O velho novo Lattes: primeiras impressões

 

O CNPq lançou ontem (23/07) uma nova versão do currículo acadêmico Lattes. Ouvi inúmeros comentários ontem e hoje sobre como ele está parecido com plataformas de redes sociais (em especial Facebook e Orkut) e brincadeiras diversas se agora poderíamos “curtir”, “retuitar” ou mesmo fazer “check in” nos artigos (e quem sabe descolar umas badges). A verdade é que o novo Lattes nasce velho e justamente por estar pouco ligado a tais possibilidades de uma experiência mais interativa e colaborativa (que chamarei apenas de Web 2.0 para facilitar).

O novo Lattes lembra bastante um perfil de rede social

 

Por um lado, as mudanças são positivas. O visual ficou mais agradável, há uma organização melhor das informações, não é mais necessário abrir em todo momento as Box para preencher informações simples, como palavras-chave (agora ao digitar, o sistema já te oferece as opções guardadas anteriormente); tornou-se mais fácil identificar coautores (e achar outros lattes no seu perfil), a plataforma permite ao usuário ordenar os artigos (e não mais apenas cronologicamente), a ferramenta de busca melhorou sensivelmente, é possível gerar gráficos com a sua produção  e a plataforma me pareceu mais rápida e eficiente no processamento das informações.  O que gerou muito alarde é que há, agora, a possibilidade do pesquisador fornecer seus contatos online (Gtalk, MSN, Skype e o esquecido ICQ) e suas redes sociais (as padrões, como Facebook, Twitter, Linked In e Orkut e outras acadêmicas como Follow Science e Academia.edu). Surgiu também a possibilidade de acrescentar produção acadêmica em blogs e redes sociais (veja o post do Posgraduando, que traz informações gerais sobre as novidades).

 

Por outro lado, a nova versão do Lattes já nasce velha e, ao contrário das expectativas, não segue a lógica 2.0. De certa forma, eu entendo a preocupação dos criadores do novo design. Certas opções de redes sociais (como as que apresento no primeiro parágrafo) poderiam tornar o currículo infantil e retirar a seriedade que ele conquistou na comunidade acadêmica nas últimas décadas. Todavia, acho que há um desperdício do potencial das novas mídias sociais. E farei o argumento em pontos:

 

1) Compartilhamento

Se um “like” poderia ser ridículo por um lado, por outro eu acho que seria interessante que eu pudesse compartilhar o conteúdo do meu Lattes ou de outros pesquisadores. Se eu achei uma referência interessante, por que não oferecer a possibilidade de enviar para minhas redes sociais próprias, para blogs ou mesmo através de um simples e-mail? Tal tipo de compartilhamento não seria profícuo na própria divulgação da academia brasileira? Não fomentaria as trocas acadêmicas?

 

Convenhamos que o novo Lattes sequer providencia um link para os artigos. Enquanto em outras plataformas, como o Academia.edu, há o link, o próprio artigo (que fica alojado no Scribd) e a possibilidade de postá-lo em seu Facebook pessoal (e daí compartilhar para sua rede). Isso não tiraria a seriedade do Lattes, mas aumentaria sua eficiência em ferramenta de divulgação da ciência brasileira. Especialmente no Brasil que há uma forte política de livre acesso aos artigos, eu não vejo quaisquer explicações plausíveis para essa ausência.

 

2) Diálogo

 

Outras opções mais interativas também não foram utilizadas. Continua existindo apenas uma ferramenta bastante simples de envio de mensagens aos pesquisadores. No ResearchGate, por exemplo, há verdadeiras comunidades online organizadas em torno de interesses de pesquisa. Agora, admito que isso poderia significar um excesso de trabalho (moderadores poderiam ser necessários) e de servidor (para manter a plataforma online), mas isso não significa que outras possibilidades não poderiam ter sido aproveitadas. Enfim, qualquer ferramenta que facilitasse o maior diálogo entre os pesquisadores.

