O discurso de ódio em comentários online

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

No último ano, ficamos estarrecidos algumas vezes com opiniões que brotaram das profundezas do juízo de alguns sujeitos e que ganharam aderência e ressonância na internet.

Pelo que me lembro, o primeiro caso de grande impacto para todo o país foi a campanha eleitoral de 2010, quando circulou algumas mensagens, sobretudo em vídeos, pintando os candidatos como funcionários do capeta. Mas, aparentemente, o discurso apelante para as tripas da moralidade faz parte das disputas eleitorais desde sempre. E, se a internet trouxe alguma novidade, foi a visibilidade pública.

(Tô falando de mensagens atacando os dois principais candidatos, certo? Por mais que tenha a impressão de que o volume de ataque à Dilma foi maior, por razões que as pesquisas de opinião explicam).

Mas foi a divulgação do resultado do pleito daquele ano que trouxe a cereja do bolo. Uma jovem paulista estudante de Direito (já esqueci o nome), sentiu-se a vontade o suficiente entre os seus seguidores de Twitter para dizer que todos os nordestinos deveriam morrer afogados (ou coisa parecida), por supostamente terem sido os responsáveis pela vitória de Dilma contra José Serra no segundo turno.

Naquela época, a opinião pública publicada nos jornais foi fortemente contrária a tais comportamentos: coisa feia que se tem direito de pensar, mas jamais o direito de pronunciar em público. Ao mesmo tempo e de lá para cá, uma série de matérias no estilo Jornal Hoje têm orientado as audiências sobre o que pode e o que não pode na internet e, em especifico, nos sites de redes sociais.

Mas, aparentemente, nenhuma netiqueta ou mesmo aqueles valores básicos que os humanos precisam aprender para viver em comunidade foram lembrados pelos comentadores dos jornais online quando do anúncio do diagnóstico, e agora do tratamento, do câncer de Lula. Alguns dos comentários que andei lendo são a tal ponto absurdos que até mesmo pensei que os seus autores tinham se esquecido de que Lula é um exemplar da espécie humana, mesmo que não concordem com os feitos políticos do ex-presidente.

Do ponto de vista da psicologia social, então, surge uma questão: por que as pessoas se sentem a vontade para manifestar ódio em comentários online? Duas respostas me parecem possíveis: primeiro, as pessoas não sabem diferenciar público e privado na web. De modo que, em algumas circunstâncias, comunicam-se em espaços potencialmente abertos ao escrutínio de desconhecidos como se fosse ambiente privado. E aí a porca torce o rabo, as pessoas, quando em privado e entre iguais, podem ser assustadoramente odiosas. Parece que sob a proteção de grupos, posições fortemente reprimidas pelo conjunto da sociedade podem florescer. Segundo, as pessoas, em algumas circunstâncias, acreditam que a sua opinião publicada na internet não irão trazer sanções por conta do anonimato ou da dificuldade de definir-se a autoria.

Enfim, não há muitas respostas para a questão. Aparentemente, este é um subproduto das sociedades plurais. Portanto, acredito, a lida com o problema deve passar pela institucionalização da disputa (argumentativa, principalmente) para evitar desrespeitos ao direito de existir do outro, que por definição é diferente. Enfim, a sociedade (através do Estado, mas não somente) deve garantir que todos respeitem a condição do outro, bem como deve promover a relação entre estes diferentes para que um consenso mínimo seja construído, que é justamente reconhecer como digna a existência do outro.

[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.imakay.org/compol/wp-content/uploads/samuel.jpg[/author_image] [author_info]Samuel Barros é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA; jornalista pela mesma Universidade; pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital; membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Democracia (CID); e do Grupo de Estudos de Políticas de Informação, Cultura e Comunicações (Gepicc); tem interesse por deliberação pública, deliberação midiática, participação política, jornalismo e dimensões teóricas e práticas de iniciativas em democracia digital.[/author_info] [/author]

Sobre a repercussão do tratamento de Lula, Thiago Rocha já escreveu aqui no blog: “Lula lá e a gente cá”: quando o preconceito e a hipocrisia tentam se vestir com a aura de ‘justiça’