Malu Fontes: sobre a falta de homem nos jornais

por Malu Fontes
Quando a imprensa registra que um garçom despreparado de uma Salvador em decadência diz ‘não temos pênis’, querendo dizer ao cliente de um restaurante italiano que não há no estoque da casa a massa do tipo penne, os mais letrados dão uma gargalhada. Gargalham um pouco pelo espanto crônico gerado pelos péssimos serviços sempre prestados em uma cidade que se pretende turística e um pouco pela confirmação da ignorância de  uma população que, mal formada, mal treinada e muitas vezes desinteressada pelo seu próprio ofício, vive auto enganada achando que isso aqui é o melhor lugar do mundo para viver, vir e estar. Sorry, baianidade: não é. Ou, no mínimo, não é mais.

No entanto, quando os índices do IBGE, apontando que, no país inteiro, e com números maiores ainda em Salvador, há muito mais pessoas do sexo feminino que do sexo masculino (incluindo, claro, heterossexuais, homossexuais, bebês, crianças, adolescentes, velhos e anciãos) são tranformados por jornalistas preparados em ‘sobra de mulheres’ e em ‘maridos em extinção`, aí a população, sobretudo a masculina, admira o saque de quem teve a criatividade ímpar de transformar índices de gênero do IBGE em manchetes que parecem ter sido ditadas por Mução, o humorista de rádio cuja delicadeza perde para a da superfície de um mandacaru na seca.

Do lado de cá da manchetagem jornalística, cujo machismo só não é enxergado por quem não é mulher e não tem que lidar com mandacarus bípedes que, apontando o para o jornal, avisam do alto da posse de seus falos tidos como troféus genéticos, que homem é um produto raro e mulher é carne em sobra no mercado, aparecem, para tornar tudo ainda mais tosco, moiçolas casadoiras à beira de um ataque de nervos em sua anunciada busca pública de maridos. Revoltadas com os homossexuais, com os héteros desinteressados em lhes levar ao altar e com os já casados, exibem pernas e poses nas capas confundindo índices populacionais com falta de homem e, por consequencia, confundindo homem com marido.

Nesse cenário, em que dados populacionais precisam ser traduzidos nesses termos para promover aproximação entre leitores e jornais, a mesma imprensa noticia outros dados também levantados por pesquisas e sem o menor potencial de serem tranformados em manchetes engraçadinhas. Mesmo o homem e seus pares de gênero sendo, entre si, os protagonistas da violência urbana, é a violência doméstica contra a mulher, paradoxalmente, que ganha na competição quando se trata do número de internações nos hospitais para o tratamento de sequelas de violência, consumindo milhões do SUS. O número de mulheres internadas na rede pública por violência é 2,6 vezes maior que o de homens. E em 70% dos casos de agressão contra a mulher, o agressor é conhecido da vítima. A maioria é cônjuge, ex-conjuge, namorado e por aí descamba pra pai, irmão, parente. Se é este tipo de marido que está em extinção, que bom. Parodiando o garçom: tem pênis, sim. O que falta é homem. E em tempo: o que explica haver mais mulheres que homens no país passa quase sempre batido no jornalismo. Nascem mais homens que mulheres, mas eles morrem muito mais que elas e mais cedo, principalmente entre os 10 e 50 anos, a maioria por causas violentas. Ou seja, sobrar é ótimo.

Malu Fontes é jornalista e professora de jornalismo da UFBA.