Marina Silva e o sistema partidário

Fonte: Focolares

Uma das notícias políticas quentes da semana que passou foi a saída de Marina Silva do Partido Verde (PV). Alegando não se sentir contemplada com os rumos da legenda, ela decidiu se afastar e está agora, pelo menos temporariamente, sem partido. De fato, parece improvável que algum dos partidos já existentes pudesse abrigar a ex-senadora mantendo a “coerência política” pela qual ela disse tanto zelar. Por outro lado, criar um partido novo já mostrou não ser tarefa fácil – a recente experiência do PSD tem mostrado dificuldades em conseguir as 500 mil assinaturas necessárias e em trazer parlamentares para si sem que implique em perda de mandato.

Enquanto decisão política pragmática, sair do partido definitivamente não é uma boa pois complica a inserção dela disputas eleitorais por algum tempo, além de, passado o enxame inicial, ter sérias chances de diminuir sua visibilidade. Quais seriam, portanto, os verdadeiros motivos de Marina para tomar uma decisão como esta? Me parece que a coerência política alegada por ela pode sim ser um motivo real, contudo, ela pode ser fruto de duas coisas. Primeiro de um real desencaixe entre os desejos da legenda – ou, pelo menos, de sua liderança – e os anseios da candidata e segundo de um projeto de poder malsucedido, onde a coerência só aconteceria se fosse ela a ditar os rumos do partido.

A primeira hipótese tende a me preocupar mais do que a segunda. Afinal, no leque tão extenso de legendas partidárias do Brasil, não haveria uma sequer que fosse coerência com os nobres propósitos da ex-senadora? Essa possibilidade me parece apontar uma lacuna entre os ideiais da ação política e a sua prática. Afinal, esse desajuste poderia ser fruto de uma indisposição de Marina de aceitar jogadas consideradas normais no dia-a-dia do fazer político – como acordos e negociações que por vezes ferem os interesses do político e de sua legenda, visando apenas o sucesso eleitoral. Por outro lado, me questiono se essa cessão aos interesses alheios não seria também base essencial do jogo político democrático, onde interesses diversos aos seus devem ser ouvidos e levados em conta.

Se essa primeira explicação mostraria um desajuste de Marina com a prática política corrente, a segunda mostra, ao contrário, um ajuste muito bem feito. Nele, o que estaria de fato em jogo seria o poder que ela seria capaz de conseguir – inclusive a partir da expressiva votação que teve nas últimas eleições. Isso sim, esse cálculo de custos e benefícios, é bastante comum no jogo político e ela estaria apenas buscando se inserir da melhor forma nele.

Vamos acompanhar os desdobramentos e ver se eles nos dão pistas de qual explicação se mostrará mais provável.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/nina.jpg[/author_image] [author_info]Nina Santos é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia – UFBa e aluna da especialização em Comunicação e Política desta mesma instituição. Formada em jornalismo, tem experiência em assessoria de comunicação política, tendo trabalhado nas eleições de 2010. É pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital e Governo Eletrônico (CEADD-UFBA) com trabalhos voltados para o poder do cidadão na internet e, sobretudo, nas redes sociais online.

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