Accountability no futebol? Ricardo Teixeira está “cagando” para denúncias de corrupção

Ricardo Teixeira, presidente da CBF, tem sido com alguma frequência tema de posts neste blog. Eu e meu colega Rodrigo Carreiro já abordamos direta e indiretamente a personalidade singular do cartola e as acusações de corrupção que ele tem sido alvo recentemente. Mas, depois da entrevista do “dono do futebol brasileiro” à revista Piauí de julho, preciso voltar ao assunto. Segundo Daniela Pinheiro, jornalista que o entrevistou, Teixeira, quando questionado sobre o recente escândalo de propinas da Fifa, soltou a pérola do título deste texto: “Não ligo. Aliás, caguei [para as acusações]. Caguei montão”.

"A Copa é deles, a conta é nossa."

O chefe da CBF e membro da Fifa, vulgarmente conhecida como “Federação Internacional de Falcatruas Associadas” — devo essa a Malia, colunista da ESPN –, tem razões para não se preocupar. A tranquilidade está na boca do cartola quando explica a situação à repórter: “Meu amor, já falaram tudo de mim: que eu trouxe contrabando em avião da Seleção, a CPI da Nike e a do Futebol, que tem sacanagem na Copa de 2014. É tudo coisa da mesma patota, UOL, Folha, Lance, ESPN, que fica repetindo as mesmas merdas”. Segundo Teixeira, ele está “cagando” para tais veículos de comunicação porque UOL, Lance e ESPN só “dão traço”, ou seja, têm baixa audiência. Conforme palavras do próprio, ele só vai ficar preocupado com o caso “quando sair no Jornal Nacional”. Sim, para ele, vale aquela máxima de que se “não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu”.

Na entrevista, Teixeira dá sinais claros de que não dá a mínima para a Justiça Brasileira, como parece também não se importar com a de qualquer outro país. Mas, o que me intriga mesmo nisso tudo é como um sujeito pode se manter realmente inatingível em situações como essa. Ou melhor, o impressionante é que acho que realmente ele pode “cagar” para essas denúncias. Coisa aliás que não é novidade para esse tipo de gente, donos da verdade, que, por mais que sejam acusados de inúmeras falcatruas, se mantém nos postos que ocupam. Mas, no caso do futebol, acho que ainda tem um “plus” nisso tudo, que torna o “dono da bola” no “dono do mundo”: ninguém leva futebol a sério no país do futebol.

Futebol e esporte: tem algo de sério nesse mundo de abobados?

Há um tempo atrás, quando a CBF foi processada por ocasião do caso Edílson Pereira de Carvalho — aquele mesmo que manipulou resultados de jogos do Brasileirão de 2005 –, a entidade demonstrou claramente o que ela e, claro, seus mandatários pensam sobre o futebol através dos argumentos adotados para se defender no processo. A entidade tentou argumentar que não poderia ser responsabilizada porque “o futebol é o ópio do povo” e que, naquela situação, queria-se dar “uma importância ao esporte que o mesmo não tem”. No decorrer do processo, conforme consta na sentença final, a CBF afirmou que “medidas como a presente ação, que querem emprestar ao futebol uma dimensão que um esporte não tem nem pode ter, contribuem para a desinformação do povo, já de si mal aparelhado intelectualmente”. Sim, a ONG GOL BRASIL (que deu início ao processo através de uma ação civil pública), a Justiça Brasileira e os consumidores de futebol em geral, como abobados que somos, estaríamos dando importância demais a algo extremamente sem importância. Graças ao protetor dos abobados (deve existir um Santo para isso), o juiz José Paulo Camargo Magano identificou a má-fé da entidade e a condenou ao pagamento solidário com outros réus de R$160 milhões.

Mas eu nem precisava ir tão longe para mostrar a pouca importância que damos [ou que certos cartolas querem nos fazer dar] ao futebol e ao esporte. Como muitos dizem por aí, “futebol é a coisa mais importante entre aquelas menos importantes”. Aliás, olhem bem para o Ministro dos Esportes Orlando Silva e entenderão meu ponto. A questão é que se continuarmos a ver o esporte da forma como talvez ele pudesse ser visto somente na época da Grécia Antiga, continuaremos a vivenciar situações como as que têm marcado toda a organização da Copa e Olímpiadas brasileiras. Tudo bem, a CBF não é uma instituição democrática e talvez seja difícil pensar em accountability nesse âmbito, mas o Estado brasileiro, esse sim, precisa e precisará prestar contas de suas ações.

Uma luz no fim do túnel?

No final de junho, a MP que flexibiliza as licitações para a Copa/Olímpiadas foi aprovada. O que salvou foi a mudança do texto, com a determinação de que o sigilo não envolverá mais os órgãos fiscalizadores e que Fifa e COI não poderão mais aumentar o custo das obras. Nesse episódio, me parece, a sociedade fez alguma pressão, demonstrando que sim, se importa em alguma medida com a pauta. Porém, a própria MP só foi necessária em virtude do atraso evidente nas obras. Além disso, a recente aprovação de benefícios fiscais para a construção da “Arena do Corinthians” causa bastante desconforto.

Enfim, estima-se em R$ 1,59 bilhão o prejuízo da África do Sul com a Copa de 2010. O Brasil deve gastar cerca de R$ 23 bilhões com a Copa 2014, incluindo obras em aeroportos e de mobilidade urbana — sendo que, segundo o TCU, 98,5% desse montante irá sair dos cofres públicos. Ainda por cima, acordos entre o Brasil e a Fifa sobre a isenção de impostos vão evitar que centenas de milhões sejam coletados pelo Tesouro — como no caso da Arena do Corinthians. Vejamos o final da história. E que não nos preocupemos apenas com o hexa.

Veja mais

Reportagem da Record sobre enriquecimento de Ricardo Teixeira

Reportagem da BBC sobre o escândalo de corrupção da Fifa

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/anacarol.jpg[/author_image] [author_info]Ana Carolina Vimieiro é mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e jornalista graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Passou por redações de portal, impresso, TV, rádio e assessoria, antes de se dedicar à área acadêmica. Seu interesse de pesquisa se concentra na análise de debates de temas públicos na mídia – sobretudo questões de reconhecimento e de interesse comum – e também na formulação de metodologias específicas para a análise de enquadramentos. É atleticana fanática, apaixonada por futebol, e consumidora assídua de seriados em geral. [/author_info] [/author]