Candidato “super star”

* Diógenes (Didi) Pasqualini
 
É comum o pré-candidato dar visibilidade à sua imagem pelos meios de comunicação pensando em futura campanha eleitoral. Ampliar a aparição, na qualidade de repórter, apresentador, âncora, comentarista, articulista, culinarista etc., é quase senso comum que o transforma em celebridade, “líder de opinião” e rende mais votos na urna. Entretanto, na prática, é possível constatar sua baixa eficácia. A estratégia de atuar como “comunicador” por um período é discrepante diante da constatação de que a busca de um “tipo ideal” de pessoa “influente” na sociedade não se constrói pela midiatização do nome e, sim, por diversas características pessoais que não estão ligadas à aparição na TV, rádio, jornal, internet etc. por um período. Ou seja, diferentemente dos profissionais que atuam neste ramo de atividade e que se tornam candidatos fazendo o caminho inverso. O que não quer dizer que a estes a eleição seja mais favorável. Pensando nestas questões, creio que Merton (1970) joga luz a um aspecto importante quando se trata de líderes. Ele percebe duas categorias de pessoas, as influentes “cosmopolitas” e as “locais”. Imagino que a proposta de se apresentar à sociedade como um líder nascente passa por esta teoria.
A procura por um tipo ideal de candidato tem revelado figuras “fake” nos meios de comunicação e redes sociais. Seja pela busca repentina dos direitos humanos, liberdade, democracia ou ainda de uma “inteligência” moral eleitoral. O ato de imitar leva a pessoa, na maioria das vezes, a incorporar uma pessoa em outra; o resultado nem sempre reproduz o idealizado no “original”. Lotman, em Grigorjeva (1998), discute maravilhosamente esta questão ao observar que a semelhança entre uma pessoa e sua imagem é construída obedecendo a convenções sociais, ou seja, um entendimento ligado a uma determinada cultura, no que diz respeito ao que o meio identifica como agradável e “legal”. Isso se traduz no forte desejo de se tornar uma celebridade. A mídia, de maneira geral, é campo fértil à realização desse desejo.
Existe, porém, uma questão que precisa ser analisada quando buscamos ser alguma coisa em função de outra. Há neste caminho o “efeito colateral”, ou seja, em algum momento o eleitor vai ter de separar o comunicador do político e, na eleição, necessariamente, fazer a troca. Nem sempre é possível ver essa operação realizada com sucesso, pois um valor acaba anulando o outro. Ao comunicador as pesquisas conferem certa credibilidade; ao político, mostram sérias restrições. Esse é o ponto mais contundente dessa discussão, e a hipótese aqui defendida é a de que prestígio e liderança são conquistados quando existe a mediação em rede de alguma coisa ou objeto ligado ao sujeito.
No marketing político, estuda-se com certa profundidade conceitos do marketing pessoal que é pautado por certas “ideias” importantes; e entre elas estão: como dar visibilidade a habilidades, minimizar “defeitos”, carências, desejos, realizar pesquisa de aceitação e reconhecimento. A produção de uma imagem que facilite a aceitação precisa ser vista em aspectos que são contemplados em redes de relacionamento, na comunicação, em ações de amizade, no profissionalismo, na adesão a uma causa, no conhecimento e, acima de tudo, no reconhecimento do outro em si mesmo. Muitas vezes “aparecer” a qualquer preço pode ser a pior estratégia.
*Diógenes (Didi) Pasqualini é Jornalista, Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral e Doutorando em Comunicação e Semiótica. E-mail: [email protected] Twitter: http://twitter.com/didibr. Lattes, acesse: http://lattes.cnpq.br/6979019004115699.
 
Referências
MERTON, Robert K. Sociologia: teoria e estrutura. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
GRIGORJEVA, Jelena. La mímesis según Lotman. Estônia: Universidade de Tartu, 1998.