As bases da objetividade no jornalismo

por Acácio Salvador

O contrato autêntico, que consideramos basilar da narrativa jornalística, foi conformado durante séculos de disputas políticas, mudanças ideológicas e filosóficas da sociedade ocidental. De certa forma, os pactos comunicacionais estão sempre em mutação e cada atualização eles se realizam de acordo com seu tempo e espaço específicos. As transformações dos pactos, assim como sua construção, passam pelas mudanças do modo do homem narrar, que por sua vez são reflexos do espírito e da cultura de sua época como bem aponta Walter Benjamin em “O narrador” (1994). São, ainda, também formas tácitas da sociedade ordenar os discursos, exercendo assim controle sobre o poder.

Segundo Foucault (2008), em “(…) toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada, e redistribuída por certo numero de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos (…)” (p.9). Para ele, as sociedades selecionam os discursos através da exclusão, que pode ser feita de três formas: a interdição, a separação e através da vontade da verdade. O primeiro modo de exclusão se dá na palavra proibida, o que não se pode dizer sobre algo, os tabus. A segunda forma é através da simples separação e, por conseqüência, pela invalidade do discurso, como por exemplo, pela separação entre razão e loucura (a separação destes dois discursos acarreta na simples negação de sentido para o último).

O terceiro tipo de exclusão nos interessa mais por ser nele que se conformaram as séries discursivas e suas bases. A busca da verdade é algo constante nos discursos ao longo da história, mas o que se entende como verdadeiro e falso varia muito, até mesmo entre textos de um mesmo período, e sem que um sentido de verdade exclua o outro. Então, como a verdade pode ser um critério de exclusão se, ao analisarmos cada texto é possível identificar nele verdades próprias que independem de uma instância institucional.

Assim, Foucault identifica uma primeira “cisão” no sentido da verdade entre o século VI e VII. Primeiro, a verdade estava no próprio discurso e na condição ritualística em que ele era proferido. O que era dito era verdade por ser dito por quem de direito, e assim os discursos se realizavam. Em seguida, o parâmetro passou para o sentido e as formas do que era dito, sua argumentação e suas evidências passaram a ter valor de verdade de acordo com “sua relação a sua referência” (FOUCAULT, 2008, p.15). Desta maneira, muda também a ligação do discurso com a realidade socialmente construída. Na primeira relação, o discurso é a realidade, no segundo ela é feita através do discurso. Portanto, neste sistema de exclusão, o verdadeiro e o falso passam, em um certo sentido, pela relação que se acredita que o texto tem, pode ou deve, ter com a realidade seja ela mítica ou empírica. Para Foucault, essa primeira divisão, descrita por ele, deu a “forma geral” à nossa maneira de “buscar a verdade”, mas outras surgiram ao longo dos séculos. “No passado como hoje a conquista das consciências significa o acesso ao poder. Deter, assim, as regras do certo e do errado, do verdadeiro e do falso passaram a funcionar como mecanismo de dominação” (MARCONDES FILHO, 2002, p.219). Apesar de Ciro Marcondes Filho fazer esta afirmação pensando no discurso científico, acreditamos que podemos estendê-la a qualquer tipo de discurso.

É preciso ponderar que as formas de exclusão dos discursos atuam de maneira conjunta. Assim, o jornalismo ao mesmo tempo que usa uma exclusão ao produzir um texto que persegue um certo tipo de verdade, ele ao longo dos anos, se institucionalizou enquanto profissão estabelecendo sindicatos, conselhos, escolas e jornais que são gabaritados socialmente  a produzir, ensinar e “vigiar” o discurso jornalístico. O que vemos com o surgimento das novas mídias são o poder e exclusividade das instituições sendo relativizadas, diante da possibilidade de qualquer um divulgar seu texto.

