Imprensa marrom?

*Diógenes (Didi) Pasqualini

O principal adversário do político não é, muitas vezes, o candidato “A” ou “B” que aparece em primeiro nas pesquisas, mas o veículo de comunicação aliado a alguém ou grupo. A imprensa pode tomar partido, fazer política partidária? Isso ajuda no esclarecimento do voto e nas propostas de cada candidato? A imprensa pode, sim, ser partidária, mas seu leitor tem de estar informado a respeito. O ideal é que não seja, pois, trata-se de situação delicada um jornal apoiar, por exemplo, um candidato e, depois de eleito, criticá-lo eximindo-se de culpa. O jornal, rádio, TV, revista, site que apoiam este ou aquele candidato tornam-se, por consequência, coautores de um projeto político, sendo ele bem ou malsucedido. É um ponto que exige reflexão, e o eleitor não pode cobrar só do político, tem de cobrar da mídia partidária igualmente.
A ideia neste texto não é colocar os empresários ou jornalistas no paredão, mesmo porque sabemos que é muito difícil manter-se distante ou não participar do processo eleitoral, principalmente neste ano, em que as eleições acontecem nos municípios, ou seja, tão perto de nossa casa. É onde moramos e nos deparamos com problemas em todos os âmbitos: trânsito, segurança, saúde, educação, habitação, transporte coletivo etc. E perto também de quem pode resolver – prefeitos, vereadores e algumas cidades deputados.
Quem planeja campanhas eleitorais sabe o quanto é desgastante quando o principal adversário de quem se está assessorando é um veículo de comunicação. Na maioria das vezes ele goza de grande credibilidade diante da comunidade e praticamente não tem adversário. As mídias cultivam basicamente sua imagem como prestadoras de serviço e formadoras de opinião. E ainda, de maneira geral, têm em seus quadros jornalistas consagrados que “emprestam” sua credibilidade ao veículo de comunicação, o que ajuda a dar voz, legitimação e poder de influência. Assim, todos estão envolvidos. É uma decisão que extrapola os interesses pessoais e invade o coletivo, mesmo que se levem em consideração todas as questões de liberdade, livre pensamento etc.
Durante um bom período de nossa recente história política, a chamada “esquerda” adotou uma estratégia bem interessante para furar o bloqueio dos meios que adotavam esta prática de apoio explícito. Chamavam-lhes de “imprensa marrom”, e de jornalista “chapa branca” os meios de comunicação e os profissionais que apoiavam os candidatos de “direita”. Como instrumento de pressão funcionou, pois era amparado por partidos ou grupos que tinham apoio dos trabalhadores de classes, operários e a necessidade de se organizar em um momento em que o país começava a deixar a ditadura para trás. Existia também a chamada “patrulha ideológica” entre os colegas de profissão, militantes e sindicalistas sobre os que faziam noticiário político. Cabe salientar aqui que o termo “imprensa marrom”, “cor de rosa” ou “sensacionalista” aplica-se àquela que tenta influenciar o leitor com o claro objetivo de adesão à sua forma “fabricada” de ver os fatos ou o mundo.
Hoje essas noções se “borraram” e os conceitos são muitos confusos; seja pelas bandeiras partidárias, defesas de temas, discursos semelhantes e técnicas de apresentação à população que dificultam a identificação do vínculo “ideológico”. Mas as estratégias se apresentam por outros meios não menos influenciadores, as redes sociais. Elas deverão ser o grande termômetro desta campanha, a primeira a acontecer nos municípios com essas redes mais estabilizadas e participativas. Assim, como no passado, a “patrulha” deve acontecer e os estranhamentos também. O difícil vai ser identificar os “chapas brancas” já que a rede está colorida, marrom, vermelha, cor de rosa, azul, branca…

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8