspar Dutra (PSD), e elegemos Getúlio Vargas (PTB) no final do mesmo ano. Getúlio não era exatamente um candidato de oposição, embora não fosse o indicado de Dutra. Getúlio tinha sido presidente até 1945 e Dutra fora Ministro da Guerra do governo getulista. Porém, em 1950 o PSD, partido do então presidente, indicou Cristiano Ramos como candidato. Todos nós já sabemos o que aconteceu. Os líderes do PSD abandonaram a campanha de Cristiano Ramos para apoiar Getúlio e o termo “cristianização” entrou para o vocabulário político/eleitoral brasileiro como sinônimo de traição. Então, Getúlio foi eleito em 1950, após o Brasil ser vice-campeão da Copa do Mundo, como candidato que já tinha sido presidente e com apoio não-oficial dos governistas.

Em 1954, a Copa do Mundo na Suíça coincidiu com as eleições nacionais daquele país. A Suíça é uma monarquia, com primeiro-ministro selecionado do Conselho Federal, que, por sua vez, é formado a partir do resultado da disputa para o parlamento. Phillip Etter foi substituído por Rodolphe Rubattel em 1954. Rubattel fazia parte do conselho federal desde 1947 e pertencia ao partido de Etter. Portanto, apesar de a seleção Suíça não ter ficado entre as quatro melhor colocadas naquele ano, o partido do governo manteve a posição de primeiro-ministro.

A terceira ocasião em que houve Copa e eleição nacional no mesmo país e ano foi em 1970, no México. Naquela edição a seleção mexicana não ficou entre as quatro mais bem colocadas e o PRI (Partido Revolucionário Institucional) conseguiu substituir Gustavo Bolaños, eleito em 1964, por Luiz Echeverria, que cumpriu mandato até 1976. Bem, mas isso não é novidade e não pode ser colocado na conta da copa, pois o PRI elegeu presidentes durante sete décadas ininterruptas do século XX no México. E não foi um resultado negativo na copa que alterou o padrão de dominância política do partido no México.

Gráfico 1 Emerson

 

Enfim, sobram poucas evidências empíricas para uma relação direta entre desempenho da seleção do país sede na competição e vontade do eleitor em mudar ou manter seus representantes políticos. Dos três casos, em dois o desempenho das seleções foi pífio e mesmo assim as oposições de Suíça e México não conseguiram ganhar a eleição, seja maioria no parlamento, seja a presidência do Poder Executivo. No caso em que a seleção do país sede ficou na vice-colocação (Brasil, 1950), o candidato oficial do governo teve um desempenho pífio, com eleição de Getúlio Vargas – o candidato dos governistas. Perceba que desde sempre os governistas são, também, adesistas ao vencedor.

Agora, vejamos o que aconteceu nos demais casos, tendo em mente que a distância temporal entre a competição e a eleição no impede de traçar qualquer relação causal de maneira séria. Entre os países sede com desempenho fraco. México, em 1986, não ficou entre os quatro melhor colocados, porém, em 1988 o PRI conseguiu manter o poder, elegendo Carlos Salinas no lugar de Miguel Hurtado. Em 1994, nos Estados Unidos, a seleção da casa foi desclassificada por nós, “brazucas”, e, mesmo assim, Bill Clinton que tinha sido eleito em 1992, conseguiu a reeleição em 1996 (se apresentássemos o argumento que relaciona o resultado da copa do mundo com eleição para presidente a um norte-americano, provavelmente ele cairia na gargalhada). Em 2002, o Japão, umas das sedes, também desclassificado, não chegou às semifinais, mas o partido do governo manteve maioria no parlamento e elegeu Shinzo Abi, em 2006. E na mais recente copa, em 2010, a África do Sul também não ficou bem colocada, porém, o presidente Jacob Zuma, eleito em 2009, não teve problemas adicionais para governar até o momento (a não ser os de saúde pessoal).