A narrativa factual e a ficcional só vieram a se desassociar no decorrer dos séculos XVIII e XIX, por fatores políticos, sociais, ideológicos e filosóficos. Para isso, foi preciso formar uma “definição cultural” de fato e outra de ficção, que permitissem duas formas distintas de se lidar com cada uma delas nos textos. “A história deste processo de definir fato e ficção em sentido cultural, é também a história da divisão da matriz indiferente entre notícia/romance em romance de um lado e jornalismo e história de outro” (DAVIS, 1996, p.71). Ou seja, foi preciso desenvolver os valores presentes no que chamamos de contrato de autenticidade (sobre o qual entraremos em detalhes adiante), para surgir certas narrativas que conhecemos hoje, entre elas a jornalística.

A ascensão destes valores na sociedade passam por disputas políticas e ideológicas, que tentam agregar e controlar os novos atores políticos e econômicos surgidos na Europa de então (newsbook). Neste momento, o relato jornalístico passa a ter como valor de verdade o viés ideológico, em toda a Europa tem-se a imprensa opinativa e partidária (TRAQUINA, 2005), em que a narrativa verdadeira era aquela alinhada ideologicamente.

Junto com essa transformação política, podemos destacar que, do ponto de vista ideológico e filosófico, o século XVII traz, em toda Europa, mudanças na maneira de ver o mundo que contribuíram também para o surgimento da dicotomia entre fato e ficção, realidade e imaginação. Começa a se desenhar nesse período o que Ciro Marcondes Filho (2002) denomina de “uma forma retórica que aspirava à objetividade” (MARCONDES FILHO, 2002, p.219), ou seja, um discurso que busca atingir uma verdade acima de opiniões, misticismos e subjetivismos. Nesse período, na Europa, é construído um novo paradigma científico, que inaugura a separação entre sujeito e objeto.

Esta distinção leva à crença na possibilidade da observação neutra do objeto, este faz parte da natureza e o homem, em determinadas circunstâncias e com certos métodos, pode se afastar do mundo natural de maneira a estudá-lo e descrevê-lo objetivamente.

A partir do século XIX, esse paradigma científico ganha força e seu método, sua filosofia e seu discurso influenciam diversos outros campos da sociedade e do conhecimento até então postos à margem em relação a ele. Assim, as chamadas ciências humanas passam a adotar os valores de objetividade, do método científico, da imparcialidade da análise e da racionalidade. Agora, acredita-se que não somente a natureza pode ser observada à distância e objetivamente, mas o próprio homem e sua sociedade podem ser objetos.

Esse modelo possibilitou o surgimento do paradigma informacional, e de um “novo produto”, um novo discurso: a notícia factual. Esse “novo produto” tinha em sua base uma nova maneira de construir e relacionar o texto e a realidade, ou seja, uma relação supostamente mais estreita entre discurso e a realidade. Como vimos, não é que antes não havia notícias, mas a noção de uma narrativa objetiva e imparcial, e por isso verdadeira era nova. O racionalismo da época “contamina” assim a narrativa cotidiana jornalística. O jornalismo quis funcionar a partir de então como uma lente sobre o mundo. Este “novo” objetivo do jornalismo surge embasado em um novo modo de “transformação” e “transação” (CHARAUDEUA, 1997) do mundo. Um novo contrato discursivo, culturalmente legitimado, em que se estabelece uma ligação íntima entre a realidade e o texto, entre a representação e o objeto.

A objetividade é também um mecanismo que, entre outras coisas, ajudou (e ainda ajuda) a aumentar a venda do aparelho jornalístico e inseri-lo na lógica da indústria cultura, essa como maior interessada em manter viva a imagem de credibilidade via objetividade

Referências

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Trad: Sérgio Paulo Roanet. São Paulo: 1994, p.253

CHARAUDEUA, Patrick. Discurso das Mídias. Tradução: Angela S.M. Corrêa São Paulo: Editora Contexto. 2006 p 285

DAVIS, Lennar J. Factual Fictions: The Origins of the English Novel .University of Pensylvania press:Philadelphia, 1996.

FOUCAULT, Michel. A ordem do Discurso. Tradução: Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola. 2008, p.79

MARCONDES FILHO, Ciro. O espelho e a máscara – O enigma da comunicação no caminho do meio. São Paulo: Ed. Unijuí, 2002, p. 322.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo Volume I- Porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2005, p.224