Dilma não tolera a corrupção, e você?

Diferentes sistemas políticos se deparam com grandes desafios no sentido de aumentar a estabilidade e a qualidade da democracia, e que podem ser afetados, entre outros, por problemas como a corrupção. Importante lembrar que a corrupção pode ser entendida, entre outros vários conceitos encontrados na literatura, como “o uso inadequado da autoridade e abuso de poder em benefício pessoal em detrimento do bem estar da maioria”. Quanto ao Brasil, vale destacar que a nossa democracia está em processo de consolidação e os cidadãos estão, crescentemente, mais exigentes e vigilantes quanto a este tema.

A mídia é importante fonte de informação para o cidadão. Inúmeras pesquisas reafirmam os altos índices de confiança nos meios de comunicação, como destaca a pesquisa do Latinobarômetro de 2011, que aponta que na América Latina a mídia – rádios, TVs e jornais – é uma das instituições entre as mais confiáveis, perdendo apenas para a Igreja.  E por que mencionar a confiança na mídia? O tema da corrupção é frequentemente veiculado na mídia, o que contribui para a aumentar a percepção dos cidadãos de que a corrupção é um problema das democracias. Mas, também precisamos pensar que, além da percepção da corrupção, existem graus de tolerância a ela.

Crédito: Blog Comunicação e PolíticaRecentemente, Dilma Rousseff disse em um jornal francês que “não tolera a corrupção”, mas reconhece que é um problema que afeta grande parte dos países. Trazendo essa noção de tolerância para o cenário eleitoral, cabe questionar se os cidadãos brasileiros toleram a corrupção e qual reflexo disso nas últimas  eleições municipais.

Nas eleições municipais de 2012, o caso de corrupção em destaque na mídia foi o mensalão. Além disso, outros casos “locais” também permearam o processo eleitoral. No entanto, o que vimos foi a reeleição de diversos políticos envolvidos nos mais variados casos de corrupção. E muitos desses casos foram transformados em “escândalos” (THOMPSON, 2002) e  foram veiculados nas mídias “tradicionais” e na internet. Ou seja, os cidadãos têm conhecimento dos casos e dos envolvidos. Destaco aqui o caso do vereador Léo Burguês (Belo Horizonte) que foi denunciado por utilizar de forma indevida a verba indenizatória (o caso ficou conhecido como “As coxinhas de Léo Burguês” link), e mesmo com tanta repercussão negativa nas redes sociais, ele foi reeleito em 2012.

Ao se tratar de percepção e tolerância à corrupção não se pode deixar de mencionar uma pesquisa realizada pelo IBOPE Opinião, em 2006. A pesquisa tratou da avalição dos cidadãos, entre outros, das “pequenas ilegalidades do cotidiano” e nas respostas, o entrevistado deveria dizer sobre “os brasileiros”, sobre “pessoas conhecidas” (que seria, indiretamente, ele mesmo) e sobre “o entrevistado”. Na pesquisa do IBOPE, é possível perceber que, cotidianamente, os brasileiros toleram a corrupção. Veja um exemplo:

Indicador de ilegalidade no cotidiano – (IIC)

Fonte: Pesquisa “Eleitor: vítima ou cúmplice?”, IBOPE Opinião, 2006.

Interessante perceber, por outro lado, que quando se trata de corrupção em uma dimensão política, o grau de tolerância é menor. Como exemplo, pode-se citar a pesquisa realizada pelo grupo “Opinião Pública, Marketing Político e Comportamento Eleitoral” em parceria com o IPESPE, durante as eleições municipais de 2012, em Belo Horizonte. De acordo com a pesquisa, existe alta percepção da corrupção em todas as esferas e os cidadãos se mostraram intolerantes. Porém, parte representativa é de acordo com o “rouba, mas faz” e concorda em votar em candidatos com antecedentes de casos de corrupção.

Ao avaliar o resultado das eleições de 2012, muitos especialistas afirmaram que a corrupção não foi um tema que afetou a decisão de voto de muitos eleitores. Pensando nos resultados das pesquisas mencionadas, cabe questionar se os eleitores continuam se baseando no “rouba, mas faz”, relacionado à sua tolerância em função dos benefícios que o voto naquele candidato podem trazer (voto econômico), ou se a forma como a mídia veicula os casos de corrupção (seja pensando no agendamento ou no enquadramento) também pode influenciar na percepção da corrupção e nos graus de tolerância a ela, já que ela é considerada como importante fonte de informação.

 

Referências

REIS, Fábio Wanderley. Corrupção, cultura e ideologia. In: Corrupção: ensaios e críticas. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

THOMPSON, John B. O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia. Trad.: Pedrinho A. Guareshi. Petrópolis: Vozes, 2002.

TELLES, Helcimara de S. Como o eleitor escolhe seu prefeito: o tema da corrupção nas eleições de 2012. Colóquio Internacional – Corrupção, mídia e novas tecnologias: Brasil e Portugal em perspectiva comparada, Belo Horizonte, outubro de 2012.Disponível em: link