A ditadura justificada

Com a proximidade do aniversário de 50 anos do golpe militar, grandes jornais que, à época, festejaram o novo regime, resolveram fazer o mea culpa, não deixando, entretanto, de enfatizar o contexto histórico que, segundo eles, inevitavelmente conduziu à cassação do então presidente João Goulart.

O primeiro jornal que admitiu ter sido um erro o apoio ao golpe foi O Globo, ainda em agosto do ano passado, impulsionado pelos protestos iniciados em junho que, em determinado momento, se direcionaram à mídia e em especial às Organizações Globo, em que o refrão “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” foi entoado por milhares de pessoas em frente à sua sede em São Paulo.

No entanto, se o jornal foi enfático ao afirmar logo no início de seu editorial que foi um equívoco o apoio, ao longo dos parágrafos seguintes tentou explicar tal atitude utilizando-se de pontos de vista como se fossem fatos históricos para desenhar um panorama da época que, segundo O Globo, era caótico. Exemplo desse tipo de manobra foi apontar como uma radicalização por parte de João Goulart a revogação obtida pelo mesmo, via plebiscito, do parlamentarismo, sendo que, como vice-presidente democraticamente eleito (à época, também se votava para o cargo de vice) e com a renúncia de Jânio Quadros, ele tinha o direito constitucional de assumir o cargo em um regime presidencialista.

O texto também escamotei certas informações em favorecimento de outras que buscam demonstrar que, se a ditadura militar foi um erro, entretanto, a mesma teve grandes conquistas, a exemplo dos “(…) avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos”. O que o editorial não fala é sobre o enorme endividamento ao país deixado pela ditadura e do aprofundamento das desigualdades sociais, em que o crescimento obtido durante a década de 70, relacionado à metáfora do bolo do então ministro da Economia Delfim Neto, cresceu, porém não foi dividido.

Os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo seguiram linha semelhante ao Globo em seu reconhecimento de culpa, feitas em editorias pouco anteriores ao aniversário do golpe, em primeiro de abril. O primeiro buscou contrabalancear o grande erro representado pela ditadura com, segundo ele, o posicionamento equívoco dos opositores que se engajaram na luta armada e buscaram trocar uma ditadura por outra em versão comunista, em uma construção em clara alusão à acusação usada frequentemente por simpatizantes do período militar e que identifica todos aqueles que lutaram como compartilhadores de um mesmo ideário e projeto político.

O jornal da “ditabranda” ainda realçou o caráter demagógico das reformas de base de Jango, cuja proposição reforçou a crença nos setores conservadores da sociedade de que um golpe se fazia necessário, em mais um exemplo de juízo de valor transformado em verdade histórica. O que se torna ainda mais evidente quando se lembra quais eram as tais reformas, não citadas pelo jornal: reforma agrária, reforma tributária, reforma eleitoral que abrangia, entre outras coisas, a elegibilidade de todos os brasileiros, e afins. Realmente, um absurdo.

O Estado de S. Paulo por sua vez, além de também evocar a crise institucional que segundo todos eles assolou o país em razão das ações do então presidente, reforçou a ideia de que o golpe também seguiu o clamor da população que se posicionava contra as reformas de base e a “ameaça comunista”, em que o exemplo mais vívido de tal sentimento foi “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. De modo a diminuir a importância do apoio civil ao governo Jango, o jornal compara em seguida a quantidade de pessoas presentes na marcha e as que compareceram ao comício do presidente na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, omitindo a existência de inúmeras outras manifestações de apoio ao governo e contrárias ao golpe, e sugerindo que toda a sociedade comungava do mesmo medo e sentimento.

A impressão que se tem após a leitura dos “editoriais de confissão de culpa” dos três maiores periódicos impressos do país é que, além de terem perdido uma excelente oportunidade de fazer uma preciosa revisão histórica, mais interessados do que reconhecerem seus erros, eles estavam preocupados em comprovar que uma intervenção naquele momento se fazia necessária e que o único erro foi o prolongamento e consequdownloadências que tal medida suscitou.

Raciocínio similar ao empregado pelos defensores da tortura como forma de extração de informações, quando sua obtenção, dizem, pode salvar vidas, e por aqueles que defendem a ação violenta da população contra supostos bandidos quando “o Estado se torna ineficiente”, tal como uma jornalista afirmou recentemente em rede nacional. Enfim, toda uma infinidade de situações, em que todos aqueles contrários aos Direitos Humanos justificam sua supressão “temporária” em prol de um bem maior, esquecendo-se que este é representado justamente pelos direitos que tentam revogar.