É bom ter razão

*Diógenes (Didi) Pasqualini
A propaganda política é o pilar que sustenta e produz sentido na comunicação do candidato e do partido. Sua transformação em “produto” à venda nem sempre é tarefa fácil como parece. Isso porque o produto em questão fala, pensa, tem ações e interage no mundo, diferentemente do produto de consumo, em que o fabricante agrega valor para despertar desejo de compra no consumidor. É muito delicado pensar na promoção de sabão em pó, por exemplo, e candidato, no mesmo nível, como defendem muitos profissionais de marketing.
O foco deste texto está em recortar a relação entre o processo de criação do sujeito candidato e os valores que orbitam em torno dessa construção, para que possamos refletir as diferenças entre produto político e comercial. Schulz (2012) encaminha uma pergunta muito interessante em seu artigo “Por que é tão bom ter razão?”. Neste artigo, podemos entender melhor o “estranhamento” que costuma acontecer entre o marketing político e o candidato quando ele é tratado como “coisa” tangível.
A vontade de se tornar “político” muitas vezes é despertada pelo estímulo dos amigos mais próximos, de familiares, grupos de classe, associações, partidos políticos etc., o que gera certa diferenciação da pessoa escolhida na comunidade em que vive e uma sensação de que seu modo de vida, valores, ideais etc. são modelos bem aceitos pela maioria da sociedade. Ou seja, de saída, o candidato já é “eleito” por alguém ou grupo. É quase natural que suas convicções sejam ampliadas e levadas a quase todas as áreas do conhecimento como um padrão que possa ser usado como razão para tudo – principalmente se seu comportamento na sociedade for “naturalmente” onisciente.
Schulz trabalha a ideia da razão ligada ao prazer, à satisfação. Aí se inclui aquela tentação de dar palpites em qualquer assunto, de “calo a câncer”, como diz um amigo. A razão é colocada nesta discussão como diferenciador, status, reconhecimento e superioridade. O marketing político, geralmente, lida com esse tipo de “produto”. Talvez aí resida o principal argumento de diferenciação entre os objetos aqui relacionados. Ego e sobrevivência no mundo moderno e cada vez mais exigente, autocrítica e medo de errar podem estar ligados a esta personalidade cuja postura é a de que estamos certos a maior parte do tempo. Talvez a psicologia explique como uma defesa ou estratégia de sobrevivência no meio.
Seja como for, aos profissionais que trabalham com candidatos fica a seguinte reflexão: por mais que seja tentador condensar o marketing em receitas prontas, estratégias e fórmulas, é preciso pensar que devemos evitar, sempre que possível, aquelas soluções simples que norteiam o senso comum. Hoje a solução para os grandes problemas é amparada no estudo multidisciplinar, que vai um pouco além de nossas crenças morais, religiosas ou convicções intelectuais singulares. O marketing, a psicologia, a semiótica, a filosofia, a sociologia, a neurociência e a própria teoria da comunicação têm amparado o marketing político de forma satisfatória e apontado caminhos interessantes. Essa “pluriconceitualização”, acredito, seria uma das fórmulas para entender melhor como estar neste mercado, onde as regras “funcionais” possam servir de referência, sem impedir de se pensar o marketing como campo de ação maior.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8

Referências
SCHULZ, K. Por que é tão bom ter razão? Revista Mente e Cérebro, n. 230, p. 38-45, mar. 2012. Pgs 38 a 45.