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Jornalismo político e polarização: Estadão e a demanda pela saída de Dilma da Presidência

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O editorial do jornal O Estado de S. Paulo deste domingo resume uma série de argumentos que a publicação apresentou, ao longo da semana, em favor da saída de Dilma Rousseff da Presidência da República. Se, há alguns meses, o Estadão evitava defender o impeachment da presidente – não obstante continuar criticando o governo –, o periódico agora declara não haver mais condições para Dilma sustentar-se no cargo.

Nos editoriais publicados durante os últimos dias, os pedidos pela saída de Dilma Rousseff vêm acompanhados de uma preocupação com o respeito às regras da democracia. Talvez, por isso, o Estadão veja a renúncia como uma opção mais saudável que o impeachment – ainda que ressalte haver razões para que ele aconteça. Imagino, porém, que a publicação saiba que, até agora, não há uma responsabilização definitiva da Presidente, enfraquecendo a defesa do impeachment e quão legítimo ele será encarado pela sociedade. Por isso mesmo, a renúncia é encarada como a melhor solução, pelo jornal – que a reivindica sob justificativa de ser uma chance para Dilma mostrar-se como estadista.

Não obstante reconhecer a importância de respeitar as regras do jogo democrático, o jornal convoca os cidadãos a mostrarem seu poder nas ruas, “proclamando, inequivocamente, que não admitem mais que o lulopetismo, desonesto e incompetente, continue encastelado no governo”. O Estadão parece desconsiderar, neste momento, que tal poder foi demonstrado durante as eleições de 2014 e que incompetência não são motivos para destituir Presidentes – não significando que as manifestações contra o governo sejam ilegítimas, por mais que se discorde dos pleitos.

O posicionamento de O Estado de S. Paulo parece seguir a polarização que se verifica na sociedade – podendo ser uma forma de o jornal acompanhar as posições adotadas pelo seu público. Os resultados das pesquisas de opinião são, inclusive, citados pelo editorial “Chegou a hora de dizer: basta!” para legitimar a reivindicação da saída da Presidente, desconsiderando que este também não é um critério para um impeachment.

Ao mesmo tempo em que traz para si a defesa da saída de Dilma Rousseff, o jornal legitima os argumentos apresentados para isso, assim como a própria demanda. Isto significa, em alguma medida, afastar-se de leitores de centro no espectro ideológico e aproximar-se daqueles mais extremistas. Se pode ser uma estratégia para atrair atenção e diferenciar-se da concorrência, que tende a evitar posicionamentos tão claros, o jornal também corre o risco de acirrar ainda mais os ânimos e falar apenas para quem já está convencido daquilo que se diz.

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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