Caso Orlando Silva: oportunismo e interesse público podem ser duas faces da mesma moeda

* Em parceria com Rodrigo Carreiro

O recente escândalo envolvendo o ministro dos Esportes, Orlando Silva, e denúncias de formação de um esquema que envolve dinheiro público e financiamento de campanha partidária expõem uma ferida do velho novo jornalismo político brasileiro. Se a corrupção já derrubou quatro ministros em menos de um ano de governo Dilma, é porque em todos os casos as denúncias partiram de órgãos da imprensa. Mesmo que nenhum ministro tenha se declarado culpado, a verdade é que uma vez exposto o caso, a atenção de resto da mídia de massa e do público se voltam completamente para aquele assunto, tornando a situação dos políticos insustentável. Mas, no caso de Orlando Silva, o padrão permanece o mesmo? Vejamos que sim e que não.

Orlando Silva, na Câmara dos Deputados, se defendendo das denúncias de corrupção em sua pasta. Foto: Valter Campanato/ABr

Por um lado, Orlando Silva, Agnelo Queiroz (antigo ministro) e o Ministério dos Esportes já foram alvos de inúmeras denúncias de irregularidades, inclusive com problemas na prestação de contas, apontadas pelo TCU, e razoavelmente exploradas pela imprensa, pelo menos desde 2006. À época, a blindagem lulista segurou as pontas e Silva continuou tranquilo sua trajetória. Tal trajetória diz respeito, basicamente a partir de 2007, à construção do projeto da Copa do Mundo de 2014, envolvendo Fifa, CBF e governadores ávidos por espaço entre as sedes da competição. O ministro, chancelado e forte por causa de Lula, seguiu em frente tratando dos assuntos diretamente com a alta cúpula das entidades parceiras, num panorama jornalístico com (ainda) pouca atenção a irregularidades e problemas que futuramente apareceriam. Silva, até esse ano, era claramente apontado como interlocutor que dizia amém a todas as exigências da Fifa e CBF, o que inclui número de sedes, liberação de verbas, dentre outras questões. Foi, então, que o problema apareceu na forma da Lei Geral da Copa.

Por outro lado, em um ano repleto de casos de corrupção exatamente na seara do esporte e com o prazo para a entrega das obras da Copa mordendo a cada dia mais o calcanhar dos organizadores do evento, a atenção da mídia está certamente voltada para o assunto. É compreensível que as denúncias contra Orlando Silva e o Ministério dos Esportes ganhem grande repercussão esse ano. Depois das denúncias de propina que assolam a Fifa e, especialmente, atingem diretamente o presidente da CBF e do Comitê Organizador da Copa, Ricardo Teixeira, o evento em si e o tópico do esporte estão no pico do ciclo de visibilidade midiática. Diante da mudança de rumos da própria cobertura jornalística sobre o assunto, agora já com bastante atenção às diversas irregularidades presentes inclusive no próprio processo de escolha das cidades sede pelo comitê da Fifa, a mídia se voltou para a investigação de possíveis denúncias. O assunto é claramente de interesse público e do público, por assim dizer.  Mas, no jogo politico e jornalístico, oportunismo e interesse público podem ser duas faces da mesma moeda.

Provas e oportunismo estão do mesmo lado

Coincidência ou não, o fato é que as denúncias contra o ministro ganharam espaço agora, depois que Orlando Silva começou a “jogar” do lado de Dilma para ficar bem com a presidente. E está claro que Dilma e os cartolas da CBF e Fifa não concordam em vários pontos da Lei Geral  da Copa. O bolso dos organizadores e patrocinadores do evento querem avidamente a suspensão das leis em vigor no país durante o período do campeonato — como meia-entrada para estudantes e idosos e a proibição da venda de bebidas alcóolicas nos estádios, prevista no Estatuto do Torcedor. Mas a ideia não agrada Dilma. Não foi em vão que no final do mês passado começou a circular um boato de que a Fifa já pensava em um plano B para a Copa de 2014, caso não fosse modificada a tal da Lei. Muitos, inclusive, interpretaram a situação como uma clara chantagem. Logo em seguida, aparece essa enxurrada de denúncias contra Silva.

O policial militar, João Dias Ferreira, é o autor das denúncias sobre um suposto caso de desvio de verbas do programa Segundo Tempo. Denúncias contra o projeto existem há muito tempo, mas só agora ganharam mais repercussão. Foto: José Cruz/ABr

Mas dizer que há oportunismo nas denúncias não significa desqualificá-las ou blindar o ministro. Aqui, vale a ressalva de que o caso explorado à exaustão agora pela mídia, de que o ministro teria recebido propina entregue na garagem do Ministério e sido dedurado justamente por um velho “companheiro”, não exibe as tais provas que Orlando tanto pede. Entretanto, como aponta o jornalista José Cruz, que vem investigando as trapaças do Ministério dos Esportes não é de hoje, o “Segundo Tempo é um projeto corrupto, podre, que turbina candidaturas partidárias do PCdoB. Sobre isso há provas. Muitas. Dezenas. Centenas. O TCU identificou várias em 2006. Alertou, pediu providências. As falcatruas continuaram. A Controladoria Geral da União encontrou outras tantas. Pediu a devolução de R$ 50 milhões aos cofres públicos. Não voltou nada, até agora. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que as irregularidades têm caráter nacional. Sobre isso, há provas de sobra. De auditorias e investigações oficiais”. As provas contra o projeto estão muitas amplamente detalhadas no blog do jornalista.

Para finalizar, semana passada foi divulgado a tabela da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Minas Gerais e São Paulo, redutos tucanos, foram os premiados. No Maracanã, a seleção canarinha só joga se chegar à final. Vingança ou simples coincidência? Decida você. E, enquanto isso, vejamos por quanto tempo Orlando Silva se segura no cargo.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/anacarol.jpg[/author_image] [author_info]Ana Carolina Vimieiro é mestre em Comunicação Social pela UFMG e jornalista graduada pela PUC Minas. Passou por redações de portal, impresso, TV, rádio e assessoria, antes de se dedicar à área acadêmica. Tem interesse por análise de enquadramentos e, em especial, pelos procedimentos metodológicos adotados nesta linha de estudos. É atleticana fanática, apaixonada por futebol e maníaca por seriados. Vive atualmente na Austrália. [/author_info] [/author]

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/rodrigo.jpg[/author_image] [author_info]Rodrigo Carreiro é jornalista, especialista em Convergência Midiática e mestrando em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA. É membro do grupo de pesquisa Comunicação, Internet e Democracia e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital, ambos da mesma Instituição. Seus interesses de pesquisa são democracia digital, sociedade civil e participação local. [/author_info] [/author]