Obesidade: questão privada ou pública?

O jornal britânico Financial Times publicou nesta sexta-feira (08) uma longa reportagem em que relaciona o crescimento acentuado da taxa de obesidade no Brasil nos últimos 20 anos ao aumento do poder aquisitivo das classes C, D e E e também ao fortalecimento de estratégias de mercado que “estimulariam” a obesidade por parte de gigantes alimentícias, como a suíça Nestlé. A matéria me chamou logo a atenção pela abordagem claramente distinta da grande maioria das notícias relacionadas à obesidade publicadas por veículos de comunicação nacionais. O foco é nos outros componentes associados à questão da obesidade, como mudança social de hábitos alimentares, ação de corporações do ramo de alimentos, mudanças na estrutura familiar e aumento da violência. Causas essas que extrapolam a noção de que este é um problema apenas individualizado e pessoal.

By Michelle Meiklejohn
©Michelle Meiklejohn

 

Obesidade é claramente um problema de saúde pública hoje em grande parte dos países desenvolvidos. Os EUA certamente encabeçam essa lista, onde a questão é vista como uma epidemia. E não é à toa. Segundo dados de 2010 da Organização Mundial da Saúde (OMS), 80.5% dos homens americanos, acima dos 15 anos, estão com sobrepeso ou obesidade – sobrepeso significa um Índice de Massa Corpórea (IMC) igual ou acima de 25 e obesidade igual ou acima de 30. Entre as mulheres com mais de 15 anos, 76.7% está acima do peso ou obeso. Se se considera apenas aqueles com IMC igual ou acima de 30, que são os efetivamente obesos, o índice entre os homens é de 44.2% e entre as mulheres, 48.3%.

A situação lá é certamente grave. Porém, o crescimento do índice de obesidade no Brasil também é preocupante. Os dados apresentados pelo jornal britânico são de uma pesquisa do médico Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), e apontam que, em 1990, 20% dos homens acima dos 20 anos estavam com sobrepeso ou obesidade. Hoje, o índice é de 50%, um aumento de 150%. Já entre as mulheres, o nível de sobrepeso e obesidade saiu de 17% para 48%.

Pesquisa da USP aponta aumento de 150% no número de homens adultos acima do peso nos últimos 20 anos no Brasil.

Os dados dessa pesquisa são próximos dos dados da própria OMS com relação ao Brasil. De acordo com a Organização, em 2002, 43.4% dos homens, acima de 15 anos, estavam acima do peso – aqueles com sobrepeso (IMC≥25) e obesos (IMC≥30). Entre as mulheres, em 2002, a taxa era de 49.2%. Em 2010, os homens acima do peso já atingiram 54% da população. E 60.3% das mulheres têm ou sobrepeso ou obesidade.

Abordagem sistêmica

O que me chamou a atencão na reportagem do jornal britânico foi o enquadramento claramente sistêmico ou ambiental dado à obesidade no Brasil, para utilizar as palavras de Regina Lawrence. A pesquisadora analisou os enquadramentos dados à temática na mídia estadunidense de 1985 a 2003 e detectou o crescimento, nos últimos anos da amostra, do que ela chama de “environment frame”.

No texto “Enquadrando a obesidade: a evolução do discurso noticioso para uma questão de saúde pública” – Framing obesity: the evolution of news discourse on public health issue –, Lawrence diferencia três tipos de enquadramento que a temática recebe nos EUA: biológico, comportamental e ambiental/sistêmico.

No enquadramento biológico, diz a autora, a obesidade é frequentemente enquadrada, especialmente pelas indústrias médica e farmacêutica, como uma disordem biológica que pode ser compreendida e potencialmente curada pela ciência. É um entendimento “medicalizado”, que enfatiza causas impessoais que podem ser controladas apenas através de avanços científicos futuros. Um exemplo da fala de um pesquisador do assunto em uma notícia é usado por Lawrence para clarear o que seria o enquadramento biológico: “Nós deveríamos (sic) fazer o que nós fazemos para pressão alta e colesterol alto […]. Nós damos a eles [pessoas com excesso de peso] um comprimido. Não é culpa deles. Eles foram desenhados para engordar”. De acordo com Lawrence, quando localiza a causalidade em um nível molecular, esse enquadramento evita uma discussão mais politizada da questão.

