Os apectos políticos e midiáticos do caso do Mensalão

Cobertura da Globo News sobre o Mensalão

Do ponto de vista político e midiático, o episódio do Mensalão, em todo o seu longo e intenso ciclo, deve marcar a história. Politicamente, espera-se que o julgamento seja histórico pela sua exemplaridade. A expectativa é a de que esta seja uma nova referência no que diz respeito ao combate à corrupção no Brasil. É, de fato, algo inédito na nossa democracia a condenação, com trânsito em julgado e executada, de pessoas que ocuparam cargos tão altos em governos centrais e no partido que está na presidência. Estava cristalizada na população a sensação de que ricos e poderosos jamais pagam pelos seus crimes, e as recentes prisões dos réus do Mensalão, e também do deputado Natan Dodanon, são vistas por muitos analistas como uma elevação do padrão ético brasileiro, a ser reproduzida em casos similares que chegarem às mãos do Judiciário. Experimentamos um ganho republicano, portanto.

Do ponto de vista da Comunicação, o caso também traz pontos intrigantes. Podem ser debatidas as razões que levaram a isso, mas não devem restar maiores dúvidas de que a cobertura midiática foi especialmente dedicada ao caso do Mensalão do PT. Desde a denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) em 2005, com apurações e revelações sucessivas de fatos que sustentaram o escândalo por meses a fio; passando pelo julgamento no STF, do qual várias sessões foram televisionadas na íntegra e ao vivo; até à prisão dos condenados pela Polícia Federal, com helicópteros seguindo as vans que transportavam à penitenciária os réus já entregues. Não apenas a exposição midiática do caso era intensa, mas também era ferrenha a cobrança pela condenação dos envolvidos, em muitos espaços editoriais. Que fatores, afinal, podem ter levado a um interesse especial por este caso?

Duas teses com forte conotação ideológica e partidária parecem menos prováveis: a de que o Mensalão recebeu repercussão proporcional à sua gravidade por se tratar do maior escândalo brasileiro, e, por outro lado, a de que o Mensalão é resultado de um golpe contra o PT e de uma tentativa orquestrada por vários poderes (judiciário, partidos de direita, grupos de mídia etc.) para criminalizar ou fragilizar o principal partido de esquerda. Não há régua que possa apontar o Mensalão do PT como o “maior caso de corrupção” que já tivemos. O próprio Ministro Luís Roberto Barroso afirmou, no plenário do STF, que é “no mínimo questionável a afirmação de se tratar do maior escândalo político do país. Talvez, […] foi o mais investigado de todos, […] e o que teve a resposta mais contundente do poder judiciário”. Afastemos também, desta feira, teorias conspiratórias, e aceitemos que há efetivamente renovada disposição da Justiça para combater a corrupção na política e uma imprensa sem cabresto partidário.

Uma explicação para o acentuado interesse midiático no caso pode residir na própria lógica jornalística de apreço pelo incomum. De fato, é próprio do campo da comunicação a concessão de maior visibilidade para acontecimentos que fogem do padrão, que são inesperados. É fácil admitir que poucas coisas seriam mais extraordinárias no Brasil do que o julgamento e a prisão de grandes líderes políticos por crimes de corrupção. Outros casos similares, porém, ainda não entraram na pauta da Suprema Corte, e ainda não têm grandes nomes da política sendo julgados. Por isso a desproporção. Alega-se também que, por ser tradicionalmente um partido que combateu os desmandos com as verbas públicas, o PT receberia cobrança maior, a partir de um rigor que a própria legenda estabeleceu. Com isso, o Mensalão seria ainda mais surpreendente e merecedor de atenção.

Há ainda uma versão ideológica para a disparidade midiática. Para além do interesse natural por um escândalo de corrupção, pesaria contra o PT a antipatia dos principais veículos de comunicação. De modo geral, os Governos petistas são amplamente aprovados em segmentos mais populares, como as chamadas classes C, D e E; e majoritariamente reprovados nos estratos mais ricos, como aqueles classificados por A e B. Pesquisas de intenção de voto, e mesmo resultados das últimas eleições – presidenciais (2006, 2010), e municipais (São Paulo: 2008, 2012) – demonstram esta tendência. Os principais veículos de mídia, no Brasil, como Folha, Estadão, Globo e Veja, são controlados por poucas famílias, das classes mais ricas, o que levaria a posicionamentos gerais mais resistentes do que simpáticos ao PT. Veículos impressos e canais fechados seriam ainda empresas que, na cobertura noticiosa sobre política, preferem representações sociais e visões de mundo próprias de certa classe média alta – público consumidor potencial destas publicações. Não se trataria aqui de golpismo, mas de vieses, tendências, preferências, enquadramentos predominantes. Estudos científicos poderiam trazer elementos para comprovar uma ou outra tese a respeito desta discussão. De qualquer forma, o debate é altamente provocador e instigante para as Ciências Políticas e da Comunicação.