As possíveis mudanças no cenário político brasileiro, após a morte de Eduardo Campos.

Em meio à disputa pelo maior cargo da República, o jovem politico Eduardo Campos foi vítima de um acidente aéreo que permanece até agora sem maiores explicações e dando margem para diversas teorias. O acidente ocorreu na manhã seguinte à entrevista concedida pelo candidato ao Jornal Nacional, um dos momentos mais importantes desta fase inicial da campanha e que mostrou ao país bom desempenho de Eduardo. Maior visibilidade pública ainda era um dos principais desafios desta candidatura, que vinha se apresentando como a alternativa de 2014 para a tradicional polarização da política brasileira, entre PSDB e PT. A aparição na Globo poderia ser uma oportunidade para atingir mais eleitores e fortalecer a chapa socialista, não fosse a inacreditável tragédia que interrompeu um projeto de país.

Do ponto de vista das implicações políticas e eleitorais, neste primeiro momento, as análises trabalham com um cenário de fortalecimento de uma eventual candidatura de Marina – até então, candidata à vice-presidente na chapa de Eduardo. Marina é o nome que surge maior naturalidade, pela votação que obteve em 2010 e por ser a principal patrona da candidatura própria do PSB. A entrada de Eduardo na disputa pela presidência, contra Dilma e Lula, ainda era dúvida para muitos, antes de Marina anunciar sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro e seu apoio ao ex-governador pernambucano. Após o fracasso na tentativa de criar a sua Rede Sustentabilidade, Marina fez um movimento político estratégico, consolidando a dissidência que já se desenhava nas forças governistas e garantindo uma alternativa à conhecida polarização.

Fatores que podem pesar favoravelmente à Marina são o clima de consternação e de comoção que marcam o país, além da grande exposição que deve envolver seu nome. Nas ruas, comentários como “agora ela vem com tudo” ou “era pra ser ela” estão bastante comuns. Esta espécie de aura de predestinação, somada ao sentimento de mudança que as pesquisas apontam, faz de Marina uma forte desafiante ao Governo Dilma. A candidatura do PSDB, desta vez, alcança pouco mais de 20% – ao contrário de José Serra, que em 2010 apareceu sempre na casa dos 30%. A vaga de principal representante da mudança, portanto, está aberta, e as circunstâncias alavancam Marina Silva.

Eduardo e Marina

A questão é saber se este clima favorável à chapa socialista será mantido com o mesmo fôlego até o dia da votação, em 5 de outubro. Vale lembrar que outros eventos já haviam ‘decidido’ a disputa de 2014. Quando multidões tomaram as ruas em junho de 2013, provocando um mergulho na popularidade de Dilma, a reeleição da Presidenta parecia seriamente ameaçada. Após o inesquecível 7 x 1 da seleção alemã contra a seleção brasileira, muitos também decretaram fim de jogo para o PT. Hoje, percebemos que estes eventos não interferem tanto no resultado eleitoral. A morte de Eduardo, obviamente, é um acontecimento muito mais drástico e com implicações diretas. O Datafolha da próxima segunda-feira (18) irá indicar o grau da mudança no cenário. Mas também é preciso cuidado para conduzir um processo tão delicado. O senso de ocasião e de oportunidade não pode tornar-se oportunismo. Marina reúne condições para fazer a travessia, e ela nunca teve tantas chances de chegar tão longe.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/Ruan-01-rosto.jpg[/author_image] [author_info]Ruan Carlos Brito é graduado em Comunicação Social pela UFPA, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, especialista em Comunicação e Política pela UFBA, e membro do GITS – Grupo de pesquisa em Interação, Tecnologias digitais e Sociedade, da UFBA. Twitter: @CrapulaMor. [/author_info] [/author]