Compolítica: problemas, avanços e perspectivas

 

Conforme seu site, “A Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política – Compolítica – foi criada em dezembro de 2006, em Salvador, com o intuito de promover a especialidade de Comunicação e Política. A fundação da sociedade científica ocorreu durante o primeiro congresso, realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Estiveram presentes pesquisadores e estudantes de várias instituições de ensino brasileiras, totalizando 56 sócios fundadores”.

 

No período de 13 a 15 de Abril, ocorreu a quarta edição do Compolítica, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Diversos integrantes do Blog Comunicação e Política estiveram presentes, assim como pesquisadores de todo o país. O objetivo aqui é fazer uma pequena análise sobre o evento de 2011.

 

PONTOS NEGATIVOS

Como cheguei a levantar no GT “Comunicação e Sociedade Civil”, creio que o principalmente problema do Compolítica seja o fato do evento não aproveitar seu caráter bienal em diversos aspectos. Levanto tais pontos nos tópicos:

 

Prazos: Dois aspectos negativos do evento de 2011. Primeiramente, ao contrário da III edição, o IV Compolítica foi realizado em Abril e a chamada de trabalhos aconteceu na primeira parte do ano, o que, por sua vez, levou a uma sobreposição da chamada de artigos da Compós. O que, suponho, pode ter impactado na decisão de estender o prazo de envio dos resumos (podendo, claro, haver outros fatores). Em segundo lugar, mesmo considerando o seu caráter bienal e o fato de trabalhar com resumos, os prazos foram problemáticos. Em especial, após o resultado da aprovação do resumo, o prazo para o envio do artigo final foi curto (em torno de um mês). Diversos eventos de grande porte ainda trabalham com resumos, mas realizam o call for papers com bastante antecedência (como a ANPOCS), buscando permitir que trabalhos em andamento possam ser apresentados como propostas e que ainda haja tempo hábil para o envio do estudo completo posterior.

 

Resumos e não textos: Após 4 edições e 5 anos de vida, o Compolítica já poderia avaliar a possibilidade de receber textos completos ao invés de resumos. Ainda há o caso de bons resumos e péssimos estudos. Dado o fato de que há bastante tempo entre um evento e outro, seria interessante a associação pensar em textos completos para a próxima edição.

 

Disponibilização dos estudos: na IV edição, o artigo completo poderia ser enviado até o dia 30 de março, sendo 13 de abril o início do evento. O maior impacto disso é a não disponibilização dos artigos para os componentes de cada GT com um tempo hábil para uma leitura. Isso acaba provocando que uma parte considerável dos participantes do encontro não tenham lido nenhum texto e que as críticas e considerações sejam realizadas exclusivamente pela apresentação do autor no evento. É verdade que diversos eventos (a maioria inclusive) trabalha de tal maneira, mas novamente o exemplo da Compós deveria ser seguido pelo Compolítica. O envio dos trabalhos com maior antecedência permitiria a leitura mais qualificada e um congresso mais profícuo para seus participantes.

 

Festa de confraternização: defendo tal espaço como sendo importante para estreitar os laços entre os pesquisadores. É tanto um momento que pode haver confraternização quanto trocas acadêmicas. Em especial, apenas o fato de ter sido realizada na quinta à noite me pareceu despropositado. Creio que a festa de confraternização deva acontecer ou na abertura do evento (mas cedo) ou na noite do último dia.

 

Sexta-feira livre: geralmente, o último dia de todas as edições do Compolítica foi utilizado para as discussões internas da associação. Algo que é vital. Porém, essa tarde acaba sendo livre ou “perdida” para os participantes do GT. Creio que alguma programação nesse momento seria uma boa opção. No meu GT, em específico, discutimos sobre a possibilidade de ampliar os encontros dos GTs, o que permitiria ou 1) a inclusão de mais trabalhos ou 2) maior tempo de discussão para cada estudo, duas vantagens interessantes para um evento que só acontece a cada 2 anos e que deveria ser avaliado pela Compolítica.

