Análise de enquadramentos da mídia: onde estamos e para onde vamos?

Uma busca no Google Brasil pela expressão enquadramentos da mídia retorna 320 mil resultados. “Media frame“, inclusive com aspas, gera 385 mil resultados no Google International. Já a pesquisa pelo termo enquadramento na Rede de Informação em Ciências da Comunicação dos Países de Língua Portuguesa (Portcom) – especificamente, no Reposcom – retorna 387 textos. Como é perceptível, esse é um conceito que tem ganhado bastante proeminência nos estudos de comunicação, com destaque sobretudo entre aqueles que trabalham na interface com a política.

Esses estudos compõem uma ampla linha de pesquisa, sobretudo nos EUA e na Europa, chamada de framing theory ou frame analysis. As origens desse tipo de análise são geralmente atribuídas ao sociólogo Erving Goffman (1974), que teria sido o primeiro autor a sistematizar conceitualmente o que seria o enquadramento – baseado sobretudo no trabalho de Gregory Bateson. Além da sociologia de Goffman, também são fontes importantes para a estruturação do conceito trabalhos desenvolvidos por correntes da psicologia cognitiva. Aqui, destacam-se, sobremaneira, os estudos de Kahneman e Tversky (1984).

No campo dos estudos da mídia, os enquadramentos começam a ser estudados empiricamente nos anos 80. O trabalho pioneiro de Todd Gitlin (1980) investiga a cobertura jornalística relacionada ao Students for a Democratic Society (SDS), um tradicional movimento estudantil dos EUA na década de 60. Gamson e Modigliani (1989) e Gamson (1992) também analisam material midiático a partir do conceito de frame. Posteriormente, Entman (1993, 2004) também fornece elementos substanciais para a consolidação desta área como um vasto campo de pesquisas sobre debates de temas públicos que ganham expressão midiática.

Se nos anos 90 e início dos 2000, o desafio da frame analysis era teórico-conceitual, hoje, esse desafio parece mais dizer respeito ao aspecto metodológico.

Este campo de estudos sofreu diversas críticas ao longo desses quase 40 anos desde o trabalho de Goffman. As críticas se concentraram, sobretudo, na ausência de fundamentação teórico-conceitual da própria noção de enquadramento, ou, mais precisamente, na profusão de conceitos de frame utilizados pelos pesquisadores em seus trabalhos. Diante de tais críticas, nos anos 90 e no início dos anos 2000, diversos autores enfrentaram a tarefa de estruturar conceitualmente a área. Todavia, menos que reunir essas diversas linhas de trabalho em uma noção única, ou uma forma específica de abordagem, eles buscaram estabelecer uma diferenciação clara de modelos e conceitos (REESE, 2001; ZHONGDANG; KOSICKI, 2001; ENTMAN, 1993; D’ANGELO, 2002). Assim, hoje, menos do que a falta de consistência teórica, há, neste campo, diferentes perspectivas fundamentadas em noções distintas de enquadramento ou em paradigmas diferenciados (VIMIEIRO; DANTAS, 2009).

Atualmente, o grande desafio desse campo de estudos parece dizer respeito ao aspecto metodológico. Como indicado, os estudos empíricos sobre os enquadramentos da mídia têm início na década de 80, porém a preocupação com o rigor metodológico é mais recente. O frame continua a ser uma variável bastante abstrata, difícil de identificar e de codificar na análise de conteúdo, independentemente da perspectiva adotada (MATTHES; KOHRING, 2008). E essa dificuldade acaba levando o pesquisador a recorrer a métodos pouco seguros e bastante limitados em termos de validade (MATTHES; KOHRING, 2008; TANKARD 2001). Vários trabalhos não detalham efetivamente como se realizou a codificação dos enquadramentos ou, então, relatam métodos obscuros, em que o impacto do próprio codificador na análise pode prejudicar a confiabilidade dos resultados obtidos. A famosa “cozinha” da pesquisa não é descrita ou então é pouco explorada.

Perspectivas metodológicas

Nesse sentido, é interessante a diferenciação que Matthes e Kohring (2008) estabeleceram entre cinco tipos de abordagens metodológicas mais recorrentes na literatura sobre enquadramentos da mídia. De acordo com os autores, podemos nomear essas perspectivas em hermenêutica, lingüística, holística manual, assistida por computador e dedutiva.

A perspectiva hermenêutica é adotada por diversos estudos que tentam identificar os enquadramentos através do fornecimento de uma avaliação interpretativa dos textos da mídia, ligando os frames a elementos culturais amplos. Partindo de um paradigma qualitativo, esses estudos se baseiam em pequenas amostras que refletem o discurso de uma temática ou de um evento. Esses estudos, ainda que bem documentados e bem conduzidos nas discussões acerca dos enquadramentos, não deixam claro como os frames são extraídos do material.

Matthes e Kohring (2008) estabeleceram cinco tipos de abordagens metodológicas mais recorrentes na literatura sobre enquadramentos da mídia: hermenêutica, lingüística, holística manual, assistida por computador e dedutiva.

A perspectiva lingüística, por sua vez, é aquela que marca os estudos em que os enquadramentos são identificados pela análise da seleção, localização e estrutura de palavras e sentenças específicas no texto. Essa vertente se diferencia da hermenêutica pelo fato de os pesquisadores determinarem claramente os elementos lingüísticos que significam um enquadramento. Porém, “permanece um pouco obscuro como todas essas características são finalmente tecidas juntas para significar um enquadramento” (MATTHES; KOHRING, 2008, p. 260) (tradução nossa).

