A dinâmica da opinião pública na crise do governo Dilma

Num momento em que a popularidade de Dilma Rousseff despenca de modo cavalar e as pessoas – muitas – parecem não ter mais pudores em afirmar em alto e bom som, e sob o acompanhamento do bater de panelas, que a presidente é vadia, filha da puta, vagabunda e afins, além de clamar pelo impeachment ou a volta da ditadura militar, convém analisar a opinião pública, este conceito sociológico cuja disposição, atualmente, evidencia-se como frontalmente oposta ao governo federal.

Se escolhemos por adjetivar o conceito como sociológico é por que esta foi a forma que o mesmo acabou por adquirir na modernidade, distanciando-se do contexto funcional das instituições políticas – apesar de, confrontada com a sua intimidação, não há instituição nacional que resista, diz Gabriel Tarde – e adquirindo uma expressão fortemente calcada na sociologia, apresentando-se como “a opinião das massas”. Segundo Jurgen Habermas, quem primeiro analisou a opinião pública desta maneira foi justamente Tarde, por isso voltaremos às suas análises para buscar compreender o atual momento brasileiro.

No artigo “A opinião e a conversação”, publicado durante os meses de 1899 na Revue de Paris, Tarde diferencia a opinião de duas outras entidades pertencentes ao que ele denomina de espírito social, a saber: a tradição e a razão. Enquanto a primeira seria o resumo condensando do que foi a opinião dos mortos, frequentemente desembocando em preconceitos e visões arcaicas, ao que o autor não deixa de enxergar como algo em certa medida necessário, a segunda representaria os juízos individuais, relativamente racionais, embora, Tarde adverte, muitas vezes insensatos, de uma elite que se afasta da corrente popular a fim de represa-la ou dirigi-la.

Voltando para a atualidade no Brasil, podemos afirmar que a elite pensante da oposição ao governo Dilma está representada em várias lideranças PSDBistas que, sem diminuir o tom e a frequência das críticas, rechaçam ideias como a de um impeachment da presidente recém-eleita ou da necessidade de uma intervenção militar. Além de claramente serem absurdos, estes anseios desprestigiam, como eles bem sabem, e deslegitimam o movimento de oposição.

“Tudo iria melhor se a opinião se limitasse a vulgarizar a razão para consagrá-la em tradição”, entretanto, como Tarde ressaltou há mais de 100 anos, dificilmente a opinião atua como um mero elo intermediário de ligação entre as suas companheiras, como a expressão dos contrários ao governo Dilma evidencia hoje. Na maioria das situações, a opinião toma partido ora da razão, abraçando suas asserções apaixonadamente, porém de modo pouco refletido e muitas vezes distorcido, ora da tradição, oprimindo os juízos racionais inovadores.

E aqui diremos que a opinião pública, grupo momentâneo de juízos relativos a problemas atualmente colocados e reproduzidos em vários membros de uma sociedade, conforme Tarde a define, de fato sempre comporta duas opiniões opostas em confronto, em que uma delas, todavia, rapidamente consegue eclipsar a outra. Segundo o autor, isto ocorre por a opinião “vencedora”, digamos assim, ter apresentado irradiação mais rápida e mais brilhante ou, embora menos difundida, seja mais barulhenta.

No momento, apesar de a opinião pública se mostrar contrária ao governo Dilma, não me parece que as posições e manifestações mais radicais dessa oposição, como a defesa do impeachment e a volta dos militares, ou a utilização de palavras de baixo calão para se referir a presidente, sejam “vencedoras”. Sua irradiação, apesar de ter alcançado uma velocidade surpreendente, não parece mais brilhante do que a dos defensores da legalidade, entretanto, os representantes desse posicionamento beligerante se expressam, como as redes sociais estão aí para provar, de forma muita mais violenta, o que faz com que a sua opinião venha adquirindo cada vez mais força.

E Tarde é claro ao afirmar que, não importa o quanto uma opinião seja difundida, se ela for moderada pouco se manifestará, ao passo que a expressão violenta dessa muito mais depressa e claramente toma consciência de sua existência, o que, não deixa de estranhar o autor, favorece sua expansão. “Ora, ‘as manifestações’, expressão ao mesmo tempo bastante compreensiva e clara, desempenham um papel imenso na fusão e interpenetração das opiniões de grupos diversos e em sua propagação”.

A tragédia do governo petista, neste sentido, é não ter a manifestação da opinião dos eleitores de Dilma para contrabalancear essas manifestações virulentas, pois, com seu ajuste fiscal no início do mandato, a presidente agiu contrariamente ao que havia prometido durante a campanha, o que conduziu seus apoiadores a um silêncio vergonhoso ou a uma posição crítica. Ainda que esta seja de defesa à continuidade de seu mandato, não exerce pressão suficiente para minimizar as expressões de seus opositores mais ferozes, que só ganham espaço.

 

 

 

Foto_Caetanno Freitas_G1