Caso Bolsonaro: racismo e homofobia não são temas apenas para negros e gays

O episódio envolvendo o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), no programa CQC, da Band, na segunda-feira, dia 28, deu o que falar. Em participação no quadro “Povo quer saber”, Bolsonaro responde a uma série de perguntas feitas por pessoas comuns e por famosos e, sem pestanejar, diz que tem saudades da ditadura e que não sente falta de Lula, apenas de “pessoas sérias”, como Médici, Geisel e Figueiredo.

Se tivesse parado por aí, o deputado já teria feito valer sua fama de polêmico. Mas ele foi mais longe. Quando questionado sobre o que faria se tivesse um filho gay, ele afirma que isso nem passa pela cabeça dele porque seus filhos teriam tido “uma boa educação” e, por isso, ele não correria esse “risco”. Para fechar com chave-de-ouro a entrevista, ele responde a uma pergunta da cantora Preta Gil sobre a reação dele caso um filho se apaixonasse por uma negra. Novamente, alheio aos constrangimentos da publicidade, Bolsonaro diz que não vai “discutir promiscuidade com quem quer que seja” e, mais uma vez, recorrendo à boa educação que teria dado aos filhos, diz que não corre esse “risco”, já que eles não teriam vivido em um ambiente propício pra isso como “lamentavelmente” a cantora teria vivido.

http://www.youtube.com/watch?v=UrLpLXe-q08

O episódio chama a atenção, pelo menos para aqueles que se dedicam a pesquisar questões de reconhecimento, para o fato de que as “questões sensíveis” – que são, para Mark Warren, aquelas em que o “o quê” da fala diz diretamente do “quem” do interlocutor – não são rotineiramente tematizadas desta forma na mídia.

O preconceito nunca tem uma cara. Quem é preconceituoso é sempre o outro e, por isso, a verdade é que o debate é morno, como quase que se questões como o racismo, a homofobia, o preconceito com mulheres, pessoas com deficiência, idosos etc. não existisse. São quase “não questões”, digamos. E, quando algum ator se expressa de tal modo, o debate esquenta, as pessoas prestam atenção na questão, e a temática deixa de ser dos diretamente envolvidos para se expandir e “tocar” aqueles mais avessos a esse tipo de assunto. Por isso, cabe nos perguntar: só nos sentimos implicados no debate sobre racismo e homofobia quando ouvimos falas execráveis?  E o que essa “comoção” nos revela?

Não está em questão o valor da fala em si, moralmente indefensável. Como afirma o professor Wilson Gomes, via twitter (@willgomes), filosoficamente, o valor da dignidade humana está acima da liberdade de expressão – a afirmação responde ao argumento do jornalista Ricardo Noblat (@BlogdoNoblat) de não defender a idéia em si de Bolsonaro, execrável certamente, mas o direito dele de expressá-la. O que me interessa, aqui, é que esse tipo de episódio gera uma sensibilização para a temática, uma expansão da discussão, não gerada por outros episódios comumente noticiados, em que não há um “agente discriminador”.

O ponto é: em uma luta por reconhecimento, especificamente, no âmbito da estima social, as pessoas falam para o outro, ele é o interlocutor de quem se busca reconhecimento. E temáticas como essa não “comovem” esses “outros” rotineiramente. Vemos, na mídia, o debate se concentrar internamente nos grupos que buscam reconhecimento e a repercussão muitas vezes também se restringe a eles. Nem todos se interessam por esses assuntos e têm o direito de não se interessarem. Mas o reconhecimento vem do outro, que não se envolve na discussão, e, por isso, esse episódio, pra lá dessas questões imediatas de liberdade de expressão ou decoro parlamentar, revela uma circunstância em que esse outro, que não se envolvia com o assunto, se sente implicado. Todo mundo de repente começou a discutir racismo e homofobia.

Como esquentar o debate?

O que quero ressaltar é a importância para esses grupos do envolvimento do “outro” de quem eles buscam reconhecimento no debate. E se não podemos defender que há algo de positivo na fala de Bolsonaro, pode-se repensar em como esquentar um debate que anda morno morno, com uma realidade que ainda não condiz com o fato do preconceito ser tratado como uma “não questão”. E aqui não estou me referindo a direitos, outro âmbito dessas lutas. Falo de estima social.

Axel Honneth já chamava atenção para a importância das atenções públicas para as lutas de grupos estigmatizados, já que, segundo o autor, quanto mais os movimentos sociais conseguem chamar a atenção da esfera pública para a importância negligenciada das propriedades e das capacidades dos grupos, tanto mais há a possiblidade de elevar na sociedade o valor social ou a reputação de seus membros. O que me pergunto é se só quando visualizamos o preconceito, quando ele ganha um rosto, que acreditamos que ele existe ainda de fato? Isso é importante porque e é só a partir do momento que a sociedade percebe o valor negligenciado de certos grupos que, então, é possível pensar em estima social.

Enfim, recentemente, em minha dissertação de mestrado, identifiquei a prensença do tema da deficiência na mídia, inclusive de forma significativa. Analisei os enquadramentos da questão por 50 anos em veículos impressos e, para além de outras conclusões, o que vemos é que os atores que se envolvem no debate mais amplo da mídia são os diretamente concernidos. A estima social, como diz Honneth, é uma grandeza biograficamente individuada. Nesse âmbito, o sujeito busca ser reconhecido pelo seu valor enquanto ser singular, que é digno não só de direitos, mas também de ser reconhecido por realizações que não partilha de maneira indistinta com todos os demais. O reconhecimento é um processo intersubjetivo e o âmbito da estima social me parece um grande desafio para esses grupos estigmatizados, justamente pelo fato desse “outro” de quem eles buscam reconhecimento muitas vezes não se envolver na discussão. Como esquentar o debate sem gerar desrespeito é o grande desafio.

Abaixo, a resposta de Jair Bolsonaro à repercussão do caso, veiculada no CQC desta segunda (04):

http://www.youtube.com/watch?v=TYkhPjtdns8