Máquina de pensar

* Diógenes (Didi) Pasqualini
Há uma frase de Charles Sanders Pierce (1839-1914) que, particularmente, acho muito interessante e que se refere ao sentido. Ela diz que “nossos sentidos são máquinas de pensar”. Por estas palavras podemos obter uma pequena mostra da vitalidade excepcional deste pensador norte-americano, considerado o pai da semiótica moderna. O marketing, a meu ver, pertence a esta “maquinaria” do pensar, sentir e realizar um projeto de “saber” que relacione a entrega de alguma coisa a alguém. No caso específico do marketing político, essa “entrega” está relacionada essencialmente ao tráfego das ideias, ou seja, deve ser o agente facilitador de sentido para que o eleitor tenha melhor percepção, se identifique com alguém e o escolha.
Administrar “marca política” é essencialmente administrar o sentido mediante os discursos. Ser “ouvido”, hoje em dia, não é tarefa fácil, e a grande maioria dos políticos precisa pensar seriamente em como eles podem ser mais bem ouvidos. Isso não quer dizer que ao distribuir notícias ele o esteja sendo. As redes sociais, sites de notícias, jornais, rádio e TV estão aí transbordando informação política, e nem sempre nós “ouvimos” o que cada um tem a dizer, não é mesmo?
Em um segundo momento, como organiza seus pensamentos e visão de mundo este falante que nos chama a atenção? Sua expectativa, coerência, domínio do que fala, respeito ao próximo, leis, instituições etc. têm forte impacto na sua “audiência”. É este “mix” que vai qualificar ou desqualificar sua mensagem. E o terceiro ponto deste tripé é balizado pela forma com que ele vai persuadir seu interlocutor. Creio que esta etapa acomode o discurso publicitário que busca legitimar toda sua posição de troca com o público.
Muitos autores, principalmente os mais focados no mercado de autoajuda, listam fórmulas de como fazer. Não é este o objetivo deste artigo, mas sim pensar, refletir e compartilhar, pois o fazer envolve o saber, e ambos (saber-fazer) não acontecem se permanecerem restritos a uma palestra, artigo, livro, ou uma aula, têm que estar na esfera do hábito. Quase sempre as dificuldades para instituir um projeto de marketing são creditadas ao exercício do não pensar, do imediatismo, do não ouvir — que parecem ser característica que essa vida “on-line” nos impõe. Não existe “o culpado”, e sim a ausência de reflexão e projetos.
Efetivar projetos é para poucos, pois envolve disciplina, crença e dedicação. O resultado de tudo isso converge para um único ponto: a opinião que as sociedades têm do político, de sua aparência, de sua atitude no meio ambiente, seus êxitos, sua afetividade e todo o equilíbrio que sustenta esta relação. Independentemente do distanciamento do eleitor, apontado por pesquisas, o que se verifica é que, na eleição, a produção de sentido reduz essa atitude em nome dos valores e da visão global que cada um forma diante da decisão de voto. Mesmo considerando-se tão em baixa, hoje em dia, a “autoestima” política, percebemos que muitos projetos furam este bloqueio.
Referência:
PEIRCE, Charles Sanders. The Essential Peirce, Volume 2: Selected Philosophical Writings (1893-1913). Indiana University Press: USA, 1998.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8