A perspectiva holística manual é aquela em que os enquadramentos são primeiramente gerados por uma análise qualitativa de alguns textos noticiosos e então são codificados como variáveis holísticas em uma análise manual de conteúdo. Os autores afirmam que “a confiabilidade e a validade dessa abordagem dependem fortemente da transparência na extração dos enquadramentos” (p. 260). Do ponto de vista metodológico, o problema é o mesmo da perspectiva hermenêutica: sem a determinação de critérios para a identificação dos frames, a avaliação cai em uma “caixa-preta metodológica”.

A quarta perspectiva é a assistida por computador. Essa perspectiva está preocupada com a criação de métodos mais objetivos e confiáveis e conta com o auxílio de computadores no processamento das informações. Miller e Riechert (2001), por exemplo, trabalham com a idéia de mapeamento dos frames (frame mapping). Os autores partem da mesma noção de Entman (1993) de que os enquadramentos se manifestam pelo uso de palavras específicas. Assim, o mapeamento dos frames pode ser descrito como um método de encontrar palavras específicas que aparecem juntas em alguns textos e que tendem a não ocorrer juntas em outros (MILLER; RIECHERT, 2001).

O quinto método que Matthes e Kohring (2008) identificam entre os estudos é o que eles chamam de abordagem dedutiva. Segundo os autores, todos as outras perspectivas identificam os frames de forma indutiva. Porém, alguns trabalhos identificam os enquadramentos na literatura e então os codificam em uma análise de conteúdo padronizada. É o caso de estudos que partem de frames genéricos, que não são identificados conforme o tema, mas sim já previamente criados. Como Iyengar (1991) e os enquadramentos episódico e temático, ou Semetko e Valkenburg (2000) e os enquadramentos do conflito, interesse humano, conseqüências econômicas, moralidade, e responsabilidade.

Como afirmam Matthes e Kohring (2008), esses métodos apresentados acima não são mutuamente exclusivos e, em uma mesma pesquisa, podemos encontrar procedimentos que são tidos como pertencentes a diferentes perspectivas. A perspectiva assistida por computador é o campo mais frutífero para futuros desenvolvimentos na frame analysis e é onde tenho gasto minhas energias de pesquisa.

A abordagem assistida por computador

Entre os estudos assistidos por ferramentas computacionais, podemos distinguir entre trabalhos que se baseiam na análise de termos e expressões presentes nas notícias para identificar os enquadramentos – o que Matthes e Kohring (2008) chamaram de abordagens baseadas em dicionário (dictionary-based approaches) – e outros trabalhos que partem de elementos pré-estabelecidos e fazem uma análise semântica. Em geral, as análises baseadas em dicionário são automatizadas, sendo que os dados de entrada a serem processados no software são as próprias notícias (os textos). No caso das análises semânticas, há uma etapa de pré-processamento: a codificação das notícias. São os códigos indicados pelo(s) pesquisador(es) que são usados como dados.

O acúmulo cada dia maior de dados (notícias) em formato digital e o aprimoramento das ferramentas tecnológicas fornecem o substrato para pesquisas que trabalhem com amostras cada vez mais significativas e métodos mais válidos e confiáveis. Imagens: ©Michelle Meiklejohn and ©Idea go

Esses elementos podem ser diversos a depender da base teórica que sustenta o trabalho. Matthes e Kohring (2008) partem dos elementos indicados por Entman (1993): definição particular do problema – que se subdivide em atores e subtópicos; causas; julgamentos morais; e soluções. Há também a possibilidade de trabalhar os elementos propostos por Gamson e Modigliani (1989): metáforas; exemplos; slogans ou chavões; representações; imagens visuais; origens ou causas; consequências ou possíveis efeitos; e o apelo a princípios. Em minha dissertação, tentei conciliar elementos propostos por esses diferentes trabalhos, juntamente com outros que não foram utilizados nessas análises anteriores, para solucionar o problema de pesquisa que tinha em mãos (VIMIEIRO, 2010). A idéia básica dessas análises é que a identificação do próprio enquadramento não é feita diretamente e sim através de variáveis menos abstratas que o próprio frame (VIMIEIRO; MAIA, no prelo).

Esforços têm sido feitos para, através de data mining – especificamente, text mining –, um ramo da Ciência da Computação, se aprimorar a análise de enquadramentos de grandes amostras. A tentativa é reunir as análises automatizadas e semi-automatizadas para a construção de métodos que respondam às necessidades das pesquisas. Especificamente, tenho trabalhado no aprimoramento desses métodos em conjunto com um pesquisador de data mining.

Por fim, gostaria de ressaltar que precisamos nos esforçar no diálogo entre ciências sociais e ciências exatas, pois o acúmulo cada dia maior de dados já em formato digital e o aprimoramento das ferramentas tecnológicas fornecem o substrato para pesquisas que trabalhem com amostras cada vez mais significativas e métodos mais válidos e confiáveis.

*A discussão apresentada aqui foi desenvolvida na dissertação Cultura pública e aprendizado social: a trajetória dos enquadramentos sobre a temática da deficiência na imprensa brasileira (1960-2008), defendida no âmbito do PPGCOM da UFMG, sob orientação da Prof. Rousiley Maia.

Referências

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VIMIEIRO, A. C. S. C. Cultura pública e aprendizado social: a trajetória dos enquadramentos sobre a temática da deficiência na imprensa brasileira (1960-2008). Belo Horizonte: Dissertação de mestrado – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, 2010.
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