Os discursos sobre a crise da representação política

Fonte: www.guiacuca.com.br

Rapidamente, vou esboçar uma explicação para os discursos sobre a crise da representação política, nomeadamente aquela crise entendida como a separação entre representantes políticos e representados. A avaliação da distância entre estas duas dimensões depende basicamente de dois elementos: 1) da perspectiva analítica, isto é, se normativo ou descritivo; 2) do que se toma como referência, o parâmetro usado.

Geralmente, quem parte de uma perspectiva normativa do que deveria ser a relação entre representantes e representados, chega a conclusões negativas. E não é para menos, a grande maioria dos modelos normativos de democracia são exigentes (como devem ser, uma vez que são modelos ideais).

Assim, em geral, as análises descritivas tendem a ser menos negativas, mas então ganha importância o segundo fator, o referente. O problema é que, geralmente, se toma como parâmetro momentos de pico, momentos com configurações históricas que permitiram ou obrigaram uma maior aproximação entre o sistema política e os cidadãos.

Por exemplo, se analisarmos o contexto brasileiro contemporâneo com uma coletânea básica de teoria democrática debaixo do braço, vamos chegar quase que necessariamente a conclusões pessimistas. Há muito por ser feito. Contudo, se olharmos para a história republicana brasileira, veremos que estamos bem, apesar de possivelmente não estarmos em um momento de alta.

Contudo, imagino uma pergunta: de uma perspectiva realista, poderíamos ter uma melhor relação entre representantes e representados? Eu acho que sim. Podemos defender e trabalhar para esta relação seja melhor, mas acho que não podemos esquecer da história para não chegarmos a conclusões exageradamente pessimistas (quando no papel de analista). Nenhum problema com o pessimismo enquanto condição existencial, mas o pessimismo político exagerado e disseminado leva a diminuição da confiança no sistema político, quando não em defesa de soluções populistas e/ou revolucionárias.

Não se pode perder de vista também que o que se chama de crise de democracia representativa, na verdade, é ponto de disputa política. Não tanto para afirmar se existe ou não crise, mas qual a extensão e o remédio. Há quem queira acabar com democracia representativa em benefício da democracia direta; e há quem queira melhorar, tornar mais porosa, a democracia representativa, aproximar representantes e representados (e não se pode deixar de citar também os poucos mas persistentes que querem acabar com a democracia em função de soluções autoritárias).

Tal processo de crítica, na minha opinião, é positivo porque abre a possibilidade para aperfeiçoamentos no sistema, bem como a inclusão de novos atores. E, ao longo da história, a democracia tem feito isso comparativamente bem. Mas é prudente entendermos a crise como um discurso que é produzido a partir da reflexão diante da realidade objetiva, mas vai além dela a depender dos interesses (na maioria das vezes legítimo) dos atores.