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Internacionalização do conhecimento nacional ou apropriação estrangeira de casos brasileiros: um dilema atual

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Ir a um congresso internacional é ver, de forma nada excepcional, o estudo de casos brasileiros realizado por pesquisadores estrangeiros. Esse não é um fator negativo para o desenvolvimento da ciência e deve ser mesmo motivo de orgulho ver que iniciativas de nosso país (ao menos na área de comunicação e política) chamam a atenção de investigações no mundo inteiro pelos avanços apresentados nos últimos anos, em relação aos ditos países “do primeiro mundo”. O problema consiste na abordagem dos temas e na citação de literatura também estrangeira para se referir a casos que já são/foram bem estudados em âmbito nacional. Mas, o que causaria esse fenômeno? A meu ver, caímos em dois fatores cruciais para que isso continue se repetindo, um que diz respeito a nós e outro, aos estrangeiros. Para ambos, contudo, a solução depende apenas de estratégias que nós devemos elaborar para nos apropriarmos melhor dos objetos de pesquisa nacionais.

  1. Brasileiros não publicam muito em inglês

Esta parte se inicia por uma discussão clichê, mas, há uns dez anos, alguns textos afirmavam que somos uma ilha de conhecimento. E, àquela época, estavam corretos. O Brasil é um país grande e viajar, seja dentro do próprio território, seja para outros países, requer alto investimento financeiro, o que nos torna distantes de outras nações e, consequentemente, de suas línguas. Proofreading é uma atividade que também pesa no bolso, especialmente dos jovens pesquisadores. Todavia, a abertura e o investimento que o país tem feito em seus pesquisadores em relação à internacionalização de nossas pesquisas, como as bolsas de Doutorado Sanduíche e Pós-Doutorado no Exterior e o financiamento de eventos internacionais no Brasil, deveriam servir de mecanismo para que nossa condição de isolamento fosse reduzida. E, de certo modo, ocorreu. Não somos mais uma ilha. O próprio interesse por nossos fenômenos reforça essa afirmação.

Escrever e publicar em inglês, com todas as ferramentas de comunicação e esse recente acesso ao espaço internacional, não deve mais se constituir como um bicho-de-sete-cabeças no ambiente acadêmico. A meu ver, tem-se tornado mesmo uma necessidade, não somente pelos pontos que acumulamos em nosso Currículo Lattes, mas, principalmente, pela apropriação que precisamos fazer de nossos estudos. Deveria nos incomodar (o que não parece acontecer, ou será que estamos tão alheios assim a essa situação?) o fato de pesquisadores de outras nacionalidades estudarem nossos casos e, em boa parte das vezes, simplesmente ignorarem o que já produzimos. Entretanto, a culpa não é completamente nossa. O que me leva a refletir sobre o segundo ponto.

2. Estrangeiros não leem português

Do outro lado da moeda, é bastante comum que nós (ou pesquisadores de países fora do mainstream) que decidimos tomar casos de outros países como objeto de nossas pesquisas aprendamos o outro idioma. Tenho (na Inglaterra) uma colega de departamento do leste europeu que estuda, comparativamente, um caso tailandês. Ela fala, escreve, lê tailandês e possui livros de pesquisadores desse país em sua mesa. Fui a um congresso em que um doutorando japonês apresentou um trabalho sobre corrupção na Turquia e sabia falar, escrever, ler turco. Logo, citava professores locais que já haviam abordado o tema. Mas, vi também uma apresentação em que um europeu, do centro, falava de um caso clássico de participação no Brasil, muito abordado (há mais de uma década) pela literatura brasileira, e não falava português. Não, eu não considero um problema grave não ser capaz de falar nossa língua, mas não ler e, consequentemente, não citar um só trabalho brasileiro na apresentação, o que faz seu trabalho parecer pioneiro, é um problema sério. Chega a ser uma apropriação desrespeitosa. E deve nos incomodar.

Esse incômodo deve servir de motivação para que passemos a cumprir a missão de internacionalizar nossas pesquisas, fazendo com que pesquisadores estrangeiros sejam aliados e não os (às vezes, falsos) detentores dos casos que já analisamos. Espaços podem ser conquistados a partir de parcerias, quando temos contato com nomes internacionais. E isso não precisa mais, necessariamente, ser feito por meio de encontro pessoal. Estudamos novas formas de comunicação, logo parece absurdo que não nos utilizemos dessas inovações para mantermos plataformas de colaboração. A mudança dessa dinâmica, portanto, embora seja reforçada por certa negligência de ambos os lados envolvidos, depende apenas de nós, pesquisadores nacionais, a parte mais interessada (e subestimada) do problema.

Isabele Mitozo
Isabele Mitozo é mestre em Comunicação e graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente, é doutoranda em Ciência Política pela UFPR. É integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE/UFC)e do Núcleo de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP/UFPR), estuda iniciativas de participação política em plataformas online, mas, vez por outra, desconecta-se para compartilhar seu francês, ouvir um velho rock ‘n roll, ver um bom filme ou jogo do SPFC, e refugiar-se em uma ‘wonderland’ literária.

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