Os jovens e a política

Os  jovens compõem a agenda de pesquisa de diversas áreas do conhecimento, sobretudo, da política. Enquanto seu perfil contestador e transformador é defendido de um lado, de outro, muitos alegam que são apáticos e desinteressados por política. Assim, a conduta política dos jovens é um tema complexo e um desafio para a política, especialmente em momentos eleitorais.

A definição de juventude não é consensual, por características sociais, políticas, econômicas, culturais e, mesmo, etárias. Para a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), por exemplo, o período entre os 15 e 24 anos de idade pode ser considerado adolescência ou juventude. Já para o Estatuto da Criança e do Adolescente do Brasil, a juventude compreende a etária entre 12 e 18 anos incompletos. Fatores sociais também alteram a definição do conceito, principalmente quando se compara a juventude entre países. Abramo (1997) considera a juventude pelo viés da noção social de cristalização de valores e de integração social; é um momento de passagem entre infância e a maturidade, quando o indivíduo é “apresentado” ao mundo das responsabilidades.

Em 2013, foi divulgada a Pesquisa Nacional Sobre o Perfil e Opinião dos Jovens Brasileiros, para a qual foram realizadas 3.300 entrevistas com jovens de 15 a 29 anos, com a intenção de traçar um perfil dos jovens para vários temas. De acordo com a pesquisa, os jovens consideram que o tema que mais preocupa a sociedade é a segurança e a violência, registrando 24%, seguido pelo emprego e da carreira profissional (19%). A preocupação com a administração política do Brasil ocupa o último lugar da lista.

Gráfico 1 – Qual assunto mais preocupa a sociedade (%).

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Fonte: Fonte: Pesquisa Nacional Sobre o Perfil e Opinião dos Jovens Brasileiros 2013.

Em uma pesquisa realizada em 2010, pelo grupo de pesquisa “Opinião Pública, Marketing Político e Comportamento eleitoral” (UFMG), com os jovens de Belo Horizonte, o interesse por política não atingiu porcentagens expressivas.  Entre os entrevistados, 82,4% afirmaram ter pouco ou nenhum interesse por política.

Gráfico 2 – Grau de importância de temas para os jovens de Belo Horizonte (%).

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Fonte: Pesquisa Juventude, participação e voto. DCP/UFMG/Fapemig/Ipespe.

 

Observa-se, ainda, que os jovens, em 2010, tiveram índices reduzidos de participação política. Deve-se considerar, porém, que tais resultados possam ter sofrido algumas alterações em função das Jornadas de Junho de 2013.

Quadro 1 – Participação política

Discussão política

Distintivo político

Comício ou assembleia

Solicitar dinheiro ou contribuir financeiramente para causas políticas

Escrever blog

Greve

Nunca participou

80,2%

83,6%

79,4%

97%

95,4%

92%

Já participou, mas não participa mais

14,6%

14%

18,4%

1,8%

2,2%

6,2%

Participa atualmente

5,2%

2,4%

2,2%

1,2%

2,4%

1,8%

TOTAL

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: Pesquisa Juventude, participação e voto. DCP/UFMG/Fapemig/Ipespe.

Para Telles e Dias (2011), os jovens apresentam uma apatia política que pode ter relação com a descrença e desconfiança com relação à representatividade dos partidos políticos – em uma escala de 0 a 10, a confiança nos partidos é de 3,7 – e, portanto, eles não acreditam não serem ouvidos pelas lideranças políticas. Ainda sim, grande parte dos jovens acredita que o voto é importante.

Tabela 1 – Percepção de direitos

União entre pessoas do mesmo sexo

Ocupação de terras improdutivas

Eutanásia

Pena de morte

Ensino religioso

Legalização da maconha

Contra

46,4

45,8

68,6

47,6

25,6

66,4

Nem contra nem a favor

12,2

5,4

2,8

3,8

3,4

3,6

A favor

40,2

46,2

26,8

47,8

70,4

28,6

NS/NR

1,2

2,6

1,8

0,8

0,6

1,4

Total

100

100

100

100

100

100

Fonte: Pesquisa Juventude, participação e voto. DCP/UFMG/Fapemig/Ipespe.

Os jovens eleitores, como explicam Telles e Dias (2011) apresentam uma posição ambígua em relação ao direito à vida. Ao mesmo tempo em que são contrários à eutanásia, dividem opiniões em relação à pena de morte. Dessa forma, não se trata de um julgamento do direito à vida, mas também tem relação com a penalização por crimes. Os jovens avaliados pela pesquisa, são contrários, em sua maioria, à união civil entre pessoas do mesmo sexo e se dividem quanto ao tema da propriedade. E em relação à legalização da maconha, os jovens são contrários. As autoras apontam que a pesquisa mostrou o perfil de um jovem desinteressado e desconfiado com relação à política, além se observarem indícios de certo conservadorismo a partir da avaliação da postura sobre determinados temas, o que normalmente não se espera dos jovens.

Esses e outros aspectos da conduta política dos jovens são importantes para compreender o comportamento e as mudanças de valores, sobretudo, em momentos eleitorais.

 

Referências

ABRAMO, Helena Wendel. Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, 1997, p.25-36.

BAPTISTA, Érica Anita; GAMA, Bárbara; VENTURA, Stéfany Sidô. Jovens eleitores e novas tecnologias: percepção, participação e comportamento. VII Congresso da Alacip, Bogotá, 2013.

BRITES, Maria José; PONTE, Cristina. Pesquisando a construção da política por jovens. Em Debate, Belo Horizonte, v.4, n.8, 2012, p.8-18.

MISCHE, Ann. De estudantes a cidadãos. Universidade de Columbia: Tese de doutorado, 1997.

NOVAES, Regina. Juventude e política. Le Monde Diplomatique Brasil, Ano 6, n.64, novembro, 2012.

TELLES, Helcimara de Souza; Dias, Mariana. Condutas políticas, valores e voto dos eleitores jovens de Belo Horizonte. Revista do Legislativo, v. 43, p. 82-103, 2011.