Desejo não atendido, País dividido?

*Diógenes (Didi) Pasqualini

Ao tomar o eleitor como objeto, este texto busca, pela ótica da comunicação, compreender boa parte da discussão e comportamento da sociedade nos dias que antecederam o segundo turno da eleição presidencial, os rumores e desdobramentos da acirrada disputa eleitoral que já terminou, mas que ainda deixa rastro nas redes sociais e vem sendo retratada pela imprensa. São embates acalorados que pedem muita análise nas mais diferentes áreas do saber para dar conta deste fenômeno. O que tenta-se argumentar aqui é que a maior parte deste embate pode ser reflexo dos efeitos deixados pela forte publicidade política, não de agora, mas de outras eleições também. O argumento-chave que leva a esta constatação é o baixo envolvimento da maior parte da sociedade com a política partidária, e as pesquisas mostram isso com muita clareza. O eleitor médio liga-se à política semanas antes do pleito. Sendo assim, as opiniões acabam mais coladas à superficialidade da publicidade que a uma reflexão mais profunda, o que demanda tempo e certa dose de dedicação.

Sabe-se que quando tentamos vender alguma coisa a alguém os argumentos favoráveis à compra devem capturar e despertar interesse. Ao alimentar o imaginário coletivo, é possível criar um desejo e depois apresentar alguém ou algum objeto que consiga conter os atributos que satisfaçam a esse desejo. Some-se a isso a necessidade de posse de objetos midiatizados e que passamos a desejar. Não porque nascemos com traços consumistas, mas porque ao longo de nossa existência somos educados para isso. A maioria dos profissionais de marketing sabe disso, e os mais consagrados conseguem dar sentido muito mais amplo àquilo que pretendem vender. Ou seja, a publicidade deixa as coisas parecidas com o que na verdade não são. Levamos tudo isso na hora de argumentar favorável ou contra alguma coisa.

O hábito da repetição e a massificação ajudam a fixar a imagem, levam à subjetividade, criam dependência, glorificam objetos, coisas e pessoas ao ampliar o que a publicidade se dedica a fixar em nossa mente. Sob este olhar, contamos com a crença e a dúvida a atuar decisivamente em nossas ações. Eleger alguém significa reduzir a dúvida e aumentar a crença. Há dois elementos importantes aqui, e para esclarecê-los recorre-se ao pensador norte-americano Charles Sanders Peirce em The Essential, Volume 2, que nos diz que acreditar em alguma coisa, trazer algo para a consciência, para a autossatisfação, tem no hábito seu amparo, ocorra isto consciente ou, “na maioria das vezes”, inconscientemente. A privação da crença de um hábito, ou seja, a dúvida, é o gênero contrário, distancia-nos de uma proposta ou conceito. Se não temos dúvida é porque acreditamos, assim nos aproximamos de um lado.

Devemos insistir nesta ideia, pois a partir da crença vemos surgir algo um pouco mais forte, que é a fé. Na realidade, o estágio de consumo pode chegar à adoração e desencadear os sentimentos mais próximos ao que percebemos quando se polarizam tão fortemente dois objetos, no caso, candidatos. É mediante a fé cega que temos visto na história da humanidade, guerras, à disseminação do ódio, pois acabam se embutindo aí questões religiosas, morais, ideológicas, étnicas, atitudes espirituais, econômicas, e por aí vai. Neste estágio, a razão e o diálogo passam a ser o maior inimigo do altruísmo, da bondade, solidariedade, companheirismo, amizade, compartilhamento, do aprendizado, convivência, etc. Sobra espaço para rancor, desavença, descrédito, preconceito, divisão de classes, países, etc.

Mesmo que grande dose de razão não chegue a nossas mentes nos tempos difíceis pelos quais nossa sociedade está passando, e diante de todo o contexto, nunca é tarde lembrar que em política há muita gente ruim fazendo coisas boas e muita gente boa fazendo coisas ruins. Não é mesmo?

Referência:

The Essential Peirce, Volume 2: Selected Philosophical Writings (1893-1913). Peirce Edition Project. Indianápolis, Usa: Indiana University Press, 1998.

*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4484393Z8.