Internacionalização: é possível ter disciplinas ministradas em inglês no Brasil?

No último domingo (01), uma notícia que li na Folha.com me chamou a atenção. O texto, intitulado “Universidades de São Paulo tornam inglês língua ‘oficial'”, fala sobre a iniciativa de duas instituições (USP-Ribeirão Preto e UNESP) de ministrar algumas disciplinas em inglês. Há alguns meses, havia lido outro texto, este publicado no jornal The Chronicle of Higher Education, que falava sobre os desafios enfrentados pelo Brasil no processo de internacionalização do setor acadêmico/científico. Esta outra matéria, mais sistemática, fala de várias iniciativas que vêm sendo desenvolvidas para que o Brasil passe a figurar efetivamente como “personagem” no mundo científico. A língua foi mencionada como uma das grandes barreiras para esse processo, não só porque há uma grande relutância em oferecer cursos em inglês no país – o que dificulta a ida de estudantes estrangeiros para instituições brasileiras -, mas também porque o português não é comumente escolhido como uma segunda língua – o que restringe a possibilidade de se levar pesquisadores renomados para o Brasil.

Texto publicado pela Folha.com fala sobre a iniciativa da USP e da UNESP de ministrar algumas disciplinas em inglês. Tal prática é comum em universidades européias e asiáticas, incluindo países em desenvolvimento como Cingapura, Hong Kong e Coréia do Sul.

A língua está envolvida em uma série de questões para além dessas – como a dificuldade inerente para publicar em periódicos internacionais, por exemplo. Há também outros fatores envolvidos nesse processo que são bem tratados pelo texto do jornal estadunidense The Chronicle – as poucas parcerias com universidades estrangeiras, poucos estudantes brasileiros que passam tempo no exterior, baixo número de bolsas fornecidas no Brasil para estrangeiros e para brasileiros irem para outros países, burocracia, dificuldades com visto etc. Mas nesse breve texto gostaria apenas de tocar na questão das disciplinas ministradas em língua estrangeira, sobretudo inglês. Será que a iniciativa da USP e da UNESP pode se espalhar para outras instituições, sobretudo nos cursos de pós-graduação? Porque talvez seja a pós-graduação, onde já há a exigência de conhecimento mais avançado de língua estrangeira na seleção, o melhor lugar para esse processo ganhar fôlego.

O jornal The Chronicle of Higher Education publicou reportagem no ano passado falando sobre as dificuldades e estratégias do Brasil para internacionalizar o setor acadêmico/científico.

No texto mencionado acima, do The Chronicle, o coordenador de relações institucionais e internacionais da Unicamp, Leandro Russovski Tessler, releva para o repórter que “há um problema no Brasil, porque dar aulas em inglês é semelhante à trair a soberania nacional”. Esse tipo de crítica à iniciativa de ministrar disciplinas em inglês também pode ser vista nos comentários à notícia da Folha.com. Um leitor, por exemplo, critica uma suposta subserviência do Brasil aos “donos do saber”. Diz ele: “Mais um passo rumo à extinção da língua portuguesa no Brasil. As Universidades brasileiras há muito abdicaram da função de ensinar. Resta então, tentar a subserviência absoluta aos “donos do saber” no mundo. Assim, ficaremos com a impressão de que nosso Ensino, que é péssimo, possui excelente nível…”. Logo abaixo deste, outro afirma que “universidade pública tem obrigação de ministrar suas aulas na língua materna”. Outro leitor denuncia o suposto elitismo da prática: “É um absurdo as universidades adotarem a língua inglesa como “oficial”. Pelo que li está favorecendo estrangeiros que moram no Brasil. Ensino elitizado. Quem quiser que estude inglês por conta própria. O sucesso ou fracasso dependerá do interesse de cada um. Se quiserem melhorar a qualidade do ensino não será com atitudes como essas. O grande problema do Brasil está na educação básica, que é fraca, geralmente com professores mal pagos, estruturas físicas degradas…e por aí vai..”. Ainda existem os irônicos, como um leitor que diz: “Legal!!! Logo logo esqueceremos a nossa língua. Mas, quem quer saber de coisa de pobre, né?”.

Talvez os comentários feitos a uma notícia em um portal não sejam efetivamente o melhor parâmetro para avaliar até que ponto a iniciativa tem ou não respaldo, mas valem como algum indicativo. A grande maioria dos comentários, inclusive, vão no sentido contrário a esses apresentados acima. Muitos aprovam a estratégia, argumentando, por exemplo, que “se o Brasil quiser ser referência em negócios, pesquisa e educação superior, principalmente na pós-graduação, deve estimular estas iniciativas, inclusive para atrair alunos e pesquisadores do exterior, como fazem vários países.” Outros citam que essa prática já é comum na Europa, que a produção científica de qualidade está toda em inglês, que os eventos acadêmicos são todos em inglês, enfim, que “já estava na hora de internacionalizar nossas universidades”.

Escassez desse tipo de iniciativa

O fato é que essas iniciativas ainda são escassas e a grande maioria dos alunos, mesmo na pós-graduação, não frequentam disciplinas em inglês ou em qualquer outra língua. Não vou entrar no mérito de opiniões como a de que a educação básica no Brasil que é o problema. Não se trata de discutir quais as prioridades de investimento público da área da educação no país, mas de pensar na possibilidade de incremento de uma prática que parece menos necessitar de investimento público e mais de apoio e iniciativa de alunos e professores. O que me pergunto é se efetivamente temos condições de ter disciplinas em inglês nos cursos de pós-graduação, em especial, nos da comunicação?

Penso que a maioria do corpo docente dos melhores cursos de pós-graduação em comunicação tem condições de ministrar disciplinas em inglês. Até porque grande parte do conteúdo trabalhado nas disciplinas já é em inglês, além da própria produção científica desses docentes ser cada dia mais escrita em inglês. Os professores preparam suas aulas com artigos e livros produzidos em inglês, os alunos lêem textos também em inglês, e apenas a aula em si é dada em português.

Não se trata de internacionalizar toda a grade dos cursos de mestrado e doutorado, mas sim de oferecer algumas disciplinas. A iniciativa poderia não só atrair estudantes estrangeiros para o país, mas também fornecer a oportunidade para que os alunos brasileiros se acostumem não só com a própria língua – já, que, claro, para assistir uma aula em inglês o aluno já teria que ter um conhecimento avançado no idioma -, mas com a situação de ter de se comunicar em inglês no ambiente acadêmico. Isso forneceria o subsídio para que participemos dos melhores eventos científicos da área e publiquemos nos melhores periódicos. E o que precisamos é efetivamente disso, sobretudo a comunicação: não só falar entre nós, mas também apresentar nossas idéias e trabalhos em âmbito internacional. A publicação em periódicos estrangeiros e a participação em eventos internacionais não pode ser exceção, precisa começar a se tornar rotina.