“Eu não assisto TV” ou o efeito sobre os ininfluenciáveis

Por Camilo Aggio

 

Os mais recentes escândalos de corrupção no governo federal e seus desmembramentos na opinião pública (principalmente aquelas opiniões mais tangíveis, manifestadas em espaços públicos de freqüentação cotidiana) me provocaram a fazer uma breve reflexão. Me permitam:

 

Não é raro se deparar com sujeitos que sustentam um grande cinismo e descrença frente à política. As críticas geralmente são formuladas nas bases genéricas de sentenças como “são todos corruptos”, “as instituições não prestam”, “morte ao Estado” ou frases “esquerdóides” de efeito como “Hay Estado, Soy Contra”. Bom, também não é raro que os mesmos sujeitos atribuam tal posição a uma qualidade particular que eles e alguns outros poucos (bem pouquinhos) tiveram o privilégio de herdar ou desenvolver. É a tal da…como é o nome mesmo daquele troço super importante quando estamos no colégio?…Ah! é o tal do senso crítico!

 

O tal do senso crítico para ser alcançado e mantido, segundo os próprios (tácito ou explicitamente), deve ser preservado das influências profundamente enviezadas e nefastas da toda poderosa e maléfica MÍDIA. Ser crítico, a rigor, é ser contra. Contra tudo aquilo que é publicado pela cobertura jornalística, comandada por uma tal elite dominadora, conservadora, de direita e, de vez em quando, “branca”. Ora, claro que sustentar tal posição e discurso tem suas recompensas simbólicas a depender dos grupos e ambientes que se freqüenta, afinal de contas as distinções sociais são inerentes a quaisquer interações interpessoais, assim como os processos de seleção de seus “membros” que delas decorrem. Um exemplo notório: para determinados setores intelectuais é mais do que fundamental a afirmação “eu praticamente não assisto TV”, que nada mais é do que uma espécie de atestado simbólico do quão inteligente, sofisticado e esclarecido é o enunciador da frase.

 

Bem, lá vem o meu ponto e isso me ocorreu porque discutia algumas teorias da comunicação e do jornalismo com dois colegas: Mal percebem esses sujeitos que todo o cinismo, desconfiança, descrença e críticas que costumam sustentar contra o campo da política e os políticos estão em uma relação quase simbiótica com os critérios de seleção e produção da informação política por parte do jornalismo. E nessa corrente está o jornalismo brasileiro que respeita a deontologia e a tradição ideológica americana desde a década de 70: A desconfiança constante frente ao Estado. A predileção do jornalismo brasileiro é pela cobertura política que privilegia acontecimentos, fatos e eventos de natureza corruptiva, escândalos, improbidades administrativas, frases e atos polêmicos, espetaculosos, etc. Tudo isso em detrimento da cobertura do jogo e das atividades políticas ordinárias que influenciam ou originam decisões importantes para todos os concernidos na República.

 

Discussões em plenárias, comissões, sessões e audiências públicas, dentre outros, são colocadas de lado em favor daquilo que os sujeitos do início desse texto costumam destacar como justificativa para suas posições e críticas. Melhor, não apenas justificativas, mas fundamentos de suas críticas sem quaisquer acréscimos, geralmente. Portanto, os sujeitos avessos, críticos, auto-declarados imunes aos efeitos mediáticos (ao contrário dos vulneráveis, não-esclarecidos, habitantes das trevas cognitivas) não percebem, pateticamente, o quão filiados aos preceitos do jornalismo brasileiro eles estão. E pior, eu diria. De uma condição de ignorância enorme, arriscam formular posições genéricas de avaliação e juízos sobre todo o campo do jornalismo, criando termos conceitualmente injustificáveis como “A mídia”.

 

Alguns podem arriscar a invalidação dessa tese afirmando que, efetivamente, “não assistem TV” ou que sua dieta de informação política se resume a um ou dois veículos ou produtos entendidos como independentes e realmente comprometidos com o interesse público, um eufemismo clássico que demonstra nada mais do que opções de escolha baseadas em afinidades políticas e ideológicas. Ora, a simples constatação, baseada em fundamentos básicos das teorias ligadas à comunicação, de que as representações socialmente compartilhadas não exigem um consumo ou contato direto com um veículo específico basta para que invalidemos tal argumento. Desse modo, a percepção e os juízos sobre a política e seus agentes, nos moldes aqui esboçados, são representações sociais vinculadas estreitamente aos recortes semânticos do campo da indústria da informação.

 

Exemplos existem aos montes e não preciso me debruçar sobre eles aqui. Em caráter de conclusão provisória (sempre), afirmo com segurança: os críticos e esclarecidos “anti-mídia” nada mais são do que produtos bem elaborados pela mídia que eles combatem ou têm o orgulho de afirmar que a evitam. São os mais afetados.

 

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/camilo.jpg[/author_image] [author_info]Camilo Aggio é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas na UFBA. É integrante do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital, onde pesquisa campanhas online e comunicação e política.[/author_info] [/author]