 

 

3) Seguir seus interesses

Um dos pontos mais “old” do novo Lattes é que o usuário ainda precisa buscar ativamente pelo que deseja. Ele não te oferece a possibilidade de receber nada de maneira mais automatizada. Por exemplo, no Academia.edu, você pode dar tags (palavras-chave) ao seu artigo. E os pesquisadores podem seguir essas tags, sendo informados quando novas publicações são enviadas com elas. Os usuários também podem seguir os perfis de outros pesquisadores e receber informações sobre as atualizações desses indivíduos. A plataforma ainda te indica pessoas e assuntos a serem seguidos (no melhor estilo Facebook) e lhe permite visualizar se algum outro pesquisador também está seguindo algum novo perfil. Tudo isso incrementa as redes de relacionamento (profissionais e acadêmicas) do pesquisador e permitem que ele posssa estar mais inteirado dos acontecimentos em sua área de pesquisa. ResearchGate e Academia.edu, como exemplo, oferecem timelines, que permitem que esse acompanhamento possa ser realizado, assim como a possibilidade de receber quaisquer novas atividades por email. O novo Lattes sequer é friendly com RSSR.

 

 

4) Acompanhamento

Enquanto o Academia.edu e o Google Acadêmico te permitem saber quantas pessoas visitaram seu perfil, quantas acessaram suas produções e até palavras-chave que eles utilizaram na busca original, o Lattes permite apenas a criação de gráficos com sua própria produção. Não é ofertada a opção de acompanhar como os pares estão acompanhando ou não essa produção. Seria uma forma até de se verificar a efetividade do Lattes na divulgação da produção acadêmica pessoal.

 

 

CONCLUSÕES

Para não me alongar excessivamente, em resumo o novo Lattes tem um visual superior, melhor organização e uma plataforma mais rápida. È um avanço considerável, mas não diante do que há disponível atualmente. Ele nem sequer adentrou as possibilidades das mídias sociais ou a lógica da web 2.0. Como eu defendi ao longo do texto, ao contrário de retirar alguma seriedade da plataforma, acredito particularmente que há uma perda considerável de potencialidade de divulgação e de criação (ou estreitamento) de redes de compartilhamento de conteúdo acadêmico. Tudo isso, eu creio, fomentaria ainda mais as trocas acadêmicas e quiçá parcerias institucionais. Nesse sentido, acho que o principal defeito da nova plataforma, que ainda se assume numa lógica antiga, é ainda não providenciar links ou informações mais detalhadas de artigos e produção acadêmica em geral (a simples possibilidade de acrescentar um resumo já ajudaria sensivelmente) e total impossibilidade de compartilhar esse conteúdo.

 

Fazendo um meaculpa final, eu reconheço a importância do Lattes no Brasil. Creio que muitos já passaram pela experiência desagradável de procurar currículos de professores estrangeiros. E, especialmente, os que não utilizam plataformas melhores (como as que citei no texto) podem apresentar resultados muito ruins, já que publicam seus currículos em sites ou blogs pessoais. Isso quando não encontramos perfis desatualizados em sites de universidades ou centros de pesquisa. Como o Lattes é praticamente obrigatório para qualquer pesquisador brasileiro que deseje estar inserido no meio acadêmico (desde concursos até editais o exigem), há uma padronização impressionante gerada pelo ele. Através de um único site, é possível pesquisar praticamente qualquer acadêmico brasileiro e conseguir informações importantes sobre a pesquisa que ele desenvolve e sobre sua produção. E todos precisam reconhecer que por mais que o sistema fosse lento e houvesse problemas na sua atualização, é extremamente raro vermos a plataforma Lattes offline.

 

A plataforma também gera informações que podem ser processadas por softwares específicos e ajudam sensivelmente os programas de pós-graduação a realizarem o Data CAPES. Ou seja, o Lattes é uma boa plataforma, é uma forma de normalizar o currículo dos pesquisadores no Brasil e precisa ter sua importância reconhecida. Agora, infelizmente ele ainda é lento em absorver as boas novidades disponíveis na internet.

 

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/rafael1.jpg[/author_image] [author_info]Rafael Sampaio é jornalista formado pela UFJF, especialista em Comunicação e Política pelo Uni-BH e mestre em Comunicação Social pela UFMG. Atualmente, é doutorando em Comunicação e Cultura Contemporânea e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital (CEADD-UFBA). E sentiu bastante falta de ter uma foto em seu atual Lattes.[/author_info] [/author]