A mesma falta de conexão lógica existe entre as seleções bem colocadas nas edições em que sediaram a copa e a política nacional. Em 1958, a Suécia foi vice-campeã, mas o primeiro-ministro Tage Erlander tinha sido escolhido em 1946 e ficou no cargo até 1969, passando incólume pela competição esportiva. Em 1962, no Chile, a seleção da casa ficou na terceira colocação, mas a eleição para presidente foi apenas dois anos depois, em 1964, quando o PDC elegeu seu primeiro presidente. Em 1990, a seleção italiana ficou na terceira colocação e o primeiro-ministro Giulio Andreotti, eleito em 1989, manteve-se no cargo até 1992, quando foi substituído por Giuliano Amatto. A França, em 1998, sediou e foi campeã. Jacques Chirac que já era presidente desde 1995, manteve-se até 2007. Na Coréia do Sul, uma das sedes de 2002, a seleção conseguiu uma inédita quarta colocação – à frente do co-anfitrião Japão. Ainda assim, o presidente Kim Dae Jung, que tinha sido eleito em 1998, foi destituído do cargo em 2003 por denúncias contra seu governo. Por fim, na Alemanha, em 2006, a seleção da casa ficou em terceiro lugar. Angela Merkel tinha se tornado chanceler pela primeira vez em 2005 e continua no cargo até hoje.

Tudo isso, claro, não é suficiente para mover um centímetro a posição dos crentes e ideólogos da teoria da relação direta entre resultado da copa no Brasil e eleição para presidente em outubro de 2014, visto que radicalismo ideológico não se altera com informação. O radicalismo é resultado da desinformação voluntária. Mas, pelo menos espero que sirva como ilustração para que depois não queiram – ambos os lados – colocar a responsabilidade por uma possível derrota de seu candidato no eleitor ou no torcedor de futebol. De qualquer maneira, a tabela quádrupla a seguir ajuda a organizar as possibilidades de ocorrências, dados os quatro cenários possíveis, em termos de desempenho da seleção e resultado eleitoral. Podemos ter: i) seleção com desempenho positivo e reeleição do governante (quadrante superior esquerdo) ou, podemos ter ii) seleção com desempenho negativo e vitória da oposição (quadrante inferior direito). O inesperado seriam os cenários: iii) desempenho positivo da seleção e vitória da oposição (quadrante superior direito) ou iv) desempenho negativo da seleção e reeleição do governante (quadrante inferior esquerdo). Para que o argumento da relação entre desempenho da seleção e resultado eleitoral tenha algum respaldo lógico esperamos encontrar exemplos no quadrante superior esquerdo e no inferior direito, que são consistentes com o argumento, e esperamos não encontrar exemplos nos outros dois quadrantes, que são inconsistentes com o argumento teórico. Se não houver exemplo para nenhum dos quadrantes, o que é apenas uma possibilidade teórica, não existe relação entre os dois eventos. Da mesma forma, se tivermos exemplos que demonstrem a possibilidade de ocorrência de todas as combinações, as ocorrências não se explicam mutuamente. Como se vê, no quadro a seguir, trata-se do último caso – de ausência de explicações mútuas.

Gráfico 2 Emerson

Para desespero dos ideólogos, a relação em que o exemplo é mais fraco está entre desempenho negativo da seleção e vitória da oposição, pois isso só aconteceu em condições muito específicas da transição de ditadura para democracia na Espanha. Pode-se argumentar, contra todos os “achados” apresentados aqui, que eu não levei em conta o contexto local, das organizações esportivas e das forças políticas em cada uma das edições da copa para defender a ausência de conexão lógica entre uma coisa e outra. Concordo! Mas, para esse argumento, só há uma resposta: então, o desempenho da seleção de futebol não explica o voto do eleitor. O que explica é o contexto e a seleção pode ser apenas um catalisador das vontades mais latentes do eleitorado, seja para manutenção, seja para mudança de governo. Em outras palavras, o catalisador é aquela substância que acelera a velocidade de uma reação, ele não gera a reação. Não podemos confundir o continente com o conteúdo das decisões. Mas, enfim, isso não interessa a quem defende que determinado desempenho da seleção definirá a eleição a favor ou contra o governo.

O brasileiro não está satisfeito com o que foi feito para os preparativos da copa – isso é fato. Gastança de dinheiro público, independente dos valores serem altos ou baixos, para poucos benefícios coletivos. Mas o brasileiro comum – não o militante ideólogo – sabe separar futebol de política. Quem não sabe fazer muitas distinções é a elite política, não o eleitor. Se Dilma será reeleita ou se a oposição ganhará a eleição depende mais do que o governo fez nos últimos 1.277 dias e da capacidade de convencimento da oposição sobre a necessidade de mudanças nos 120 dias de campanha do que do desempenho da seleção canarinho nos 31 dias em que esteve na competição.

*Emerson Cervi é Doutor em Ciência Política e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná. O texto foi publicado originalmente no Blog em Público (mantido pelo referido professor) e adaptado para o Comunicação e Política.