Discussão e monitoramento público online: alguns tópicos de debate

O ano político de 2012 foi marcado por inúmeros escândalos, prisões de gente grande (depois soltos, é verdade), eleições, votações ao vivo, temas polêmicos na Câmara e Senado, dentre outros fatos. Situações corriqueiras, que acontecem repetitivamente todos os anos – e são naturalmente acompanhadas com atenção pelos cidadãos via veículos de comunicação. Mas um fenômeno que vem crescendo nos últimos anos é a utilização das redes sociais como forma de acompanhamento desses fatos.

A quantidade de escândalos políticos e julgamentos do STF não estão em voga à toa. A democracia do país se sedimenta a cada ano, o judiciário e instâncias investigativas (Polícia Federal, por exemplo) têm liberdade absoluta de atuação. Para os jovens, pode parecer balela isso, mas para os que viveram a ditadura essa situação é um baita avanço. De forma geral, não é a internet que faz com que essas ações citadas acima estejam visíveis, mas é a conexão das pessoas em rede que faz com que fatos políticos ganhem outras proporções. Do ponto de vista da democracia, não interessa que tipo de repercussão tome determinado caso, o que realmente importa é que as pessoas estão discutindo. Se a mudança ainda não é substancial, pelo menos está acontecendo aos poucos. As pessoas discutem de um tudo nas redes sociais, por que não discutiriam política?

Foto que ficou famosa graças ao compartilhamento em redes sociais

O monitoramento público é maior hoje, dentre tantos motivos rebocados por mudanças sociopolíticas nos últimos 20 anos, porque existe uma ferramenta de comunicação como a internet para impulsioná-lo. Veja bem: a internet não cria o desejo do nada no cidadão, mas ativa comportamentos. Os estudiosos da internet em sua gênese já diziam que o ponto chave para entendê-la é compreender o peso que a informação tem nesse contexto. Podem fala em Era da Informação ou coisa parecida. É por aí. Informação pode gerar vigilância, gera subsídios que compõem o arsenal pessoal de cada indivíduo – seja do viés do entretenimento, seja para causas mais “sérias”. E isso ocorre tanto do ponto de vista do cidadão, que se aparelha melhor com mais informação (pelo menos em potência, em muitos casos isso realmente não acontece), quanto para a mídia tradicional. Afinal, não precisa dizer como o jornalismo mudou nos últimos 15 anos – para pior ou para melhor, depende da análise.

Cenários e questionamentos

O rigor científico, no entanto, impõe ponderações. É claro que o cenário não é de revolução nem de mudanças cruciais no sistema político. A internet agrega, não modifica as relações. Mas, basta imaginar cenários comparativos. É notório que com mais informação disponível os cidadãos PODEM cobrar mais, pois têm mais opções para isso e, o mais importante, tem mais chance de dialogar entre si sobre assuntos políticos e fazer subir à margem temas de seu interesse. Já apontamos aqui exemplos de que é possível, embora de forma tímida. As discussões cotidianas no Facebook ou Twitter podem parecer simplórias e sem importância, mas atuam na formação do capital pessoal de cada um. Quando alguém elege Joaquim Barbosa como seu herói – e essa postagem é compartilhada por milhões de pessoas –, deve haver alguma importância nisso. Rede social online não é diário pessoal, que ninguém lê. Quem posta espera uma reação. Quando o julgamento do STF é vigiado por milhões de brasileiros e essa vigilância, carregada de opinião, é compartilhada diariamente, então deve haver alguma importância nisso. A opinião dessas pessoas (de todos nós) é levada em consideração para tudo hoje em dia: cinema, música, serviços bancários, ecommerce etc., por que não seria na política?

A vigilância e o monitoramento público não podem, no entanto, deixar de lado o papel das mídias tradicionais. Essas têm mais opções de busca de informação, além de contar com espaços infinitos de divulgação de notícia. Essa notícia, por sua vez, é reverberada na rede graças ao público. A ecologia midiática é muito mais complexa que há 20 anos, mesmo que os meios tradicionais ainda tenham importância central nesse cenário. E todo esse panorama é sadio para a democracia. Basta ver a repercussão dos inúmeros casos políticos de 2012: centenas de imagens satíricas, um sem número de postagens raivosas, textos analíticos produzidos por gente anônima, mobilizações ganhando ruas etc.

Ainda assim, é bom sempre voltar ao chão. Qual o real valor dessas mudanças? É preciso olhar caso a caso, como mostram inúmeros estudos mundo afora, mas mesmo que casos positivos de vigilância e monitoramente existam, qual o impacto real no sistema político? Os casos isolados são positivos porque mostram avanços ou são apenas pontos fora da curva? Em países como o Brasil, a questão da exclusão digital também é importante, pois revela quem está online e, portanto, quais os assuntos estão sendo discutidos. Além disso, a internet está servindo somente como eco da agenda proposta pelos meios de comunicação tradicionais?