 

 

AVANÇOS

Fim dos CDs: Muitos eventos ainda insistem em disponibilizar os anais dos artigos em CD. Certamente, a organização do IV Compolítica foi muito feliz em ter optado por um pendrive. Além de ser uma mídia muito mais segura (dada a fragilidade do CD), ela ainda dá a opção ao participante do evento utilizá-la de outras formas que desejar. E ao contrário do que é geralmente pensado, o valor de um pendrive de 2Gb é relativamente baixo.

 

Fim das sessões de comunicação: Originalmente, as 3 primeiras edições do Compolítica foram divididas em Grupos de Trabalho (GTs) e Sessões de Comunicação (SCs). As SCs buscavam ser um espaço para pesquisadores com menor experiência e trabalhos ainda em andamento. Por outro lado, as SCs acabaram se tornando uma espécie de “segunda divisão” do evento, na qual doutores e alguns doutorandos completavam os GTs e os outros pesquisadores estavam nas SCs, diminuindo a troca acadêmica e o aprendizado para tais pesquisadores.

 

Ampliação dos GTs: buscando justamente compensar a questão acima, o número de GTs foi ampliado de 5 para 9. A escolha foi acertada. Mesmo já sendo uma área específica dentro de dois campos, a Comunicação e Política ainda trata de objetos de estudos muito diferentes entre si. Os novos GTs são-bem vindos e a escolha foi acertada.

 

Maior número de atividades: a IV edição também contou com mais atividades que as outras edições. Além das mesas-redondas (sempre relevantes), houve uma interessante oficina com profissionais ligados às campanhas eleitorais de 2010. Tais atividades podem ajudar o Compolítica a atingir outros públicos (profissionais da área e alunos de graduação, por exemplo) e oferecer outras opções pertinentes aos participantes.

 

Revista: Agora, certamente o maior avanço do evento foi o lançamento da revista do Compolítica. Objetivo antigo da associação, a revista foi disponibilizada na abertura dessa edição. Como frisado pelos professores Afonso de Albuquerque e por Alessandra Aldé, diversas revistas foram vitais para o amadurecimento e para a consolidação da Comunicação e Política no Brasil, mas certamente falta um espaço destinado a tais estudos. A revista Compolítica poderá ser um espaço privilegiado para o incremento e o maior desenvolvimento de tais estudos. Conforme foi reafirmado pelos professores, a revista surge com intuito de fortalecer essa área de estudos, mas buscará trabalhar com elevados critérios científicos, o que tende a valorizar seu conteúdo.

 

PERSPECTIVAS:

No quesito do evento, como discutido acima, a organização do V evento deve avaliar seriamente a possibilidade de utilizar o prazo que dispõe. É preciso lembrar o leitor que a organização científica de eventos é algo extremamente complicado, geralmente funcionando à base de muito esforço e trabalho voluntário, além das agências financiadoras ainda trabalharem com exigências longas e prazos curtos. Essa questão, em especial, significa que boa parte da verba só é garantida nas proximidades da realização do evento, o que justifica diversas questões apontadas. Por outro lado, a chamada de artigos completos ao invés de resumos, a disponibilização dos textos com maior antecedência, por exemplo, são questões podem ser ponderadas, pois independem, em alguma medida, de tais fatores.

 

As perspectivas para o Compolítica, entretanto, são ótimas. É preciso lembrar que outros importantes avanços já foram conquistados. Por exemplo, o site da associação foi bastante reformulado, buscando ser um centro de referência para os pesquisadores. Se originalmente, era necessário ir aos sites das instituições promotoras para acessar os anais dos eventos passados, agora o atual site exibe os artigos dos 4 eventos. O site também apresenta vídeos das mesas-redondas e falas dos congressistas de outras edições, o que é excelente para quem não pode comparecer ou para futuras referências.

 

Após quatro edições, foi possível perceber que a área se mantém forte. Segundo os organizadores, foram 140 trabalhos diferentes enviado ao congresso e em torno de 90 foram selecionados. O interesse na Comunicação e Política ainda é vigente e reforça a importância do evento e da associação. Apenas os GTs de outros eventos  (Compós e ANPOCs por exemplo) não são suficientes para o desenvolvimento de tais estudos, principalmente se consideramos a recente expansão no número de programas de pós-graduação no país. Finalmente, a associação dá evidências de sua consolidação com a criação da revista Compolítica. É um passo importante e muito bem-vindo.