Restabelecer a confiança

* Diógenes (Didi) Pasqualini

Restabelecer a confiança na instituição política será o grande desafio após todas as manifestações ocorridas no País. Muito se tem falado que é uma questão de tempo que a imagem positiva dos governantes, principalmente da presidente Dilma, volte a se equiparar aos níveis anteriores ao das manifestações. Pelo menos é a esperança de alguns profissionais de marketing, que neste momento estão de olho e produzindo ações para que o quadro seja amenizado. Mesmo que isto aconteça, pouco vai apagar a carência de um diálogo mais franco com as sociedades, o que foi o estopim de todo o manifesto. O que é possível observar até aqui é que falta uma resposta mais elaborada, um plano mais bem alinhavado que possa ser portador da maioria das reivindicações populares, por parte das instituições de poder. O que se percebe é o fascínio pelas frivolidades, estratégias que visam à campanha, especulação e inconstância de opiniões, efeitos que têm por objetivo o esvaziamento dos movimentos e mobilizações sociais.
Gilles Lipovetsky, em “Os tempos hipermodernos”, nos dá uma dimensão bastante interessante do que estamos passando. Ele diz que a mídia tem papel determinante na distorção do debate público, pois enfraquece a “maturidade política do eleitorado cada vez menos preso a um discurso ideológico”. Como sintoma, o debate de classes passa a ser monocrático, uniforme, sem consenso e permanente, o que, segundo Lipovetsky, recebe grande contribuição dos meios. Talvez o tempo – ou a falta dele – característico da hipermodernidade, seja o maior modelador deste distanciamento e da fragilização política pelos quais passa a sociedade. Quanto mais se vivem o consumo e o acúmulo, menos tempo sobra para o entendimento, tão subjetivo, que chamamos de comunidade. O individualismo exagerado não deixa de produzir a sensação de liberdade, mas ele nos esgota, pois cobra preço elevado pela auto exploração.
Entender esses valores, que levam à negação da participação política e a mudanças que estão em curso, produz muitas vezes a falsa sensação de que os problemas administrativos e políticos se acomodam pela exposição nos meios, pela criação de fatos que possam reverter a rejeição, pois são popularmente atribuídos à “falta de comunicação”. Se o marketing se ocupa com satisfação, as necessidades humanas, o marketing político precisa ser visto pela ótica do empreendedorismo, da construção de projetos e políticas que tornem as localidades (comunidades) mais agradáveis para se viver. A prestação desses serviços reflete a avaliação positiva ou negativa do político. Se toda ação de compra está intimamente agregada à oferta que vai despertar nosso consumo, na administração pública este estímulo é apresentado à população pelas ideias e projetos que podem ser desenvolvidos. As ferramentas de marketing estão à disposição dos gestores, o mercado está sensível ao consumo político, agora é preciso sensibilidade e vontade para ouvir e criar laços mais fortes com a população. Não basta focar a relação de troca, é preciso pensar nas estruturais e fazer aquilo que leve “à satisfação do cliente”, já que não é possível reaver o voto.

Referência:
LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodemos. Tradução de Mário Vilela. São Paulo: Editora Barcarolla, 2004.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8