O que explica a atração do Estado Islâmico?

untitledEm artigo para a Carta Capital, intitulado “O Estado Islâmico veio para ficar” (30/09/14), José Antonio Lima afirma ser impraticável a destruição do autoproclamado califado, visto a gama de problemas, entre eles o autoritarismo, o sectarismo, o desemprego, o analfabetismo e a pobreza, que vicejam no Oriente Médio e fomentam o radicalismo religioso. Entretanto, no decorrer do mesmo artigo, ele informa que o EI possui mais de 30 mil membros, com quase a metade advinda de 80 países estrangeiros e composta por 2 mil ocidentais.

Se é compreensível a aceitação e força do EI no Oriente Médio em razão das inúmeras fragilidades da região, o que explica a adesão voluntária de ocidentais, a exemplo dos portugueses Edgar, César, Patrício e Sandro, que não possuíam qualquer relação com o Islã e vêm de famílias católicas?

Algum entendimento começa a se delinear quando se sabe em que lugar eles travaram contato com o movimento jihadista, conforme expõe matéria do jornal português Expresso: Leyton, bairro dormitório de Londres, onde mais da metade dos habitantes pertence a uma minoria étnica – valor muito superior ao da Grande Londres – e as taxas de desemprego, pobreza e criminalidade ultrapassam as médias nacionais.

Entretanto, segundo um amigo dos quatro rapazes, ainda residente em Leyton e ouvido pela reportagem, na rápida conversão dos portugueses – pouco meses se passaram entre a emigração para a Inglaterra e a adesão ao EI – eles não foram influenciados por discordância em relação à política externa do Ocidente contrária aos muçulmanos ou motivos afins, mas simplesmente se alistaram na guerra santa em razão da fé, por quererem.

O motivo pelo qual, desconfio, levaram esses jovens, entre 22 e 36 anos, a se juntarem a um movimento que não se importa de matar crianças e impor tortura, mortes violentas e afins aos que se mostram contrários a sua visão radical de como o mundo deve ser, está menos na fé e mais relacionada à identidade social que eles almejam ter. Se na pré-modernidade, que grupos radicais como o EI buscam incessantemente resgatar, não se questionava a noção de identidade, já que os indivíduos, nas sociedades estratificadas, estavam inexoravelmente ligados a instituições sólidas e inabaláveis, este contexto de vida alterou-se profundamente a partir da modernidade.

Desde então, o indivíduo possui autonomia sobre sua própria história de desenvolvimento pessoal. A partir deste novo paradigma inaugurado pela modernidade, só se é sendo, pois cada uma das nossas trajetórias e estilos de vida poderiam ser de outra forma. Nenhuma cultura pôde mais manter seu isolamento e proteger sua tradição cultural de outras tradições e modos de vida.

No entanto, esta liberdade defendida pelo Liberalismo clássico, também, desde então, esbarra na sua inerente contradição com a noção de igualdade, pois, o direito de poder concorrer no mercado, por exemplo, não conduz, necessariamente, como a história demonstra, a uma igualdade de oportunidades. Se a responsabilidade com a própria trajetória de vida ainda é um forte imperativo social hoje, ela permanece assente na mesma contradição já evidente no início da modernidade, ao não possibilitar as mesmas oportunidades para todos na construção de sua identidade social.

Em lugares onde viceja a exclusão sócio econômica, em Leyton ou no Oriente Médio, pode se tornar atrativo fazer parte de movimentos como o EI, cuja estrutura tipicamente pré-moderna, desonera seus membros de serem responsáveis pela construção da própria identidade social, pois esta faz parte de algo maior, uma visão religiosa radical, que não admite contestações, de como o mundo deve ser e funcionar.

 

http://expresso.sapo.pt/jihad-pt/matar-e-morrer/

http://www.cartacapital.com.br/internacional/o-estado-islamico-veio-para-ficar-7652.html