It’s NOT the economy, stupid! It’s demographics! (o que levou à reeleição de Obama)

No último dia 06, o presidente americano Barack Obama foi reconduzido ao cargo, em uma eleição que se confirmou acirrada no voto popular, mas que concedeu larga vantagem ao presidente no Colégio Eleitoral. Obama obteve mais de 61 milhões de votos, o que corresponde a 51% do eleitorado, enquanto Mitt Romney conquistou o apoio de mais de 58 milhões de americanos, ficando com 48% da preferência. Um país claramente dividido, portanto. A eleição americana, porém, é definida pelos votos dos delegados, em um Colégio Eleitoral. Trata-se de um modelo eminentemente federalista, que faz a soma ponderada de eleições estaduais. Neste Colégio, o candidato democrata reuniu mais de 330 delegados, e ao republicano restaram 206. Mais de 100 votos de frente para o incumbente sobre o desafiante.

Vários analistas previam uma disputa mais renhida, mesmo na distribuição dos estados e seus votos. Isso porque se contava com a vitória de Romney na Flórida, o que levaria Ohio a exercer o papel de grande fiel da balança, o mais importante dos Swing States – aqueles estados que não são claramente democratas, nem republicanos, e que podem ir tanto para um lado como para o outro. Ocorreu que o presidente levou tanto os 29 votos da Flórida, como os 18 de Ohio, o que desequilibrou bastante a disputa no Colégio Eleitoral. A diferença, nesses e em muitos outros estados, foi mínima. Mas na eleição dos EUA é desse jeito, não interessa se o placar é de 90% a 10, ou de 51% a 49, todos os delegados são contabilizados para o primeiro colocado. Até o dia da votação, o cenário foi preocupante para Obama, principalmente devido às graves dificuldades econômicas pelas quais os EUA ainda passam. O que levou, então, à vitória do presidente?

Para além da agenda econômica, certamente presenta na disputa americana de 2012 e na maioria das disputas presidenciais por todo o mundo, outros temas parecem ter pesado para a vitória de Obama. Notadamente, temas sociais e civis mobilizaram parte expressiva do eleitorado. O atual presidente desenvolveu políticas públicas para facilitar a legalização de imigrantes, posicionou-se a favor do casamento igualitário, suspendeu o don’t ask don’t tell que reprimia militares gays, e indicou juízas para a Suprema Corte que são favoráveis à ampliação do direito ao aborto. No próximo mandato presidencial, é provável que mais 4 juízes da Suprema Corte peçam aposentadoria e precisem ser substituídos, por terem idades já avançadas (todos com mais de 70 anos). Enquanto os republicanos faziam um profundo mergulho conservador, conduzidos pelo Tea Party, Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, ocupou claramente o espaço de um líder da agenda de teor progressista ou “liberal”.

E é nesta direção de abertura cultural que parece haver uma inversão de tendências no sistema de valores americano. Pelo menos é o que indicam algumas conquistas históricas obtidas nas eleições 2012: quatro estados – Maine, Maryland, Minnesota e Washington – votaram a favor de direitos LGBTs, e em Wisconsin foi eleita a primeira senadora assumidamente lésbica. Todos estes simbolismos e os direitos em jogo nesta disputa mexeram com o eleitorado. Os segmentos diretamente afetados ou mais sensíveis a esses debates compareceram às urnas e fizeram a diferença para o democrata. Mas não somente. A representatividade destes grupos no eleitorado americano tem crescido. No contraste entre 2012 e 2008, negros passaram de 11 para 13% do eleitorado; latinos, de 8 para 10%, alcançando os dois dígitos pela primeira vez; jovens com menos de 30 anos, de 17 para 19%; mulheres solteiras brancas foram a 18%. Nestes gráficos da CNN, vemos as votações de Obama em azul, e de Romney em vermelho:

Votos por gênero, idade e etnia. Fonte: CNN.

Obama alcançou 60% entre os jovens, 71% entre latinos e 93% entre negros. Alguns comentaristas alinhados aos republicanos chegaram a apostar na vitória de Romney, por acreditarem que estes segmentos não compareceriam com tanta força às urnas. A aposta aqui era a de que o grande comparecimento de mulheres, de jovens e de minorias sociais em 2008 havia sido algo excepcional, provocado pela novidade e pela esperança que Obama representava na época. Em 2012, a sorte do democrata seria diferente, alegava-se. Na realidade, a tendência de crescimento destes grupos manteve-se este ano, favorecendo a reeleição do presidente. Na FOX News, tivemos que ouvir muitas desculpas. Uma estimativa mais razoável dizia que era fundamental para a vitória de Romney um mínimo de eleitores homens brancos em 74%. Este número desceu para 72%, patamar demolidor para o candidato republicano, ponderam muitos analistas, como John King, da CNN. A questão econômica teve importância, mas não tem como compreender o resultado americano de 2012 sem observar as caraterísticas demográficas do eleitorado. Ao que tudo indica, uma nova América chegou pra ficar.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/Ruan-01-rosto.jpg[/author_image] [author_info]Ruan Carlos Brito é graduado em Comunicação Social pela UFPA, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, especializando em Comunicação e Política pela UFBA, e membro do GITS – Grupo de pesquisa em Interação, Tecnologias digitais e Sociedade, da UFBA. Twitter: @CrapulaMor. [/author_info] [/author]