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Facebook e eleições 2014: uma breve análise dos usos e apropriações

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A percepção geral dessa campanha presidencial de 2014 é de que ela foi pesada, agressiva e mais ativa – muito em parte pela adoção massiva por parte das pessoas de sites de redes sociais, principalmente o Facebook. Segundo dados da própria ferramenta, o número de interações realizadas durante os três meses de campanha bateu recorde: 346 milhões de comentários, curtidas e compartilhamentos, atingindo 44 milhões de pessoas (ou 49,4% dos usuários brasileiros do site).

Como em 2010 tínhamos um uso do Facebook ainda tímido no Brasil, essas eleições parecem ter revelado uma face crua de como os brasileiros se preocupam e discutem política nos tempos atuais. Uma análise breve do Facebook neste período mostra algumas facetas interessantes dos usos e apropriações que os cidadãos locais fizeram da ferramenta. Destaco alguns:

Declaração de voto – com a chegada do 2º turno, principalmente, foi comum acompanhar diversas declarações de voto, seja em formato de posts breves ou até mesmo em cartas abertas. Se feitas por pessoas conhecidas, famosas ou proeminentes, essas declarações ganharam muitos compartilhamentos e sinais de endosso. Foi uma prática comum, inclusive adotada pelos comandos de campanha de Aécio Neves e Dilma Roussef, que entraram no jogo pesado e ajudaram a aumentar o alcance dessas declarações. Em termos de comunicação e política, esse é um fato importante, uma vez que expõe mais claramente na esfera pública aspectos muito pessoais de escolha de voto e, com a ajuda da timeline do Facebook, amplia consideravelmente o alcance dessa opinião. Com as informações circulando – chegando a redes “inalcançáveis” de forma inadvertida –, os cidadãos ganharam um novo espaço para apresentar suas opiniões políticas no tabuleiro de discussões políticas, ajudando até a demarcar terrenos ideológicos em redes distintas.

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10 motivos para não votar em… – esse foi um tipo de post que circulou em determinado momento da campanha, ainda quando os ânimos estavam mais calmos. Entra um pouco nos aspectos apresentados no item anterior, mas também revelam a faceta informativa do Facebook. É possível encontrar na bibliografia que discute política dentro do site de rede social fatores ligados à obtenção de informação, isto é, o Facebook não é feito para isso mas é apropriado, em determinadas ocasiões, como fonte importante de informação específica e direcionada. Os posts desse estilo usaram frequentemente links para textos e vídeos que corroboravam com as opiniões. Portanto, uma forma eficaz de oferecer alternativas para que o cidadão incorpore a seu repertório habitual outros componentes informativos.

Foto de perfil personalizada – esse é um uso que já foi utilizado com mais frequência nas últimas eleições presidenciais, mais fortemente no Twitter. Dessa vez o processo se “modernizou” e as campanhas ofereceram aos cidadãos diversas opções de adesivos ou stickers em que era possível associar a foto de perfil. Com isso, a timeline ficou pintada com as cores dos partidos adversários – uma forma também de demarcar posicionamento político e se apresentar enquanto cidadão com opinião para a sua rede de amigos. Ou, ainda, incorporar esse adesivo como um crachá em discussões com pessoas que não do seu conhecimento.
Mídia tradicional x novas mídias – o fenômeno não é recente, mas os representantes da mídia tradicional (principalmente revistas e jornais) entraram de cabeça no Facebook a fim de abrir um canal de compartilhamento massivo de informações antes mesmo da publicação original. Diversas notícias que sairiam normalmente em edições de jornais e revistas foram publicadas antes e largamente repercutidas nas redes sociais. A militância de ambos os lados da campanha presidencial aproveitou para compartilhar o que era mais conveniente, é claro.

Hashtags – embora não seja uma prática comum nem muito eficaz, as hashtags do Facebook ganharam um sopro de vida. Como o site não mostra um ranking tipo o TT do Twitter, o bônus para quem utiliza é, além de estético, o de reunir postagens parecidas num mesmo local. E isso se você clicar e desejar ver o que está sendo produzido com ela. No entanto, as militâncias se mobilizaram para que hashtags específicas ganhassem espaço em terrenos hostis e mostrassem força em algumas discussões. Funcionou como um War (jogo de tabuleiro) digital: a militância convocava as pessoas para que elas “conquistassem” territórios alheios ao inunda-los com as tais hashtags.

Por fim, é possível afirmar que o Facebook funcionou como uma plataforma de comunicação política. A priori, é o local de encontro das pessoas, em que se formam rodas de conversa baseadas em interesses e laços pré-existentes. Uma vez agregadas nessas redes, o Facebook permite que outras fontes de informação sejam adotadas pelos cidadãos que as distribuem segundo critérios políticos próprios. Portanto, o site funciona como uma plataforma de embarque, onde é possível encontrar pessoas, conversar, debater e, de lá, partir para outros locais (links para blogs, vídeos e outras redes). Ou simplesmente sair e ir embora.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/sites/2/Rodrigo_Foto-Julien-Karl-15_cortado.jpg[/author_image] [author_info]Rodrigo Carreiro é mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA e doutorando pela mesma instituição, na linha de pesquisa comunicação e política. É membro do grupo de pesquisa Comunicação, Internet e Democracia e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital.[/author_info] [/author]

Rodrigo Carreiro
Rodrigo Carreiro é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e mestre pela mesma instituição, com dissertação sobre participação política local e internet. É membro do grupo de pesquisa Comunicação, Internet e Democracia e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD), ambos da mesma Instituição. Seus interesses de pesquisa são democracia digital, sociedade civil e sites de redes sociais.

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