Porque as redes sociais online se consolidaram como espaços de discussão política em 2012

Com o fim do ano, diversas pesquisas estão sendo divulgadas com análise de panorama da utilização de internet no mundo. Recordes de compartilhamento, aumento de usos específicos, novos nichos sendo explorados, medições segmentadas etc. Tem de tudo. Comento abaixo a respeito de algumas conclusões sobre assuntos que nos interessam – e esse breve compêndio de ideias é baseado, de forma geral, em quatro pesquisas publicadas recentemente (links e indicações no final do texto).

  • Mais pessoas estão se conectando (crescimento lógico, poderemos dizer) e por mais tempo. Isso quer dizer, de maneira geral, que o uso de internet no mundo vem crescendo exponencialmente e não há tendência de declínio em nenhuma parte do globo. Em alguns locais, como Finlândia, há uma estabilização, mas (principalmente) em países em desenvolvimento a taxa é otimista. Além disso, as pessoas estão passando mais tempo conectadas porque usam outras formas para ficar online que não somente o computador: celulares, smartphones, tablets e afins. Esses dados  mostram que é cada vez mais antiquado falar em “mundo virtual”, uma vez que o digital já faz parte do cotidiano das pessoas de modo que é impossível dissociar “dois mundos”.
  • Com mais pessoas conectadas, há mais interação. O estudo da Nielsen aponta que 70% das pessoas que usam redes sociais levam em consideração a opinião/experiência de outros usuários. Sobre assuntos diversos. É possível imaginar um cenário mais propício para troca de ideias políticas? Certamente, uma vez que a política faz parte da vida das pessoas assim como programas de televisão. Em período em que a política está em evidência isso é bem claro, basta se lembrar da enxurrada de discussões nas eleições (“não quero receber mensagens políticas. vou bloquear que me mandar”. Isso é ou não é posicionamento político?).
  • Essa questão nos leva às eleições americanas. A foto mais compartilhada e twitada de todos os tempos pertence a Obama, num pico de discussão que levou o período eleitoral dos EUA ao topo entre os eventos mais discutidos do ano. Superou Olimpíada e o furacão Sandy, por exemplo. No Brasil o cenário é bem diferente, onde a política ainda não é nem de longe o assunto mais comentado do ano, porém, como disse no tópico anterior, é possível identificar momentos de eventos políticos em que as discussões e compartilhamentos foram mais intensos. O estudo da Nielsen mostra que há uma forte tendência de comentar, nas redes sociais, o que está acontecendo na programação televisiva. Mais: há um grande número de pessoas que assiste TV ao mesmo tempo em que conversa em redes sociais. Logo, voltando para a política, se há um assunto agendado na mídia de massa (mensalão, por exemplo), este tem grandes chances de ser comentado nas redes sociais. E, na contrapartida, essas discussões podem bater de volta no noticiário tradicional.
  • Ainda sobre as eleições americanas, o grande evento político do ano, 22% dos eleitores compartilharam seus votos para presidente nas redes sociais. É um número considerável, se formos pensar em termos do poder que essas “revelações” podem ter no círculo de amigos do indivíduo. Discussão? Possivelmente. Mas o mínimo que há é a marcação de posicionamento político pessoal, um fator que influencia no capital social da pessoa (por exemplo, 38% das pessoas descobriu que seu amigo na rede social tinha um posicionamento político diferente do que se imaginava). Como o engajamento é historicamente importante na política dos EUA, cerca de 38% dos usuários de rede social promoveram posts sobre as eleições, sendo que 73% apenas de vez em quando concordava com os posts políticos alheios. Isto pode nos levar a pensar que as conexões realizadas no Facebook, por exemplo, são baseadas em círculos de amizade pré-programados, que levam em consideração família, amigos do trabalho, amigos da faculdade etc. Isto é, você está quase que inevitavelmente exposto a posicionamentos políticos aleatórios, uma vez que suas conexões não seguem um padrão de pensamento igual ao seu. Você é “obrigado” a ser amigo de seu colega de trabalho ou faculdade e, consequentemente, você é exposto a conteúdos políticos dos mais diversos.
  • Nas eleições americanas, a internet teve papel importante como fonte de informação noticiosa: TV a cabo (41%), TV local (38%), Internet (36%), Network news (31%). Infelizmente não temos dados a respeito do cenário brasileiro (se alguém tiver, por favor, compartilhe). Em 2000, a internet representava apenas 9% dessa fatia e hoje se percebe que mais pessoas se informam por mais fontes possíveis. É mais conhecimento.
  • Por fim, um longo estudo internacional da Pew revelou que a média de pessoas que compartilham opinião política nas redes sociais é de 34%. O Brasil segue essa tendência, com índice de 31%. Pelo fato do Brasil seguir esse padrão, é possível perceber que alguns fatores demográficos não interferem (ou pouco interferem) na decisão de alguém compartilhar conteúdo político. Vejamos o caso da Alemanha, Reino Unido e EUA, países em que o uso de internet é bem maior que no Brasil, assim como índices sociodemográficos de renda e educação. Na Alemanha, 27% compartilha sobre política, na Inglaterra 30% e nos EUA 37%. Quer dizer, de forma rápida e descompromissada, isolemos essas questões sociodemográficas: o que nos diferencia desses países? No Brasil, a pesquisa TIC Brasil 2010 mostra, não há exclusão social entre aqueles já conectados e que acessam redes sociais. Isto é, se você usa internet, independente da classe social, então tem grandes chances de ter um perfil em rede social. Logo, se 34% dos brasileiros compartilham conteúdo político no facebook ou Twitter, então todas as classes sociais no facebook estão dando a cara a tapa no quesito política.
  • Só mais um dado interessante: os países com parte da população árabe (Tunísia, Líbano, Egito e Jordânia) apresentaram índices muito acima da média mundial, referente à questão anterior. No calor do momento de mudanças políticas nesses países, as redes sociais abriram o gargalo de discussão pública que não existia. Todos os índices desses países superam os 60%, muito acima do resto do mundo. O contexto de revolução e mudanças políticas eminentes atuaram decisivamente para essa discrepância – e colocam, definitivamente, a internet e as redes sociais no centro das discussões políticas do cidadão.

Fontes:

Social Media Report 2012 – Nielsen

Social Sharing Trends – Add This

Pew Research Center’s Internet & American Life Project (no link, abre um infográfico que resume bem os resultados)

Social Networking Popular Across Globe – Pew Global