Conversas com Stephen Coleman #2: critica a um parlamento de cidadãos comuns

Meu segundo encontro com o professor Stephen Coleman foi em uma reunião  do Centre of Digital Citizenship, que funciona basicamente como um grupo de pesquisa e de leituras. Para iniciar o semestre, foi sugerido um artigo do jornal Independent. Em resumo, o autor do artigo defende uma proposta para uma revitalização do parlamento britânico. Segundo o autor do texto, o parlamento é uma instituição antiga que precisa ser mantida e defendida pela população. O problema, assim, seriam os políticos que seriam excessivamente profissionais, preocupados apenas com a reeleição e distante da realidade da população. Assim, o autor propõe que tentemos eleger um tipo especial de “parlamentar-cidadão”. Em resumo, tal individuo seria alguém com “civic skills”, ou seja, com pericias relacionadas a atividades cívicas do cotidiano. O autor sugere, por exemplo, que façamos a escolha de pessoas ligadas a escolas ou creches. Pessoas, afinal, que encontramos no dia-a-dia e que sabem de nossos problemas. Tais indivíduos se candidatariam para serem parlamentares na House of Commons (câmara baixa britânica), mas com um diferencial: não poderiam se reeleger. Eles já saberiam que se trata de um mandato único. Dessa forma, defende o autor, seria possível que tais parlamentares-cidadãos se preocupem unicamente com a gestão que estão envolvidos (afinal não precisam se preocupar em se reelegerem). Por terem essas civic skills eles também estariam mais propensos a realizar um processo decisório mais participativo e mais próximo das necessidades das pessoas comuns, já que os parlamentares padrões acabam formando elites totalmente distantes do cotidiano.

 

A discussão sobre a proposta acima começou com as criticas básicas sobre a sua ingenuidade e mesmo sobre seu conceito fraco de política. Em alguma medida, o político é apenas um gestor. Se ele não está fazendo algo bem o suficiente, basta você substituí-lo por alguém mais interessado. Ignoram, assim, o fato de que política está diretamente relacionado a interesses e valores, assim como disputas de poder e de pontos de vista diferentes. Um dos participantes afirmou, inclusive, que semelhante proposta parece querer justamente suprimir os desacordos, principalmente na perspectiva de tornar a política mais efetiva.

 

Eu, particularmente, disse que haveria um problema extra. Se, por um lado, é bom pensarmos em um parlamentar que não se importa com a reeleição, pois ele pode se focar em seu mandato único, por outro temos um político que não precisa ponderar muito o futuro de sua carreira política e da conseqüência de suas escolhas. Ou dito de outra forma, temos um político que, potencialmente, precisa se preocupar menos com accountability, uma vez que não pretende se eleger novamente. Então, na verdade, teríamos poucos ou nenhum mecanismo para controlar tal tipo de parlamentar. Teríamos, assim, de confiar totalmente em suas “civic skills” e apenas torcer pelo melhor.

 

O professor Coleman encerrou a discussão afirmando que concordava com vários dos argumentos, mas que não se tratava apenas de uma visão inocente sobre a política ou sobre os políticos em si, mas, especialmente, sobre o conceito de representação em si. Por um lado, afirma Coleman, o autor do texto/proposta tem razão ao afirmar que temos representantes que estão excessivamente distantes da população comum (ordinary) e que isso é problemático. Contudo, pode ser ainda mais problemático eleger cidadãos comuns porque eles são cidadãos comuns.

 

Em primeiro lugar, tal idéia de representação supõe que apenas alguém pertencente a certo grupo ou idéia poderia legitimamente representá-los. Ou seja, apenas mulheres poderiam representar mulheres, apenas negros poderiam representar negros e daí em diante e isso não é verdade. Em segundo lugar, há uma outra questão. Se tais parlamentares – cidadãos fossem efetivamente eleitos, eles precisariam ouvir os outros cidadãos comuns? Ou seja, se eles já são cidadãos comuns e já, teoricamente, sabem dos problemas, questões e necessidades dos outros cidadãos comuns, eles poderiam decidir tudo com base em suas próprias opiniões. Pois os parlamentares – padrão, afinal, tem um motivo para escutar os cidadãos, eles são de uma elite afastada da “realidade” das pessoas comuns. O mesmo problema não acontece com essa nova categoria, que agora pode justificar todas as decisões com base em suas próprias experiências pessoais.