As fotos de Ronald Nazário: reações homofóbicas e reações à homofobia.

Foram divulgadas na internet fotos de Ronald Nazário, filho do jogador Ronaldo, prestes a viajar com um amigo para Ibiza, onde passarão as férias. O clima de intimidade e descontração entre os garotos, e também o corte de cabelo de Ronald, foram rapidamente objetos de comentários depreciativos e homofóbicos, por parte de muitas pessoas, nas mídias sociais e em sites. Um fenômeno relativamente comum na internet, em que muitas pessoas sentem-se à vontade para expressar as ideias mais condenáveis, protegidas pelo anonimato ou pela mediação do computador. Porém, este episódio também ganhou repercussão muito em função do posicionamento crítico das pessoas, que reagiram às agressões homofóbicas que atingiram o adolescente.

Nos últimos anos, tem ganhado força no país a defesa da cidadania LGBT. Exemplos mais recentes desse movimento foram a aprovação na sociedade brasileira, pelo Supremo Tribunal Federal, da união civil homoafetiva; as reações à posse do pastor Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e também ao projeto da ‘Cura Gay’; além de muitos cartazes que reivindicavam respeito a gays, lésbicas e transexuais, nas recentes manifestações que ocorreram no país. A própria internet convive com os comentários mais repletos de ódio, em caixas de comentários de grandes portais de notícias, e com postagens que fortalecem as causas LGBT nas mídias sociais.

O fato é que hoje temos muitos desafios a serem vencidos no que diz respeito à ampliação da cidadania para todos os brasileiros, mas também temos um ambiente muito mais propício para avançar em debates que eram considerados tabus e para a afirmação de posturas mais respeitosas para com a diversidade. Uma consolidação da democracia que, aliás, converge com eventos de outros países: o casamento gay foi aprovado esse ano na França, está prestes a ser aprovado na Inglaterra, e no ano passado todos os 4 estados norte-americanos que levaram essas questões a voto tiveram resultados favoráveis à cidadania LGBT, com o apoio declarado do Chefe do Executivo, Barack Obama.

O caso das fotos de Ronald Nazário serve para mostrar como ainda precisamos de muito mais do que levantar cartazes espirituosos em passeatas. Blogueiros como Nina Lemos e Neto Lucon chamaram especial atenção para o fato de que muitas das tentativas de ridicularização que fizeram com o garoto de 13 anos partiram de pessoas identificadas com esses movimentos progressistas que têm marcado posição no país, ou ainda dos próprios gays, com uma espécie de homofobia internalizada, resultado de um ambiente cultural opressor e heteronormativo, ao qual todos estamos submetidos.

A luta contra a homofobia requer mais do que anúncios ou frases feitas, exige uma reflexão permanente, um exercício diário de cidadania, na defesa dos direitos de quem não os têm e na construção de um ambiente social mais saudável e civilizado para todo o conjunto da sociedade. De qualquer forma, é bom enxergar que não precisamos sempre de ‘formadores de opinião’ ou de militantes de plantão para reagir contra casos de homofobia. Essa postura de respeito à diferença está cada vez mais disseminada, e cada vez mais é feita por qualquer um de nós. Torna-se habitual, naturaliza-se, até mesmo quando vacilam aqueles de quem se esperava um comportamento exemplar. Podemos ver aqui um importante exemplo do amadurecimento cultural que vivenciamos no país.