Reclamar de quê?

*Diógenes (Didi) Pasqualini

É muito comum ler e ouvir pesadas críticas de que na propaganda política o candidato defende algum tipo de projeto e quando eleito não cumpre a promessa. Há muito que a maior parte da sociedade cobra certa ética à maioria dos candidatos e partidos quando se trata da divulgação de suas peças. Mas quando nós consumimos a propaganda – da maioria dos candidatos – é muito importante saber que ela é uma atividade que está dentro do marketing e engloba uma série de ações que visam a eleger alguém. Outra coisa: existe a preocupação, na concepção mais atual, de associá-la cada vez mais à publicidade – esta sim, reflete a sociedade de consumo, fomenta o desejo de compra crescente que vivemos e está diretamente associada a “modernidade” e todo o simbolismo que esta carrega. Caminhando um pouco mais com esta conversa, dentro do marketing político temos a construção da imagem de alguém, e, por uma lógica estratégica, quanto mais positiva for sua imagem, mais competitivo e aceito se torna o candidato. Assim como um produto, dizemos que ele ostenta “benefícios” em relação ao concorrente. Em resumo, muito a grosso modo, é isso, estamos falando de um negócio.

Mas, o que se busca problematizar com esta conversa? Se estamos falando em sufrágio e todo universo econômico envolvido nas campanhas, o marketing político deve se preocupar com valores éticos? Os meios de comunicação, colunistas, jornalistas, igrejas, seitas, sindicatos, etc., que apoiam este ou aquele partido ou candidatos, também devem ter, pelo menos, certa acuidade em se tratando de valores morais? Convoca-se Roberto Esposito, em Categorias de lo impolítico, para tentar entender parte deste impasse. Compreende-se que há que admitir, sem muito esforço, que na maioria das vezes existe certa impossibilidade de “praticar política em termos éticos e de se pensar em ética em termos políticos”, também de levar as últimas consequências às questões relacionadas ao poder, bem-estar e comunidade.

Não à toa que campanha e mandato acabam se conflitando. Se aproximarmos Esposito ao que se analisa aqui – e o marketing tem explorado há décadas – temos no período eleitoral a política em sua forma mais original, naquilo que se entende pela proposta de que ela não apenas exerce continuadamente a pressão do poder sobre a sociedade, mas sim opta por uma esfera próxima à justiça e à igualdade. No mandato, a realidade é outra, mas precisa ser? Vejamos, você votaria em candidato que defendesse, por exemplo, criação da taxa de iluminação? Assim cabe a pergunta. Por que temas mais agudos não são discutidos em campanha? Por uma questão bem simples, a realidade não constrói vínculos, muitas vezes nossos desejos e interesses não são contemplados, e partir daqui cabe reflexão ética muito profunda e muito difícil de fazer, pois nós estamos acostumados a criticar aquilo que nos afeta, mas defendemos o que nos beneficia. Criticamos o trânsito violento, por exemplo, que mata, não dá chance ao pedestre, ao ciclista, mas quando somos multados por falar ao celular enquanto dirigimos ou excesso de velocidade achamos absurdo e logo culpamos a indústria da multa. Percebe como é delicado discutir ética? Lei, regras ou normas são para ser cumpridas com rigidez quando afeta o outro, e este tem sido o padrão mais visível hoje em dia.

Referência

Esposito, Roberto. Categorias de lo impolítico. 1ª ed. Buenos Aires: Katz editores, 2006.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político, Propaganda Eleitoral, Mestre e Doutor em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected]. Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8