Reeleição e mitos

*Diógenes (Didi) Pasqualini
O eleitor está deixando de glorificar mitos para que seus problemas sejam solucionados? Há séculos as imagens de figuras mitológicas são convocadas para que nossos problemas sejam resolvidos no plano real. A fé é um instrumento interessante de transferência de nossos problemas, angústias e dúvidas. Ela tem o poder simbólico de promover as maiores mudanças e personificar o escolhido, aquele capaz de revolucionar, o ser único que nasceu para uma função salvadora. A política tem produzido mitos, mas parece que eles estão sendo deixados de lado. A impressão que fica é que os grandes nomes da política, figuras quase “mitológicas” estão sendo colocadas em outro plano e não mais nas decisões de voto.
Assim como as grandes teorias na ciência sofreram e sofrem profundos rearranjos e hoje ocupam um lugar no tempo e espaço, os líderes estão sendo guardados na memória e fazem parte da história `evolutiva política`. Eles, talvez, não estejam ultrapassados, apenas ocupem um lugar onde os seus valores ganharam outro sentido e seus discursos estruturam hipóteses que geram caminhos diferentes dos indicados pela maioria da sociedade atualmente.
As últimas eleições têm apontado firmemente para esta tendência, seja com a “novata” Dilma ou com o “inexpressivo” Celso Russomanno, para ficarmos em apenas nesses dois. É muito delicado um partido ou grupo político deixar a zona de conforto, ao ter em seus quadros nomes consagrados, abrir mão para lançar um nome pouco conhecido. Estamos falando de investimentos significativos e apostas que pedem preparação, entrega e atitudes que nem sempre podem ser bem entendidas pela sociedade. Muitas vezes o foco não está no candidato novo, mas na maneira com que as ideias novas são colocadas no mundo.
A reeleição, por outro lado, promove luta desigual. Na maioria dos casos que analisei compete em vantagem quem está no cargo. Por um princípio básico encontrado no marketing político: a visão do eleitor de que os serviços prestados, mais próximos ao olhos e às mídias, são de confiança. Raros são os casos onde o administrador quebra este valor com a população. Os que fazem, geralmente perdem a eleição. Aos concorrentes restam mostrar em curtíssimo espaço de tempo as metas de trabalho, ideias, prestação de serviço, comunicar seus valores, visão de mundo etc.
Quando valor e propostas novas se encontram temos “cases” de sucesso, como o de Gilberto Kassab em São Paulo, (Pasqualini, 2008), com o Cidade Limpa. É importante perceber que existe um momento mais propício para competir. Podemos analisar duas coisas: a primeira é se o concorrente tenta a reeleição. A segunda sua aceitação. Adversário no cargo e boa imagem não despertam na maioria do eleitorado a necessidade de troca, afinal, na maioria das vezes, ele está contente com aquilo que está sendo entregue ou não tem opções de escolha. Neste quadro temos: candidato no cargo, farta exposição midiática, maiores investimentos, interesses, aceitação etc.
Se a reeleição passa a ser um adversário de peso o momento mais apropriado para dialogar com o eleitor é quando todos os competidores estão em igualdade para comunicar com ele suas propostas e discutir as necessidades. Ou seja, quando quem ocupa o cargo executivo não pode ser candidato.

Referência:
PASQUALINI, Diógenes José. Mídia Cognição de Poder: uma leitura corpomídia da lei cidade limpa. Dissertação de mestrado. São Paulo, 2011.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8