A entrada de José Serra na disputa paulistana

No decorrer de um processo de prévias partidárias para escolha do candidato tucano à prefeitura de São Paulo, o ex-governador José Serra decide voltar atrás em sua decisão e entra na disputa municipal de 2012. Diante da primeira negativa de Serra, o PSDB viu nas prévias uma alternativa política capaz de renovar o partido, legitimar a escolha do candidato à prefeitura e envolver a militância. Porém, mesmo com o decorrer da eleição interna tucana, lideranças da legenda ainda insistiam na pré-candidatura de José Serra, gerando contradição e desconfiança entre os filiados. Uma das militantes tucanas, do bairro de Indianápolis, chegou a chamar Serra de “palhaço”, pela falta de consideração com as prévias, e foi fortemente aplaudida, conforme vídeo. Dois pré-candidatos tucanos, Andrea Matarazzo e Bruno Covas, já saíram da disputa, para abrir caminho para Serra. Um dos que ainda persiste, José Aníbal, desabafou no twitter sobre a falta de “integridade” do processo de escolha do candidato:

Das razões para a candidatura

Em mais de uma ocasião, Serra negou que seria candidato nas eleições municipais. A recusa era pra valer, tanto que o partido lançou mão das prévias, com 4 candidatos despendendo recursos, abordando filiados e promovendo debates. Sempre esteve claro, no entanto, que um nome pouco conhecido do grande público seria uma estratégia demasiadamente arriscada para os tucanos. Esta percepção foi sendo consolidada por alguns fatos, a saber: desempenhos pífios dos participantes das prévias nas pesquisas de intenção de voto, inferiores até mesmo que os desempenhos de Fernando Haddad (PT) e Gabriel Chalita (PMDB) – a exceção de Bruno Covas, que tinha desempenho razoável; constatação de um grande poder de influência do ex-presidente Lula sobre o voto do paulistano, bem como da presidente Dilma, ambos superiores à influência do governador Geraldo Alckmin; e, ainda, debandada de aliados tradicionais dos tucanos, como o DEM que flertava abertamente com o PMDB de Chalita, e o PSD, do prefeito Kassab, que já dialogava com o PT. Mais do que pretensão pessoal, a candidatura Serra em SP revela as circunstâncias do PSDB. Depois da terceira derrota presidencial, os tucanos não podem arcar com maiores riscos em seu principal reduto.

Das mudanças na conjuntura eleitoral

Agora, o contexto é outro. O PSDB entra na disputa com a candidatura mais forte, líder nas pesquisas e, a princípio, com maiores possibilidades de vitória. Um aspecto a ser considerando consiste no maior índice de conhecimento pelo eleitorado do candidato Serra – que chega a ser 3 ou 4 vezes mais conhecido do que Chalita ou Haddad. Em parte por este mesmo motivo, o tucano também tem a maior rejeição. Ter prometido cumprir o mandato na íntegra, em 2004, e abandonar o posto para disputar o governo, em 2006, também faz com que paulistanos rejeitem o nome de Serra. O ex-presidenciável tucano terá uma dura disputa pela frente. O petista Haddad deve explorar as incoerências passadas de Serra, diante do eleitorado da capital paulista. Outros dois concorrentes, bem posicionados nas pesquisas, Gabriel Chalita e Celso Russomano (PRB), são conhecidos desafetos de Serra, e devem trazer mais artilharia contra o PSDB.

Dos reflexos sobre a sucessão presidencial de 2014

No que diz respeito a 2014, uma eventual eleição para prefeito de São Paulo joga mais contra do que a favor das pretensões presidenciais de Serra. Fazer São Paulo de trampolim político já foi algo bastante grave, da primeira vez. Por isso, Serra é cobrado até hoje. Recuar de um mandato paulistano, pela segunda vez, geraria prejuízos políticos pesados demais. Caso seja derrotado, Serra estará livre de compromissos. Não necessariamente uma derrota inviabiliza uma campanha futura. Quando Alckmin pensou em disputar a prefeitura de São Paulo, em 2008, muitos correligionários mostraram preocupação com as repercussões sobre a disputa de 2010. Porém, mesmo sem ter sequer ido ao segundo turno, Alckmin foi candidato e elegeu-se governador, dois anos depois. Apesar de Aécio ser apontado como o “candidato óbvio” do PSDB, nas palavras de Fernando Henrique, Serra sabe que, uma vez realizadas as pesquisas para a próxima sucessão presidencial, seu nome aparecerá muito melhor posicionado, e isto poderá alterar o que é óbvio para o PSDB. Daí a resistência inicial para entrar na disputa de 2012.

Da cobertura midiática

Jornais como Folha, Estadão e O Globo têm dado preferência ao jogo partidário que visa coligações e às declarações sugestivas dos atores políticos, na cobertura da sucessão paulistana. Gilberto Dimenstein, da Folha, publicou coluna em que denuncia a “mediocridade” desta disputa polarizada por PT e PSDB. “Leiam todas (rigorosamente todas) as notícias sobre a candidatura Serra e vejam se existe alguma (uma única) menção sobre como sua decisão de disputar a Prefeitura estaria relacionada à melhoria da caótica cidade de São Paulo”, propõe Dimenstein. Ora, ocorre também que a própria imprensa não se dedica a cobrir propostas ou conteúdos programáticos. Para a cobertura noticiosa, são aspectos da política a serem destacados, as negociações e as contendas entre os atores. Pela representação jornalística, importam as declarações que acentuam rivalidades ou provocam adversários, e a eleição torna-se, meramente, uma disputa por tempo de televisão e por tudo que possa aumentar as chances de vitória. A propósito, este é o modo como a cobertura jornalística tende a cobrir a política, de maneira geral, como uma corrida de cavalos, em que importa a disputa em si, o perde e ganha, as estratégias, em detrimento dos elementos possivelmente propositivos e programáticos.
[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/Ruan-01-rosto.jpg[/author_image] [author_info]Ruan Carlos Brito é graduado em Comunicação Social pela UFPA, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, especializando em Comunicação e Política pela UFBA, e membro do GITS – Grupo de pesquisa em Interação, Tecnologias digitais e Sociedade, da UFBA. Twitter: @CrapulaMor. [/author_info] [/author]