A importância de haver (às vezes) preconceito e ódio na TV

O título é polêmico, mas tentarei já explicar rapidamente. Há alguns anos debatia com a colega do blog, Ana Carolina, e com outros colegas do Grupo Eme sobre a invisibilidade de certas questões importantes. Preconceito, racismo e discursos de ódio de maneira geral eram invisíveis ao ponto de muitos alegarem que já não mais existem em nosso país. O que obviamente não é verdade. Eles são apenas velados.

 

Assim, por mais complicada que seja a afirmação do título, é importante que haja algum preconceito ou ódio na TV e em outras mídias massivas em certas situações*.  A questão está na visibilidade que ele gera e, principalmente, nos frutos de tal visibilidade. O exemplo mais recente é o da jornalista Mirella Cunha da Band Bahia, que interpelou um garoto acusado de estupro. Conforme pode ser visto no vídeo abaixo que foi altamente divulgado nas redes sociais, a entrevistadora acusa e condena seu entrevistado como estuprador e ri claramente de sua pouca instrução.

 

http://www.youtube.com/watch?v=VVZLnu0IIRw

 

Isso, claro, é um absurdo. Não se defende que tais questões deveriam ser normais e acontecer sempre. Mas, ás vezes (no bom popular), é importante que isso aconteça para desvelar questões que estão invisíveis ou escondidas. No caso em tela, não apenas a jornalista está na mira do Ministério Público Federal na Bahia, mas como se reacendeu a discussão sobre violência e sensacionalismo no jornalismo baiano.

 

Ou seja, uma discussão que já existia, já era importante, mas que detinha pouca visibilidade. O comportamento absurdo da repórter não deveria se repetir, mas a discussão e repercussão gerada por ele são importantes. Além da representação do MP contra a repórter, isso certamente poderá impactar em outros jornalistas e editores evitando interpelações aos entrevistados de forma semelhante.

 

Em seguida, acadêmicos, profissionais e outros especialistas são convocados a dar suas opiniões, o que alimenta ainda mais o debate. E movimentos sociais e cidadãos interessados também aproveitam a chance dada pela discussão para fazer movimentações por menos violência na TV, por menos sensacionalismo, por mais objetividade jornalística, pela criação de regras e de conselhos de jornalismo e daí em diante. Até mesmo outras discussões interessantes são geradas. Nesse caso específico, questiona-se o próprio estado que permite que tais abusos aconteçam nas delegacias e se questiona uma possível troca de favores entre tais programas e a polícia. Além disso, há discussões sobre a violação dos direitos humanos e dos próprios direitos de jovens e adolescentes.

 

Isso, por sua vez, pode gerar uma cobertura não apenas do fato em si, mas da repercussão nas redes sociais online ou naquela gerada por tais grupos, o que mantém a discussão viva. Tudo isso, idealmente (vide Habermas), pode gerar pressão o suficiente para a criação de leis ou para um judiciário mais atento a tais transgressões. Tudo isso pelo ódio e preconceito de uma jornalista e de um programa. Ou seja, não se deseja ou mesmo se defenda que deva haver ódio na TV, mas que há um lado bom, quando isso acontece.

 

Acompanhe a hashtag #sensacionalismoforadoar para ver as diferentes ações tomadas por inúmeros grupos sociais, conjuntos de jornalistas e mesmo cidadãos.

 

Um pouco mais da repercussão:

http://camaraempauta.com.br/portal/artigo/ver/id/2880/nome/A_reporter_loira__o_suposto_negro_estuprador_e_uma_sequencia_nojenta

http://www.bahianoticias.com.br/holofote/noticia/24336-jornalistas-repudiam-atitude-da-reporter-mirella-cunha-em-carta-aberta.html

http://frutoproibido.ligahumanista.org/verdade-incomoda-o-caso-mirella-cunha.html

 

Um pouco mais das movimentações geradas a partir:

http://camaraempauta.com.br/portal/artigo/ver/id/2890/nome/%25252523SensacionalismoForaDoAr

Aqui um interessante estudo sobre a violência na TV baiana

http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/23/preconceito-no-brasil-urgente-a-discriminacao-autorizada-pelo-estado/

 

 

*O argumento é complicado. Primeiramente, isso não significa que eu esteja defendendo tais discursos ou mesmo quem os profere. E, em segundo lugar, admito que há danos diversos causados por tais discursos e que nem sempre surgem os benefícios que defendo nesse texto.