O enquadramento comportamental é a forma mais convencional de entender a obesidade, segundo Lawrence. Esse frame faz mais sentido para as pessoas, já que o excesso de peso é, basicamente, o resultado de ingerir mais calorias do que se queima. Daí que a solução para controlar o peso do corpo é sempre uma variação de diminuição de consumo calórico e aumento da atividade física. Nesse tipo de compreensão da questão, médicos e outros profissionais da saúde continuamente estimulam os indivíduos a fazerem melhores escolhas. Dessa forma, o frame comportamental indica soluções individualizadas mais que mudanças no ambiente de saúde. Assim, se limita o problema da obesidade ao indivíduo, já que se o problema é causado e pode ser resolvido pelas escolhas individuais, logo, há pouco para o governo a fazer, exceto garantir que as pessoas tenham informação precisa sobre o produto que consomem.

Por último, Lawrence indica o que seria o enquadramento ambiental. Conforme palavras da autora, este frame coloca a escolha individual em um largo contexto de influências ambientais e escolhas políticas. Muitos especialistas em saúde pública e ativistas enquadram a obesidade como um sintoma de alimentos não saudáveis e um ambiente para atividades físicas criado inadvertidamente ou intencionalmente por corporações e políticas públicas. Lançando mão do exemplo do Prevention Institute, ela diz que essa organização de advocacy de saúde pública tem o objetivo de reenquadrar o discurso público através da mudança de foco nas questões da nutrição, atividade física, responsabilidade pessoal e escolha individual para o foco nas práticas corporativas e governamentais e o papel do ambiente para moldar os comportamentos alimentares e físico. Uma outra fala mencionada pela autora é bastante elucidativa acerca deste enquadramento. Ela vem do Cirurgião Geral do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, David Satcher, em um relatório sobre o assunto:

“As pessoas tendem a pensar sobre o ganho de peso e a obesidade como questões estritamente pessoais, mas […]. Quando não há lugares seguros para as crianças brincarem, ou para os adultos caminharem, correrem, ou andarem de bicicleta, isso é uma responsabilidade da comunidade. Quando as cantinas das escolas ou as lanchonetes nos lugares de trabalho não oferecem escolhas alimentares saudáves e atrativas, isso é uma responsabilidade da comunidade […]. E quando nós não exigimos uma educação física diária em nossas escolas, isso também é uma responsabilidade da comunidade.” (Para acessar o relatório completo, clique aqui.)

Questão de saúde pública

Os dados da pesquisa de Lawrence sugerem fortemente que a obesidade tem sido reenquadrada nas duas últimas décadas nos EUA. Ao menos na avaliação do discurso noticioso, segundo a autora, o entendimento popular sobre as causas da obesidade tem se movido dos domínios individualizado e médico da biologia e do comportamento pessoal para o domínio das causas ambientais. O importante dessa mudança, segundo a pesquisa, é que quanto mais perto do pólo sistêmico e distante do individualizado, digamos, mais provavelmente o governo tende a adotar medidas mais efetivas de saúde pública.

Voltando à matéria do Financial Times, percebe-se que é justamente essa abordagem mais sistêmica da questão no Brasil que está em jogo. Certamente nos EUA, o pico noticioso e público da questão dos “fast foods” fez com que a temática da obesidade tomasse essa nova tendência de interpretação, mais sistêmica e social. No Brasil, talvez as causas ambientais passem por outros pontos que não necessariamente o fast food tradicional – já que McDonald’s e Burger King, por exemplo, não têm a mesma penetração na cultura alimentar do brasileiro.

Estou empenhada na análise do material jornalístico brasileiro para identificar as tendências no discurso noticioso, mas, no senso comum, me parece que a questão está bem longe deste pólo sistêmico, apesar de podermos elencar uma série de causas ambientais que sim têm sua parcela de culpa ou de participação neste aumento acentuado das taxas de sobrepeso e obesidade. A questão a se refletir é: a obesidade já ultrapassou o limiar do problema privado para público no Brasil? E o que isso tem como consequência em termos de gastos com saúde pública e ações efetivas do governo para minimizar essas causas ambientais?

 

Quer saber mais do assunto?

Brazil’s unwanted growth (notícia do Financial Times)

Página da OMS sobre obesidade (em inglês)

Texto de Regina Lawrence, “Framing obesity: the evolution of news discourse on public health issue”

Documentário Food, Inc.

Documentário Super Size me