Marcha Contra a Corrupção: notas de observação

Marcello Casal Jr/ABr

Nestes dias que antecedem e sucedem o Sete de Setembro o sentimento geral de que o Brasil é uma nação, uma comunidade política, me parece mais à flor da pele. Uma certa ideia mal acabada, como é próprio dos conteúdos do imaginário geral, de país unido e construtor da própria liberdade (o que tem aqui sua utilidade política e importância social, claro).

Assim, na minha percepção (sempre, é tudo que tenho para este post), brota em terrenos inesperados alguns exemplos de mobilização e, com boa vontade, participação políticas. Neste ano após os costumeiros desfiles militares, em algumas cidades do Brasil, um grupo de civis vestidos de preto marchou contra a corrupção. Bandeira de adesão fácil, né. Quem é a favor, em público, da corrupção de homens públicos? Difícil mesmo é vestir preto na zona mais tropical do país.

Mas deixada de lado o primeiro espanto com o ineditismo da manifestação política, me chamou atenção a repercussão em alguns veículos de mídia (tem Veja e Carta Capital, viu). Para alguns, se tratou de um recado apartidário da sociedade civil para os todos os políticos corruptos do Brasil, inclusive a atual gestão do Governo Federal. Portanto, participação política da boa, legítima e louvável, um retorno aos velhos tempos em que se botava presidente para correr do Planalto; um exemplo de que tem salvação a geração 2000 no que diz respeito à participação política; uma prova de que Fernando Henrique Cardoso estava certo e que a oposição precisa cutucar a classe média pelo Facebook (Não foi por aí que começou?).

Marcello Casal Jr/ABr

Por outro lado, pipocaram contra-argumentos de todos os cantos (principalmente de governistas e céticos, é verdade). Aquela participação política não serve, porque se trata de uma arquitetura dos partidos de oposição ao governo Dilma para desestabilizar em momento difícil; os poucos indivíduos de classe média que foram, claro, são alienados. Em suma, trata-se de um evento insignificante, sem liga, só serve para acalmar o espírito de uns poucos indignados de shopping que não conseguem ver a política em sua complexidade. Que relevância vai ter um movimento de gente que só se conhece pelo Facebook?

Tirando a espuma e as perspectivas que não me interessam, eu cá, que acompanhei tudo que é link pelo Twitter, cheguei a algumas constatações:

  1. Se tiver partido político no bolo, não presta. E isso vale, com diferentes pesos e matizes, para quase todo mundo. A participação política boa é aquela que não se mistura com partidos. Em um sistema de democracia representativa esta expectativa é, em teoria, um tanto quanto impensável, mas só mostra que a moral dos partidos está de mal a pior. O que não é bom para ninguém, acho.
  2. A internet pode dar certo para mobilização para a mobilização e a participação política, mas seria prudente considerar outras variáveis, não?!. Participação política dá um trabalho… Pense aí em camisa preta no sol de Brasília. Tem que ter algo que motive o pessoal. E vale desde aparecer na TV até pensar no futuro dos bisnetos daqui a 100 anos, mas tem que ter uma motivação. Se supostamente deu certo agora, nada garante que dará em outro contexto, para outros temas, ou com outras pessoas.

É isso. O que acham?

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/samuel.jpg[/author_image] [author_info] Samuel Barros é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA; jornalista pela mesma Universidade; pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital; membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Democracia (CID); e do Grupo de Estudos de Políticas de Informação, Cultura e Comunicações (Gepicc); tem interesse por deliberação pública, deliberação midiática, participação política, jornalismo e dimensões teóricas e práticas de iniciativas em democracia digital.[/author_info] [/author]