Apatia e mobilização no Brasil e na Europa

O Brasil e os países membros da União Europeia (UE) possuem realidades atuais e trajetórias históricas que dificultam a análise comparativa de seus sistemas políticos e respectivas relações com a mídia, no entanto, a identificação de fenômenos relativos a esses dois campos lá muito similares aos que se desenvolvem aqui tornam possível contornar essa barreira inicial.

Pois, assim como no Brasil podemos observar certa apatia política na população, verificável por meio do declínio das formas tradicionais de participação política, como a militância partidária, e do aumento de votos nulos e brancos; relacionada, paradoxalmente, à intensificação da atuação de minorias ativas e de diversos tipos de manifestações, mais visível no país a partir de junho de 2013, na Europa esta discrepante simultaneidade também é encontrada.

A este fenômeno em seu contexto europeu, Jurgen Habermas dá o nome de “síndrome da pós-democracia”. Num ensaio publicado no semanário Atual, do jornal português Expresso, ele explica esta síndrome a partir da descrição de suas duas vertentes contrastantes, utilizando como base o cenário alemão.

Segundo o sociólogo, a partir do final da década de 70, período coincidente com o declínio do estado de bem-estar social e a virada neoliberal, identificou-se na Alemanha um aumento acentuado das abstenções nas eleições em todos os níveis, principalmente entre aqueles que se encontravam nos setores mais pobres da sociedade, com níveis de desemprego mais elevado. O eleitorado flutuante, aquele que muda frequentemente de preferência partidária, também se expandiu, representando hoje um terço dos eleitores e composto, em sua maioria, por cidadãos com altos níveis educacionais e econômicos.

A razão de tais comportamentos, tanto nas classes mais pobres quanto nas mais abastadas é a mesma: o sentimento de não estarem a ser ouvidos e a percepção de que a sua influência nos contornos políticos através das vias democráticas encolhe progressivamente, os fazem desenvolver uma indiferença crescente em relação à política.

E isso, para Habermas, é resultado direto das mudanças econômicas engendradas nos anos 70, que colocaram o sistema de mercados financeiro fora da regulação nacional, e do aumento no número e densidade de organizações internacionais, como a UE, com vastas competências regionais e até globais, mas sem a devida legitimação democrática obtida normalmente no âmbito dos estados-nação. Apesar de a Alemanha ter sido poupada da atual crise bancária e da dívida que assola mais ferozmente outros países europeus como a Grécia, Portugal, Irlanda e Itália, subjaz, conforme a análise do caso alemão demonstra, o mesmo problema de fundo.

Já no Brasil, as razões são distintas das do caso europeu, mas os motivos para apatia política repousam na mesma base: a sensação de que atuação dos cidadãos via mecanismos democráticos como as eleições, são insuficientes para influenciar de fato nos  contornos políticos do país. E esta percepção dos cidadãos nasce dos já conhecidos problemas de: lentidão na renovação dos quadros políticos, distanciamento dos partidos dos problemas reais da população, série de escândalos, o noticiário negativo da política que todo dia é veiculado…

E neste vácuo de apatia das pessoas, tanto lá como cá cresce e se fortalece as manifestações, protestos, iniciativas…, toda uma gama de ações cívicas que, a despeito da aparente abundância de reivindicações, no seu âmago almejam todas uma democracia mais direta. Para Habermas, esse tipo de descontentamento político ativo se manifesta na forma de um ciclo: as pessoas estão incomodadas, protestam, acabam por ficar desapontadas e voltam as costas à política. É o ativismo convertido em rejeição inibida.

Ao que pessoas como o professor Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre a Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, discordam dessa visão do processo, indissociando as mobilizações sociais de seu percurso em rede, identificando-as como ações que se atualizam de tempo em tempo, tal qual a imagem de um aplicativo de celular. É o que acorreu no país a partir de junho com o “vem pra rua” e a questão dos transportes e evoluiu para o 7 setembro, o julgamento do Mensalão e agora para discussão dos rolezinhos.

O processo de atualização das mobilizações se dá da seguinte maneira: elas surgem, atingem seu ápice, decaem, passam por um novo processo de desenvolvimento e nesse ínterim incorporam novos sujeitos, refinam algumas demandas, incluem outras, mas não se extinguem em rejeição inibida. De acordo com Fábio é aí que reside as dificuldades da maioria dos políticos e aqui, podemos dizer, de cientistas sociais também, em entender um tipo de manifestação que se distingue das formas tradicionais de mobilização, cujo movimento flui e reflui, acontece e depois some.

Se a internet desempenha um papel fundamental na formação desse tipo de movimentação que se atualiza e está em permanente construção, isso o próprio Habermas indica, ao afirmar que o impacto das novas mídias sobre a transformação da esfera pública marca hoje uma diferença real, que ele, no entanto, admite ser incapaz de compreendê-la pela falta de familiaridade com a era digital. Talvez resida aí, portanto, a fonte mais rica de pesquisa para tentar se compreender esse tipo de manifestação que atingiu conotações globais e pouco se distingue, em suas características regionais, de suas congêneres no mundo todo.

 

Referências:

HABERMAS, J. A democracia na Europa de hoje. Atual, nº 2150. In: Expresso, Lisboa, p. 18-24, 11 Jan. 2014.

MOREIA, C. A. A política como aplicativo. Zero Hora, Porto Alegre, p. 3, 18 Jan. 2014.